Só preconceito, não. Discriminação, pelo menos! Por que não se discute o racismo no futebol brasileiro?
Marcel Diego Tonini
07.07.2010
A cada caso de racismo no futebol brasileiro, aparece sempre um advogado para dar a sentença final, dizendo que o ato praticado por algum jogador não se configura crime de racismo, de acordo com a legislação brasileira. No caso ocorrido em 2009 e que envolveu os jogadores do Cruzeiro, Elicarlos, e do Grêmio, Maxi López, isto ocorreu mais uma vez.
Rodrigo Barros Oliveira, em texto publicado no blog do jornalista Juca Kfouri, argumenta que:
Ao ler este tipo de argumentação, sempre fico com a impressão de que se minimiza o ato hostil praticado, a sua importância na sociedade e, neste caso, no futebol brasileiro, e a discussão pública em torno dele. Além disso, o eixo do debate é deslocado das práticas sociais e culturais – o que é pra mim a parte fundamental da discussão – para a terminologia jurídica mais apropriada. A despeito do que a nossa legislação entende por racismo, ou seja, qual ato pode ou não ser caracterizado como crime de racismo, o jogador Elicarlos fez um uso popular de tal conceito, qualificando de racismo a atitude ou o comportamento agressivo por parte de Maxi López pelo fato de o volante cruzeirense ser negro.
Se bem entendi as aulas que assisti e os textos que li do renomado antropólogo Kabengele Munanga, professor da FFLCH-USP, podemos distinguir os termos preconceito, discriminação e racismo da seguinte maneira. Preconceito é uma disposição afetiva imaginária, ligada aos estereótipos étnicos. Inconscientemente, a pessoa preconceituosa valoriza as diferenças entre o que se entende por “raças humanas”, as quais são baseadas principalmente pela cor da pele. Assim, esta pessoa, evita, sem exteriorizar seus pensamentos, determinados lugares onde a maioria é negra, por exemplo. Discriminação é um comportamento individual ou coletivo observável. Conscientemente, a pessoa que discrimina valoriza tais diferenças e estabelece uma hierarquia racial na qual o branco é, para ele, superior ao negro. Neste sentido, esta pessoa verbaliza ou assume em público, por exemplo, que não vai a determinado lugar porque lá tem maioria negra. Racismo é um discurso ou uma doutrina que tenta legitimar a crença na existência de raças naturalmente hierarquizadas pela relação intrínseca entre o físico e o moral, o físico e o intelecto, e o biológico e o cultural. O racista registra de algum modo a sua crença ideológica quer para dominar, quer para inferiorizar negros, judeus ou pessoas de outras “raças”. Assim, o racista usa, por exemplo, uma camiseta com os escritos: “Não vou a determinado lugar porque lá tem negros!”.
Penso que mais importante do que a precisão jurídica ou mesmo conceitual para denominar o ato cometido por Maxi López é a discussão profunda na imprensa brasileira – não só a esportiva – das atitudes discriminatórias que vêm acontecendo de maneira recorrente no futebol nacional. Por que depois de Mario Filho houve um silenciamento por parte dos nossos jornalistas no tocante à questão? Será que depois da segunda edição de O negro no futebol brasileiro (1964) não há mais o que falar sobre as dificuldades enfrentadas pelos negros para a sua afirmação neste esporte (tanto no passado quanto no presente)? Será que depois de Pelé é besteira discutir atos discriminatórios no futebol brasileiro? Ou os negros deixaram de sofrer injúrias – se este é o termo correto – nas décadas de 1970, 1980, 1990 e 2000?
