Copa 2014: lições a partir da Copa América da Venezuela

Paulo Miranda Favero
03.02.2010

A Venezuela tem o beisebol como seu esporte mais popular. Mas o país sabe que não pode ignorar o esporte mais popular do mundo. Entre junho e julho de 2007, a Copa América foi realizada naquele país. Contou com todas as seleções pertencentes à Conmebol, além de Estados Unidos e México. Primeiramente, é preciso entender a realização da Copa América em um país que não gosta de futebol – e também tirar algumas lições que podem ajudar o Brasil para organizar a Copa do Mundo de 2014. Além do beisebol, basquete, vôlei, rúgbi e boxe também são esportes comuns na rotina do venezuelano. A principal intenção foi popularizar o futebol no país e o interesse na Copa América foi mais por ser um evento esportivo grandioso do que pelo esporte e si. E, claro, por ser também um grande negócio.

Pensando nas questões de geopolítica, o presidente Hugo Chávez fez de tudo para conseguir um uso político da competição. Todas as cidades-sede passaram por processos de mudanças na infra-estrutura, cartazes com propagandas do governo eram vistos nas ruas e nos estádios e material político sobre o Socialismo Bolivariano foi distribuído para a imprensa estrangeira. Estava claro que a tentativa era usar o futebol como forma de popularizar o regime chavista.

Uma situação curiosa foi ver um banner do governador Tarek William Saab, do estado de Anzoátegui, que foi sede do Brasil na primeira fase da Copa América. Ele é muito amigo de Chávez, que o chama de “O Poeta da Revolução”. Tarek tinha fotos espalhadas por todos os lados e declarou: “Minha aprovação (pela população) é de 60%. Depois da Copa América, vai passar dos 70%”. O banner abaixo ilustra bem o uso político do torneio.

Cartaz com o governador do estado de Anzoátegui, na VenezuelaAlém do uso político, era nítida a intenção de usar a Copa América como negócio. Em alguns estados, a intenção era usar a competição para colocar a Venezuela no mapa turístico do mundo. Muito dinheiro foi envolvido para dar um padrão “europeu” para a competição, principalmente para os campos de jogo. O torneio contou com transmissão para 186 países (em três idiomas – espanhol, português e inglês) e público acumulado de 4 bilhões de pessoas para assistir aos jogos. Com o convite para os Estados Unidos participarem do torneio, o evento teve uma inserção no mercado norte-americano. No total, mais de 4 mil profissionais de imprensa estavam envolvidos na cobertura jornalística.

Para conseguir realizar a Copa América, a Venezuela teve de construir dois novos estádios e remodelou outros sete. Os gastos foram superiores a US$ 500 milhões para as obras dos estádios e todos foram considerados de nível europeu. Houve uma disputa política para ver quem seria sede de partidas importantes, mas a concentração das sedes ocorreu na parte norte do país. Apesar do esforço, muitas obras estavam inacabadas durante a competição e os políticos fizeram a promessa de que espaços (estádio, campos de treinamento) serão usados para escolinhas de futebol para crianças carentes.

Sedes da Copa América 2007, na Venezuela

Algumas coisas interessantes podem ser relatadas pensando numa comparação com nosso País. A principal delas, grande diferencial em relação ao Brasil, é que a paisagem venezuelana apresenta poucos campos de futebol. Outro diferencial é em relação ao tratamento do torcedor. Apesar da venda problemática de ingressos, havia uma grande quantidade de bilhetes a preços populares e as tevês estatais transmitiram todos os jogos.

A ideologia chavista estava em toda parte, como já colocado. Inclusive em detalhes nos próprios estádios. Em Maracaibo, palco da final da Copa América entre Brasil e Argentina, as paredes estavam pintadas com desenhos de Che Guevara e Simon Bolívar, conforme imagens abaixo:

Pinturas na parede do estádio de Maracaíbo, palco da final da Copa América 2007

Ao final da competição, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, elogiou a organização do torneio e prestigiou a decisão da Copa América. Sinal de status para a Venezuela e para a Confederação Sul-Americana de Futebol. Aliás, para o projeto geopolítico da Conmebol, isso é fundamental. Assim como o convite para México e Estados Unidos. Outro fator importante é que o torneio foi realizado em ano diferente da Eurocopa, a principal competição de seleções da Europa. Mas a Copa América é o torneio de seleções mais antigo do mundo e uma excelente vitrine para mostrar o talento dos sul-americanos, ou seja, para a exportação de atletas. Milhares de empresários de jogadores estavam na Venezuela para tentar fazer negócio.

Até o presidente da Fifa pediu que as outras seleções olhassem para a Copa América como o exemplo de futebol bem jogado, que se mirassem no futebol ofensivo que foi apresentado na competição. Joseph Blatter até elogiou a final entre Brasil e Argentina: “não apenas deslumbraram os espectadores presentes no estádio, mas também a centenas de milhões de telespectadores, provando o valor do futebol sul-americano no mundo todo”. Mesmo assim, no futebol globalizado, Brasil e Argentina continuarão exportando seus melhores atletas e os jogadores da Seleção Brasileira não terão identificação com a torcida, pelo fato de fazerem suas carreiras fora do país. E o caso da Venezuela serve de aprendizado, tanto erros quanto acertos, para um País que será sede da Copa do Mundo de 2014.

Bibliografia
COSTA, Wanderley Messias da. Geografia Política e Geopolítica. Tese de Doutorado, São Paulo, 1990.

MASCARENHAS, Gilmar. A bola nas Redes: Futebol, Território e Conectividade no Brasil. Trabalho de Pós-Graduação, Rio de Janeiro, 1999.

VESENTINI, José William. Imperialismo e Geopolítica Global. São Paulo: Papirus, 1990.

Paulo Miranda Favero é jornalista, geógrafo, mestrando em Geografia Humana na FFLCH-USP com apoio do CNPQ e participante do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol).
 
Esse texto foi originalmente publicado no site Universidade do Futebol e cedido pelo autor para publicação nesse espaço. 
 
 

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