139.12

1979 – Futebol, política e uns respiros de liberdade

Alexandre Fernandez Vaz

Em 1 de setembro de 1979, o Aeroporto Internacional do Galeão viu a delegação do Clube de Regatas do Flamengo chegar da Europa, onde vencera o Troféu Ramón de Carranza, em Cádiz, um dos mais tradicionais torneios amistosos do Velho Continente. Não era incomum que times daqui disputassem partidas eventuais ou que valessem taça no verão europeu. Contendas preparatórias para os locais, que ainda começariam suas temporadas esportivas, e boas oportunidades para auferir uns dólares para as equipes brasileiras, que se ausentavam por alguns dias dos campeonatos regulares. O giro flamenguista incluíra também um empate com o Atlético de Madrid e uma derrota frente ao Paris Saint-Germain.

Troféu Ramón de Carranza, vencido pelo Flamengo em 1979 e 1980. Foto: Wikipedia.

O Fla vencera o Carioca de 1978 – com o famoso gol de Rondinelli, de cabeça, completando escanteio batido por Zico, já final do jogo contra o Vasco – chegando ao tricampeonato no ano seguinte, já que houve dois torneios estaduais no mesmo ano, por incrível que pareça. Logo seria campeão brasileiro, da Libertadores e da Copa Intercontinental, com o histórico time liderado por Zico. Foi dele, aliás, o gol da vitória em Cádiz, contra o Barcelona, completando o placar que fora aberto pelo ponta-esquerda Júlio Cesar, apelidado de Uri Geller, em referência ao ilusionista israelense que dizia entortar colheres – os dribles do jogador entortariam, por assim dizer, os marcadores.

Junto com os flamenguistas chegava ao Rio de Janeiro Fernando Gabeira, que recebera o benefício da Lei da Anistia publicada poucos dias antes, depois de um exílio de quase uma década. Carregado nos ombros de amigos e companheiros de luta pela democracia no Brasil, o jornalista aparece em imagens da época ao lado do troféu conquistado pelos rubro-negros, em momento de dupla comemoração. Dez anos antes, foi próximo ao estádio do Maracanã que o embaixador estadunidense Charles Elbrick deixara o carro que o transportava, depois das exigências de seus sequestradores – um grupo formado por membros do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e da Aliança Libertadora Nacional (ALN), incluindo o próprio Gabeira – serem atendidas: a leitura de um manifesto por rádio e televisão, a liberdade de 15 presos políticos. No estádio haviam jogado Fluminense e Cruzeiro, na rodada inaugural do Roberto Gomes Pedrosa, o campeonato nacional de então. Os mineiros venceram por 3 x 0.

Se foi um ano decisivo para a política brasileira, cujo processo de redemocratização era lento e, final das contas, até hoje não alcançou pleno êxito, no futebol houve fortes emoções. Enquanto Miguel Arraes, Leonel Brizola, Dulce Maia e outros exilados voltavam ao país, Sócrates despontava no Corinthians e passava a ser habitué da seleção brasileira. Telê Santana dirigia um empolgante Palmeiras, a Copa América via a forte seleção paraguaia, de Julio César Romero, o Romerito, sair vencedora. O talentoso meio-campista do Sportivo Luqueño faria uma escala no New York Cosmos antes de ser o craque do Fluminense campeão brasileiro de 1984.

Na mesma Copa América, em 23 de agosto, o Brasil enfrentou a Argentina no Monumental de Nuñez, em Buenos Aires. Lembro-me de ver o treinador Cláudio Coutinho, capitão paraquedista do Exército Brasileiro, ser perguntado se seria mais desafiador saltar sobre a Amazônia ou jogar contra os argentinos, em seu país. Metódico, disse que em Copas era mais difícil o superclássico sul-americano, mas em comparação com um jogo de Copa América, o salto apresentava mais obstáculos. A partida terminou empatada em dois gols, os do Brasil foram de Sócrates.

Foi naquele ano que Maradona, jogando com o número 6, fez seu primeiro gol pela seleção principal da Argentina, e que venceu a segunda edição do Mundial de Juniores, jogado no Japão, em campanha estelar junto com Ramón Díaz. Ao contrário do Brasil, onde os torneios internacionais de categorias de base não têm tanto apelo, lá a dupla de atacantes foi capa em todos os jornais e revistas. Diego fez muito em 1979, inclusive um golaço em junho, já envergando o 10 nas costas, contra Emerson Leão, goleiro brasileiro que defendia a meta da seleção da FIFA, em amistoso em Buenos Aires. (O mesmo Leão, aliás, que, atuando pelo Vasco, fora vencido pelo gol de Rondinelli mencionado acima). Quem assistiu à partida, que foi numa noite de segunda-feira, testemunhou a atuação de Zico, que entrou no lugar de Platini no segundo tempo e fez de tudo, levando o time visitante à vitória. O mesmo Galinho renunciara, dois meses antes, à 10 do Flamengo, aquela com a qual venceu tantos títulos, quando os cariocas enfrentaram o Atlético Mineiro em amistoso para arrecadar fundos para os desabrigados da grande enchente que Minas Gerais sofrera. O gesto teve reverente motivação, já que Pelé, já aposentado, atuaria como convidado em parte do primeiro tempo. Pelé, Maradona, Zico, a mesma camisa, três fenômenos, mas de diferentes grandezas.

No Brasileiro daquele ano, o Fla não foi, no entanto, páreo para o Palmeiras. No ataque do time de Telê jogava Jorge Mendonça, ladeado por Jorginho, César Maluco e Baroninho, e uma vitória alviverde por 4 x 1 no Maracanã, frente a mais de cem mil pessoas, tirou o rubro-negro do campeonato. Mas, no caminho do Palestra havia o Internacional, e nas semifinais prevaleceu o Colorado, com direito a dois gols antológicos de Falcão no jogo de ida, no Parque Antártica, perfazendo a vitória por 3 x 2. Já próximo do Natal daquele ano, o Inter chegaria ao tricampeonato brasileiro vencendo o Vasco, com um time composto por remanescentes dos títulos de 1975 e 1976, como Batista e o próprio Falcão, mais os excelentes meias-atacantes Mário Sérgio e Jair, o ex-goleiro da seleção paraguaia José Benítez, e o jovem e já clássico zagueiro Mauro Galvão, recém-promovido das categorias de base.

Enquanto os gaúchos faziam bonito dentro do campo, nos muros de Porto Alegre, no mesmo dezembro, podia-se ler grafitada a expressão Deu pra ti, anos 70, grito de alívio daquela década sombria, empregada como título de um concerto de Nei Lisboa e Augusto Licks. Também do Rio Grande do Sul era o inquilino do Planalto em 1979, João Baptista de Oliveira Figueiredo. Mas esse é melhor esquecer.

Ilha de Santa Catarina, janeiro de 2021.


Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. 1979 – Futebol, política e uns respiros de liberdade. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 12, 2021.