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1990: o ano em que conheci Maradona

Marcos Neves Junior

Quando assisti à primeira Copa da qual tenho memória, em 1990, Diego Armando Maradona era o dono do mundo. Campeão com a Argentina em 1986, duas vezes vencedor do Scudetto e da UEFA com o então modestíssimo Napoli. Idolatrado como um santo no sul da Itália, venerado como um deus em seu país, temido como um diabo no Brasil.

Conheci da pior maneira os poderes de Don Diego. Após primeiras fases tão distintas, o invicto Brasil encontrava a contestada Argentina nas oitavas de final. Em sua melhor partida na competição, a Amarelinha foi varrida de volta para casa pelo camisa 10, que conduziu a bola com sua canhota, deixando cinco marcadores falando sozinhos, antes de colocar Caniggia na cara do gol para driblar Taffarel e fazer o gol da vitória albiceleste.

Maradona deixa Dunga para trás. Foto: Youtube/Reprodução.

Não chorei, nem perdi interesse pela Copa. Pelo contrário. Seja o gosto por futebol ou a trilha sonora, a canção Un’Estate Italiana, de Gianna Nannini, algo me manteve vidrado naqueles jogos. Com isso, fui conhecendo melhor Maradona, que passou pela excelente seleção da Iugoslávia nas quartas, mesmo perdendo o seu pênalti ao final de 120 minutos de 0 a 0, e chegou à semifinal contra a Itália, dona da casa e favorita.

Eu disse favorita? Bem, em contexto geral, sim, era. Porém houve um ingrediente que minha cabeça de seis anos de idade não tinha como compreender à época. A partida, por golpe do destino, estava marcada para o estádio San Paolo, em Nápoles, cidade na qual Don Diego era, como já mencionado, idolatrado como um santo pelo supersticioso povo que ali habita.

Localizada ao sul do país, na canela da Bota, Nápoles padece de preconceitos horríveis por parte da população italiana do centro-norte. É comum que alguns nessas regiões mais ricas da Itália digam, de forma repugnantemente pejorativa e racista, o seguinte: “o que está abaixo de Roma no mapa é África”. Maradona chegou em 1984 a essa cidade e a transformou rapidamente na capital do futebol mundial.

Maradona celebra o título do italiano de 87, o primeiro da história do Napoli.

Quase um ultraje às demais regiões da Itália. Um jogador daquele porte escolheu o Napoli. Mais do que isso, com as conquistas que se seguiram no clube, como os até hoje dois únicos títulos de Série A vencidos pela equipe azul, Maradona elevou a autoestima da cidade, fez com que os napolitanos se sentissem parte de um campeonato e, no fim das contas, de um país que sempre lhes deu as costas.

Voltando à semifinal, dia 3 de julho de 1990, eis o dilema do napolitano: torcer pela seleção do país que renega sua cidade ou pelo homem que resgatou seu orgulho? Quem seria o favorito agora? Os jogadores italianos não puderam crer no que viram: Nápoles era albiceleste. No jogo em que a Itália levou seu primeiro gol na competição, o finalista foi decidido nos pênaltis após o empate de 1 a 1. Deu Argentina.

Aquele triunfo individual de Maradona ajudou a Argentina a se classificar para a final, é verdade, mas também atraiu novos adversários. Além da sempre forte Alemanha, também rival no título de quatro anos antes, nas arquibancadas do Olímpico de Roma, a torcida italiana estava inteiramente contra a seleção sulamericana e não largou do pé de Don Diego nem um minuto sequer.

Equipes perfiladas para o cerimonial pré-jogo. Às primeiras notas do hino argentino e durante toda a sua execução, uma tempestade de vaias. Não entendi o porquê, assim como não sabia o motivo de o Maradona, em vez de cantar, repetia raivosamente algumas palavras incompreensíveis enquanto a câmera o focava. Ali começou a derrota da Argentina, batida por 1 a 0, em um pênalti inexistente. Maradona chorou.

Os anos se passaram. Maradona seguiu uma carreira errática dali pra frente. Eu cresci, conheci a história e descobri o que Maradona dizia às câmeras naquela final: “hijos de puta! Hijos de puta! Hijos de puta”! Tratamento correto e adequado a quem acha que existe povo superior a outro por, entre outros motivos, sua origem, bem como aos que dizem ser o futebol apenas um jogo e um jogador apenas um chutador de bola.

Maradona é um gênio, uma vez que não tinha o porte físico de um atleta e foi uns dos maiores entre todos. Maradona é um herói, pois com uma bola mudou a história de uma cidade. Maradona é Deus, já que houve quem o seguisse mais fervorosamente do que à própria religião. Maradona é o futebol, que proporciona alegrias, tristezas, paixões e emoções. Maradona é humano, imperfeito, controverso e sujeito à morte. Maradona é um mito, posto que, mesmo morto, é eterno.

É estranho que apenas 30 anos após conhecê-lo tenha de me despedir, mas, sim, Don Diego morreu. Embora a vida logo volte ao normal, o futebol continue existindo e Copas do Mundo sigam acontecendo, é dia de lamento. Parafraseando Víctor Hugo Morales, responsável pela comovente narração do “gol de todos os tempos”, marcado contra a Inglaterra na Copa de 1986, hoje o mundo inteiro é um punho apertado gritando e chorando por Maradona.


Como citar

NEVES JUNIOR, Marcos. 1990: o ano em que conheci Maradona. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 13, 2020.