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Mauro Cezar Pereira

Equipe Ludopédio

O niteroiense Mauro Cezar Pereira iniciou a carreira de jornalista em 1983. Atualmente comentarista da ESPN Brasil, Mauro Cezar passou por diversos veículos, como O Dia, Placar, Jornal do Brasil, O Globo, entre outros. Foi professor dos cursos de Comunicação Social da UNISA e na Pós-Graduação de Jornalismo Esportivo da FMU. Conhecido pela postura sincera e opiniões incisivas, Mauro Cezar participou da cobertura de edições da Copas do Mundo e Liga dos Campeões da UEFA, e comenta diariamente campeonatos nacionais e internacionais.

 

Mauro Cezar. Foto: Max Rocha

Mauro Cezar. Foto: Max Rocha

 

Primeira parte

 

Mauro, da onde veio a sua paixão pelo futebol? Como você começou? Você jogou ou sonhou jogar? Como foi o caminho até o jornalismo esportivo? Qual a sua história com o esporte?

Comecei a acompanhar futebol como qualquer garoto, com meu pai. Todo domingo víamos jogos na várzea. Desde os seis anos de idade começou a me levar ao Maracanã e depois outros estádios. Nada de diferente do padrão. Nunca pensei em ser jogador de futebol porque nunca tive qualidade e jamais me iludi com isso. Muitos garotos às vezes se imaginam jogando bola, mas eu nunca tive essa pretensão, mesmo quando moleque. Mas, desde uns 10 anos de idade, eu falava que queria ser jornalista esportivo, trabalhar com esporte. Eu fazia até um jornal e uma revista do meu campeonato de botão. Recortava revista Placar, Jornal dos Sports, fazia as manchetes, fazia os textos. E tinha um amigo meu que fazia a mesma coisa. Então, eu era o leitor do jornal dele. Ele lia o meu jornal e a minha revista. Isso entre os 10 e os 12 anos. Normalmente, as coisas seguiram. As pessoas achavam que aquilo era coisa de criança, mas não era. Era uma vocação para fazer alguma coisa na vida e isso estava muito claro. Posteriormente, eu fui perceber que o futebol me atraiu para o jornalismo, mas que são coisas distintas. A paixão pela minha profissão não depende do futebol. Quando junto as duas coisas, ótimo! Meninos da minha idade queriam ser jogadores de futebol, alguns ou muitos, eu queria ser jornalista. Sempre foi assim desde 10 anos. Até me incomoda às vezes quando as pessoas falam mal da profissão: “Ah, vai ser jornalista?! Faz outro curso.”, quando algum jovem manifesta interesse por ela. Acho isso… abominável porque toda profissão tem problemas, lado bom, lado ruim, dificuldades, gente competente, gente incompetente. Isso não é uma exclusividade da nossa área. Basicamente, foi assim. Nada muito especial no interesse pelo futebol, mas com relação ao jornalismo sempre.

Esse jornalismo pelo qual você se apaixonou, suponho, é o jornalismo dos anos 70 mais ou menos nessa época? Ou seria a época do JT?

Não, eu morava no Rio. Eu vim para São Paulo em 1993. 

Quais são as suas referências de jornalismo para você naquela época?

No início, as minhas referências eram jornais do Rio, especialmente o Jornal dos Sports e a revista Placar. Foram as duas fontes estimuladoras, além do rádio esportivo, é claro. Na época que não havia televisão a cabo e jogos na televisão eram muito poucos, o rádio era companheiro inseparável, importantíssimo, de todos os dias. Como qualquer moleque, eu narrava os jogos de botão. Óbvio, isso não tem nada de original. A diferença é que eu fazia uma revista e um jornal sobre isso. Então, era narrador, repórter, editor, tudo ao mesmo tempo. Mas aí não era tanto uma paixão pela profissão, era paixão pelo futebol e você descobrindo que me fazia bem, que aquilo me estimulava e que um dia eu poderia trabalhar com aquilo. O jornalismo já vem numa outra fase, já nos anos 80, quando eu estava na faculdade e você começa a entender um pouco melhor as coisas e gostar da profissão, independentemente do futebol. Muitos colegas trabalham só com futebol, a carreira inteira com futebol. A minha trajetória é bem diferente disso. E eu acho isso muito importante para a minha formação profissional e pessoal.

