61.5

11 lições da Copa

Marco Lourenço

Sim! Teve Copa! A Copa das Copas? O Brasil perdeu em campo e ganhou fora dele? Crise do futebol brasileiro? Diante da avalanche de comentários analisando os efeitos da Copa do Mundo, apresento uma escalação das lições mais marcantes desta competição!

1. A Copa das Copas. A despeito das obras de infraestrutura inacabadas, dos acidentes na preparação e durante a realização da Copa e todo mau agouro propagado sobre o desempenho do seu entorno, a Copa do Mundo tornou-se um sucesso reconhecido internacionalmente. Enquanto os turistas desfrutavam das atrações naturais e do entretenimento do país, brasileiros confraternizavam o ambiente festivo que foi inflamado por partidas absolutamente movimentadas e emocionantes.

2. A Copa dos recordes. Números expressivos sobre o desempenho técnico das seleções foram um grande atrativo ao espetáculo: o novo artilheiro das Copas, Miroslav Klose, com 16 gols; Ravshan Irmatov, árbitro uzbeque, o homem que mais apitou copas, 9 vezes; 2º maior público das Copas, com 3,4 milhões de espectadores; maior audiência esportiva no twitter, 35,6 milhões, durante Brasil e Alemanha.

3. A Copa dos goleiros. Tim Howard, responsável pelo recorde de defesas numa mesma partida, 16, é apenas um dos destaques. Keylor Navas, o menos vazado com dois gols, Guillermo Ochoa, Claudio Bravo e Manuel Neuer tornaram-se figuras heróicas da Copa pelas grandes partidas disputadas.

4. A Copa dos leigos. Com estádios repletos de brasileiros ágrafos seja no verso ou na prosa do futebol, muitas descobertas foram feitas. Jogadores de seleções menos expressivas tornaram-se celebridades no país por boa parte do público. O caso mais emblemático é o camisa 10 do Mônaco James Rodriguez, artilheiro da competição com seis gols marcados.

Foto: Marcello Casal Jr – Agência Brasil (19/06/2014).

5. A Copa dos boleiros. Para os torcedores de futebol que acompanham o esporte de maneira geral, a Copa foi um espetáculo de exibição de repertórios táticos, técnicos e estratégicos. Mesmo as previsões mais conservadoras sobre o desempenho das seleções foram derrubadas pela aplicação de uma Costa Rica – invicta na Copa – ou de uma Argélia que segurou a futura campeã Alemanha até a prorrogação.

6. A Copa do sorriso. As delegações estrangeiras, com poucas exceções, se adaptaram com extrema facilidade às condições locais. Ingleses, holandeses e franceses passeavam pelos campos, praias, ruas e até aldeias indígenas, criando um ambiente bastante amistoso. Mas nenhuma seleção estrangeira foi tão carismática e demonstrou tamanha satisfação em estar presente no país como o time alemão. A trupe de Neuer, Podolski, Schweinsteiger e cia confraternizaram e enalteciam os lugares e a gente brasileira através de dezenas de manifestações públicas e nas redes sociais.

7. A Copa da questão emocional. Antes mesmo da sofrida classificação brasileira diante do Chile nas oitavas-de-final, discutia-se o aspecto emocional no futebol da Copa. O caso Luís Suarez abriu uma série de discussões sob consulta de psicólogos e psiquiatras com o objetivo de compreender as matrizes do comportamento vampiresco do melhor jogador uruguaio da atualidade. Mas nada se compara à chuva de lágrimas proporcionada pelo time anfitrião. Do goleiro “emotivo”, passando pelo capitão “guerreiro” e chegando até o craque “sonhador” do time, a seleção brasileira esteve sob explícito desequilíbrio. Muitos cronistas negavam esta teoria com o argumento de que se escondia a incompetência dentro de campo com o nervosismo e tensão dos atletas. Ao final da competição viu-se que a seleção não oferecia preparo técnico, tático ou mesmo emocional.