Por que existem pouquíssimos árbitros, treinadores, jornalistas negros? E dirigentes negros? Se o nosso futebol é recheado de grandes craques negros, por que eles têm pouquíssimo espaço de atuação em outras profissões do universo do futebol? Seria impreciso entender a estrutura do nosso futebol como um racismo institucionalizado? O que acontece dentro de campo deve ficar dentro das quatro linhas? Ou o estádio é um espaço especial onde a legislação brasileira não deve ser aplicada? Chamar ou xingar um jogador negro de “negão”, “neguinho”, etc. é “normal” como pensam muitos brasileiros? É um xingamento igual a qualquer outro? Se um jogador negro “aceita” um apelido preconceituoso, então não há problema? Alguém perguntou a ele como se sente e se sentiu desde que começou a jogar bola? Até quando árbitros, treinadores, dirigentes, jornalistas, etc. e os próprios jogadores companheiros serão coniventes com atitudes discriminatórias que acontecem dentro e fora de campo? O que será que acontece nos vestiários, no dia-a-dia dos clubes? E o racismo velado através de indiretas, de “brincadeiras”, de ofensas comuns, de apelidos, de demissões com justificações outras que não a racial? Alguém já perguntou destas “sutilezas” aos negros do nosso futebol? O que falar, então, dos gritos das torcidas (“favela”, “pó-de-carvão”, “macacada”...)?
Por que a imprensa esportiva costuma abordar o racismo de forma sensacionalista? Por que quando um brasileiro é hostilizado no exterior a discriminação ganha muito mais evidência do que quando ocorre dentro deste país? Por que a injúria é super-exposta quando a mesma parte de um argentino ou de outro estrangeiro? Alguma autoridade policial averiguou quem atirou a banana com as inscrições “Grafite macaco” naquele amistoso entre Brasil e Guatemala? Ou foi um torcedor guatemalteco que a lançou para dentro de campo? Por que neste episódio a imprensa não deu a mesma atenção? Por que ninguém fala mais do que aconteceu entre os jogadores Elias (Corinthians) e Felipe (Goiás) no dia 14 de junho? Ou entre Cris (Brasiliense) e Márcio Alemão (Guarani) no último dia 7 de julho? Há diferença entre o “macaquito” e o “macaco”? Quando vem de fora é racismo e quando vem de dentro é apenas um xingamento, uma injuriazinha? Ninguém toca na questão porque aqui todos têm, como se diz popular e pejorativamente, “um pé na cozinha”, sendo todos mestiços, e porque somos um país onde não há racismo? Somos o país da democracia racial? Este é o nosso legado para o mundo? Afinal, aqui é o “paraíso racial”, não é? Ou este é um assunto “tabu” ou “menor” que não deve ser tratado pela nossa imprensa? Ou a opinião deste leigo – no tocante às minúcias da legislação brasileira – não serve para refletirmos a questão?
Bibliografia
CORRÊA, Lúcia Helena. Racismo no futebol brasileiro. In: DIEGUEZ, Gilda Korff (Org.). Esporte e poder. Petrópolis: Vozes, 1985.
MUNANGA, Kabengele. Teorias sobre o racismo. In: HASENBALG, Carlos A.; MUNANGA, Kabengele; SCHWARCZ, Lília Moritz. Racismo: perspectivas para um estudo contextualizado da sociedade brasileira. Niterói: EdUFF, 1998.
_____. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. In: BRANDÃO, P. Programa de educação sobre o negro na sociedade brasileira. Niterói: EdUFF, 2004.
OLIVEIRA, Rodrigo Barros. Injúria, talvez, racismo, não! 2009. Disponível em:http://blogdojuca.blog.uol.com.br/arch2009-06-21_2009-06-27.html#2009_06-26_11_41_49-9991446-0. Acesso em: 26/06/2009.
VIEIRA, José Jairo. Considerações sobre preconceito e discriminação racial no futebol brasileiro. Teoria e Pesquisa, São Carlos, n. 42-43, p. 221-244, jan./jul. 2003.
Marcel Diogo Tonini é Cientista social (UNESP), mestrando em história social (USP) e membro do GIEF (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol), do MEMOFUT (Grupo de Literatura e Memória do Futebol) e do NEHO (Núcleo de Estudos em História Oral-USP).