Mas esse jornalismo que você lembra como estimulante para o seu interesse na profissão e também para o futebol especialmente, ele está muito distante do jornalismo que se faz hoje?

Era outro momento. Qual era a razão pela qual a Gazeta Esportiva aqui, o Jornal dos Sports no Rio e a revista Placar no Brasil inteiro eram sedutores, especificamente, para garotos que gostavam de futebol naquela época? Eram os únicos veículos dedicados quase exclusivamente ao futebol. A Placar era uma revista semanal e os jornais que saíam diariamente, no caso de Niterói, Rio de Janeiro, onde nasci, o Jornal dos Sports. Então, eu tinha ali páginas e páginas para ler, o noticiário dos times, os dos outros estados, as entrevistas…. Enquanto nos outros jornais você tinha uma página ou duas, como é até hoje. No máximo, tinha um caderno, quando havia. Ao longo da história, eles aumentaram ou diminuíram de tamanho. Hoje, é diferente. Você entra na internet e tem inúmeros portais que fazem cobertura factual, tem sites focados em nichos. Há uma facilidade muito grande. Você pode assistir a jogos lá de fora, ver vídeos. Um mundo completamente diferente. Então, aqueles veículos eram os que faziam com que a gente se interessasse de fato. “Matavam a nossa fome”, digamos assim.

Na faixa de idade de 11 e 12 anos em que você está saindo da infância para entrar na adolescência, em que as meninas ainda não te despertam interesse e que você está preocupado mais em brincar e se divertir – você ainda é criança, ainda não entrou naquela fase da adolescência que te prepara para a fase adulta –, o futebol te toma o tempo quase todo, porque é um grande prazer. Você não tinha informação. A gente acabou de ver o Leicester ser campeão inglês. Você não via isso nos anos 70, 80. Você não tinha como saber disso. Você via uma notinha num canto de página de jornal, talvez dois dias depois, dizendo que aconteceu algo inusitado, que um time pequeno ganhou um campeonato num país lá na Europa. Então, era um outro mundo, uma outra situação, outra realidade, muito diferente do que acontece hoje.

A gente tem um fórum regular na nossa página em que sempre se discute o papel da imprensa e como os veículos se comportam, e existe um número razoável de comentários apontando uma mudança que o canal da ESPN Brasil tem tido nos últimos tempos. Para esse público em específico, a ESPN Brasil sempre foi um canal com um corpo de jornalista muito crítico. O que eles alegam em geral é que muitos desses jornalistas estão saindo e que a “pegada” do canal está um pouco mais descontraída, mais “light”. A gente queria saber o que você pensa sobre essa mudança e se isso corresponde com a realidade.

Bem, isso é uma percepção de quem está de fora. Eu posso falar dos programas que eu faço. Os programas que eu faço não têm essa “pegada” humorística. Eu faço o Linha de Passe, às segundas e sextas-feiras – quase toda sexta e segunda-feira sempre –, e faço o Bate-Bola nos outros dias da semana. O Bate-Bola que eu faço é apresentado pelo João Carlos. O programa com o João sempre é muito engraçado porque ele é um comunicador. Ele é um cara extremamente inteligente, muito culto, carismático e um excelente comunicador que consegue colocar humor em várias situações, mas entendo que, no geral, com gosto, com inteligência para colocar aquilo ali, inclusive sem se apoiar em colegas, sem fazer piadas grosseiras, sem direcionar apelidos ou coisa do gênero.

Quando eu vim para cá em 2004, eu já tinha uns dezenove anos de carreira. Eu custei um pouco a entender uma coisa que para mim hoje é muito óbvia: o jornalismo esportivo na televisão, e no rádio também, ele tem viés de entretenimento. Por quê? As pessoas que veem programação esportiva, futebol, elas veem também para se distrair. Você não liga a TV para ver um jogo de futebol pensando: “Nossa, esse é um fato jornalístico seríssimo! Duas equipes vão se enfrentar e pode acontecer algo assim…”. Não. Você liga também para se distrair, para matar o tempo, para ter prazer.