8. A Copa que não foi de Messi. Havia uma inquietação sobre a participação de Messi neste mundial. Tratava-se do seu momento de provação, para galgar um outro lugar na história do futebol. Essa visão ao passar do tempo se fortaleceu com uma hipótese simples de que a Argentina, há 28 anos sem títulos mundiais, seria uma espécie de Brasil de 1994, com personagens e postura semelhante. Mas “El Pibe” não foi Romário, embora Javier Mascherano tenha sido muito semelhante ao capitão Dunga. A diferença esteve no oponente? Talvez. A Alemanha de 2014 pode até não ser tecnicamente superior à Itália de 1994, no entanto, a ideia de futebol empregada no país de Gerd Müller, Beckenbauer e Lothar Matthäus e sobretudo Jürgen Klinsmann permitiu que a sua seleção participasse de seis semifinais consecutivas, e assim, dentre outras coisas, se habituasse com o pódio.

Foto: Marcello Casal Jr – Agência Brasil.

9. Não tem mais bobo na Copa. Assim como os analfabetos da bola, até mesmo os mais apaixonados pelo esporte se surpreenderam com o resultado do “bolão da firma”. Espanha, Itália e Inglaterra mal sentiram o gosto da epifania do futebol. Viu-se uma seleção australiana fazendo um jogo de igual pra igual com a terceira colocada na Copa, Holanda, que teve o melhor jogador da competição de fato – Arjen Robben. Pudemos ver uma partida extraordinária de seis gols entre Argélia e Coreia do Sul, vencida pelo time que ainda jogaria de forma competitiva 120 minutos de futebol com a futura campeã, contando com boa parte elenco no mês do Ramadã.

10. Não teve futebol brasileiro. Se o futebol brasileiro é um sinal de qualidade, marca história legitimada pelo pentacampeonato, em 2014 vimos uma absoluta prova de que o futebol verde-e-amarelo passou por uma grande mudança, tornando-o irreconhecível. O 7×1 na semifinal contra a Alemanha oxalá ser um divisor de águas para uma reviravolta. Até o presente, tratou-se do sintoma mais agudo diante de tantos outros que são apontados diariamente e ignorados pelos gestores do futebol no país. O país que foi tricampeão em 1970 havia vencido três das últimas quatro Copas não pelo milagre da genialidade dos atletas, por intervenção divina ou pela recente marca do “time de guerreiros”. O Brasil tornou-se referência exibindo ainda o atleta do século porque cuidou da seleção brasileira como nunca havia cuidado. A seleção possuía um importante respaldo da preparação física e foi inegavelmente um marco da evolução tática na composição do terceiro homem de meio campo, consagrado na figura de Zagallo. Embora essa compreensão não esteja difundida, a teoria da “falta de raça” deu lugar a uma certa obsolescência geral do futebol brasileiro perante o futebol europeu, fundamentalmente. Poucos se salvaram, como Thiago Silva, David Luiz e Neymar. Alguns dos mais culpados, aqueles que ocupam o alto comando do futebol, perambulam, como nunca antes visto, no raio dos culpados.

Foto: Marcello Casal Jr – Agencia Brasil (08/07/2014).

11. A Copa vencida pelo país do futebol. Sem exageros acalorados pelo momento, é possível dizer que o futebol alemão mostrou sua hegemonia. A reformulação iniciada em 2002 é apenas mais um ciclo de trabalho dentre tantos outros que levaram a seleção germânica ao topo do futebol mundial. A continuidade é apenas um sintoma da ideia de futebol na Alemanha. Sepp Herberger (1936-1964), Helmut Schon (1966-1978) e Franz Beckenbauer (1984-1990) e agora Joachim Löw (2006-2014) trouxeram títulos europeus e mundiais. O futebol alemão que sempre teve um traço de ofensividade e força física passou a produzir talentos técnicos, com repertório de dribles e passes que o promovem como espetáculo. O futebol de um país que ano após ano mantém seus estádios com 100% de ocupação e que sempre chega às fases finais das principais competições europeias é de fato um modelo bem sucedido. Mais que a geração talentosa e preparada para grandes jogos, o futebol alemão tornou-se um grande exemplo de gestão, formação de atletas, treinadores e profissionais da área. Nada explica melhor o sorriso de Bastian Schweinsteiger minutos antes de enfrentar o Brasil: a confiança e o prazer de estar naquela semifinal sabendo que o caminho para a vitória havia sido percorrido com muito trabalho e competência.