É diferente do noticiário econômico. Se você ligar no programa Conta Corrente, na Globonews, por mais que eles tentem arejar o programa, colocar gráficos, um apresentador mais jovial, uma linguagem mais informal, são assuntos áridos. Ninguém se diverte. Aliás, a Gazeta Mercantil, durante todos os anos que foi publicada, ela não saiu aos domingos, e o Valor Econômico também. Ninguém vai comprar um jornal de economia para ler no domingo. Você vai comprar um jornalão, que vai ter um caderno de economia ou algumas matérias, e geralmente no domingo até com uma outra “pegada”, menos árida.

O esporte, não. O esporte, e evidentemente o futebol entre eles, talvez principalmente por ser o maior dos esportes, tem esse lado do entretenimento. Você liga para ver um programa de futebol, e ele não pode ser o tempo todo tratando tudo como se fosse extremamente sério. Hoje eu entendo dessa maneira, mas tem que ter a medida certa. Você tem que equilibrar isso de maneira que faça jornalismo prioritariamente. Informe, dê opinião, de maneira responsável, crítica. Ser crítico é fundamental. Aliás, em qualquer área do jornalismo. Eu abro um jornal para ler um comentarista de uma área política, por exemplo, e ele é um vaselina. O que me acrescentou perder três minutos lendo aquele texto? Eu ligo a TV e o cara vai comentar economia, mas ele fica em cima do muro, defende e ataca o governo ao mesmo tempo e não explica nada. Então, a nossa função é tentar apresentar para esse consumidor de informação, de opinião, situações que permitam a ele formar seu ponto de vista, concordando ou discordando, mudando de ideia ou não.

Eu acho que a televisão esportiva tem, de fato, esse viés. Agora, isso que acabei de dizer é mais importante, senão deixa de ser jornalismo e passa a ser um pretenso programa humorístico. E aí perde muito o sentido. Vou dar um exemplo: um dos programas mais antigos da casa, e com a formação inalterada, sei lá há uns 20 anos, é o Sportscenter do fim de noite, que tem o Antero Greco e o Paulo Soares. Quando eles foram reunidos no programa – eu não trabalhava na ESPN Brasil ainda, mas conheço a história –, a ideia não era colocar um gordo e um magro, o gordo ri à toa e o magro é um sacana e brincalhão. Só que o Antero é assim o tempo todo, é uma pessoa muito comunicativa e que brinca o tempo todo. Faz piada, sacaneia, fala bobagem… Ele é um ótimo jornalista, um cara extremamente inteligente, culto, uma pessoa de ótimo caráter, inclusive é um dos caras mais corretos que eu conheço na TV, e ao mesmo tempo é um cara divertido. A natureza dele é essa. Então, imagino que ele seja assim na casa dele, com a família dele, ele é assim no ambiente de trabalho, quando estava na redação do Estadão e por aí vai. E puseram o Antero do lado do Amigão. O Antero é assim, fala coisas que o Amigão não espera, e este não consegue prender o riso e começa a rir feito louco. Aquilo, no fim de noite, quando você já passou o dia inteiro de trabalho, estudo, é a justa medida. Você para para assistir um programa esportivo no fim de noite por quê? Porque aquilo te distrai. Das 11 da noite até meia-noite, você liga a TV e fica ali vendo e logo vai dormir. Outro exemplo: o Jô Soares, quando estava lá nos primórdios dos seus programas de entrevistas, ainda no SBT, tinha aquele slogan “Não vá pra cama sem ele! ”. Por quê? Porque o propósito de um programa de talk show é também distrair, por mais que os assuntos sejam sérios. Então, eu acho que aí você tem mais ou menos a medida, o que eu acho o ideal. Agora, isso tem que ser natural. Se você tentar reproduzir isso, tentar imitar, vai soar ridículo. Eu, por várias vezes, substituí o Antero no Sportscenter, especialmente no meu começo aqui, entre 2005 e 2007, geralmente quando ele saía de férias, e evidentemente nunca tentei fazer aquilo porque não saberia, não é o meu perfil. Seria patético. É a mesma coisa quando os dois estavam de folga no fim de semana, e no sábado, além de mim, era escalado um outro apresentador. Enfim, aquilo é uma característica deles dois. Quando é assim, acho que é legal, faz parte e é preciso entender isso. Demorei um pouquinho a entender, admito isso, no começo.

Mas essa medida, Mauro, sobre entretenimento, informação é superdelicada. Isso tem a ver com outras medidas. Uma medida é aquela que você tocou que é a do posicionamento do jornalista para ser crítico para qualquer direção, de dar a cara e não ficar “chapa branca”. Isso é uma coisa delicada no jornalismo, supomos, de o jornalista se posicionar dizendo “sou a favor disso”, “sou a favor do impeachment” ou “sou contra o golpe”, por exemplo. Isso prejudica? Quanto prejudica? Como funciona na prática? Poderíamos dizer que o Lúcio de Castro é uma dessas figuras, que se prejudicou por se expor tanto assim?

O Lúcio é um dos grandes jornalistas brasileiros da atualidade. Ele fez, indiscutivelmente, algumas das principais matérias da história do canal, além de documentários como Memórias do Chumbo, especialmente, aliás, premiadíssimo! Acho que o mercado hoje tem uma certa dificuldade de absorver profissionais com esse perfil. Apesar de Spotlight ter vencido o Oscar, aquela história real não se reproduz no nosso país, no jornalismo no Brasil, salvo talvez algumas exceções. O que eu acho muito preocupante, principalmente para o jornalismo impresso. Cada vez mais partidário, panfletário até em alguns momentos e cada vez mais irrelevante, porque você acaba tentando vender para quem ainda consome jornal impresso uma ideia sua. Eu acho que isso é uma questão do mercado. O mercado e muitos veículos não querem aparentemente fuçar mais essas “casas de marimbondos”, esses “vespeiros” e tudo mais.

E isso colabora com a irrelevância. O que acontece? Começa a rolar um jornalismo de Facebook. Outro dia eu vi um levantamento feito por uma instituição que eu não me lembro agora sobre a questão do impeachment. Naquela semana, três foram as notícias mais lidas na internet sobre o assunto em questão, duas eram falsas e uma era verdadeira. Esse é o jornalismo de Facebook, de um cretino mal-intencionado ou um bobão mesmo ingênuo. Vai lá e posta alguma coisa, e aquilo vai propagando, propagando, e as pessoas encaram como se fosse verdade. Não dá para viver assim a vida inteira. Vai chegar uma hora que vai faltar ar, e as pessoas vão precisar de informação real. Não sei de que maneira isso vai acontecer, mas acho que os veículos vão ter que se reposicionar.

Então, um cara como o Lúcio deveria ser disputado a tapa pelos veículos em geral. Não é o que acontece, tanto que ele não está trabalhando neste momento em nenhum veículo, está fazendo alguns frilas, alguns projetos dele, mas ele não está no Globo, no Estadão, na Folha, não está na ESPN, na Sportv, na Globo, no SBT… O que eu acho muito ruim. Agora, a saída dele da ESPN, o que eu soube na época, é que acabou a estrutura no Rio que permitia a eles entrarem ao vivo, tanto que com ele saíram também outros colegas que faziam programas diários ou semanais, como o Márcio Guedes, o Fernando Calazans, o João Máximo, que pararam de fazer também. Saíram todos porque, de fato, acabou o estúdio no Rio e posteriormente a sucursal também deixou de existir como era por uma questão da empresa, estratégica, econômica. Aí não sei, não posso falar sobre isso porque não tenho função de executivo, sou só um comentarista, não participo dessas decisões. De uma forma ou de outra, eu acho que num mundo mais próximo do ideal um cara como o Lúcio estaria trabalhando sempre em algum lugar, porque o que ele entrega é muita coisa, não é pouco. Pouca gente tem essa capacidade hoje no jornalismo brasileiro.

Confira em breve a segunda parte da entrevista!