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2010: uma odisseia no sul da África

Leandro Batista Cordeiro

A Copa do Mundo de Futebol de 2010, ocorrida na África do Sul, talvez tenha sido uma das experiências mais singulares que já vivi em um mundial de seleções e alguns motivos ajudam a explicar tal singularidade: em primeiro lugar, ressalto o fato de o evento ter ocorrido durante o inverno sul-africano e, para um norte-mineiro acostumado com temperaturas entre 30 e 40 graus, não foi nada fácil suportar o clima gelado durante a Copa. Como não lembrar que naquele país há uma mistura inesgotável de dialetos, culturas e comidas, causando em mim o desejo de certa apropriação das coisas do lugar, mesmo que de modo tão passageiro? Por outro lado, acrescento também o meu êxtase em assistir, na arquibancada, a um jogo da Espanha, quando presenciei os toques e retoques que Busquet, Xavi e Iniesta davam ao jogo de futebol, um trio de meio-campistas que entrou para a história do Barcelona e da Fúria. Por fim, a singularidade do mundial de 2010 também está relacionada ao fato de ter me permitido conhecer um pouco mais sobre o regime Apartheid, o bairro de Soweto e a vida do líder negro Nélson Mandela.

Mais uma vez, não estava sozinho nessa aventura futebolística. Viajei para o continente africano acompanhado do meu irmão e da minha cunhada, ambos atleticanos. Bem, a companhia de ambos foi bacana por vários motivos, inclusive para espantar o frio, pois em nossas conversas sempre vinha à tona a rivalidade entre o Cruzeiro e o Atlético, fazendo com que a temperatura aumentasse entre nós, durante os infindáveis bate-papos pelas longas e frias madrugadas.

O nosso primeiro destino foi Johanesburgo, uma cidade que causava certo temor em muitos torcedores, em razão de a capital sul-africana ser vista como um local violento e perigoso. Honestamente, não fui para Johanesburgo com medo algum, muito ao contrário; não sei se essa suposta segurança advinha da presença maciça de militares e das forças armadas nos eventos de futebol organizados pela FIFA, ou mesmo da minha abertura, desprovida de pré-conceitos, para conhecer novas pessoas e novos lugares e, por isso mesmo, procuro não usar armadura ou escudo ao estar fora da minha cidade, do meu país e, por que não, da minha casa.

Na capital sul-africana, ficamos alojados em uma Guest House, um tipo de hospedagem na qual você utiliza a estrutura (quarto, cozinha, banheiro e etc.) de uma casa particular. Particularmente, gosto muito desse tipo de hospedagem, pois facilita sobremaneira a imersão cultural no lugar, algo fundamental para quem não era nativo e desconhecia os meandros de uma cidade como Johanesburgo. Enfim, estar em uma Guest House permite experiências face a face, mais próximas e acolhedoras, as quais um hotel, por exemplo, dificilmente proporcionará!

Em Johanesburgo, estavam localizados dois importantes estádios da Copa do Mundo: o Soccer City e o Ellis Park, situados em regiões diferentes da cidade. Pessoalmente, o Ellis Park era o estádio que eu tinha mais expectativa em conhecer, pois em 2009, um ano antes da Copa, foi lançado o bom filme Invictus, dirigido pelo genial Clint Eastwood, com cenas de jogos de rúgbi da seleção nacional rodadas nesse estádio. Assim, como apreciador do cinema e do esporte, seria uma boa oportunidade para estar in loco em um local que remetia a uma produção artística que entrelaçava esse fenômeno social, o esporte, com aspectos da política, do estado, do racismo e da ideologia.

Durante o transcorrer do mundial, assistimos aos jogos entre Espanha e Honduras, Brasil e Chile no Ellis Park, Brasil e Costa do Marfim no Soccer City, e Brasil e Portugal no Moses Mabhida, em Durban, a mais de 500 km de distância de Johanesburgo e à beira do oceano Índico, algo único e especial. Só não foi nada especial o jogo entre Brasil e Portugal, muito ao contrário, pois parecia um amistoso entre duas equipes de jogadores que acabaram de comer uma boa feijoada. Mas de qualquer maneira fica a lembrança do Índico e, por isso, tenho a certeza de que valeu a pena cada quilômetro rodado pelas estradas da África do Sul.

Estádio Moses Mabhida, em Durban, África do Sul. Foto: Arquivo pessoal.

Além das partidas que presenciamos nos estádios, assistimos também a vários jogos em bares, algo que para nós, das Minas Gerais, é muito especial, pois o bar é uma instituição sociocultural das mais importantes em nosso estado, com lugar cativo nas arquibancadas de nossos corações futeboleiros. Acredito, inclusive, que essa seja uma das grandes invenções humanas, ou seja, a mistura que o bar nos dá ao juntar cerveja, tira-gosto, futebol e boa prosa, em um só lugar. Quer provar dessa tese? Vá ao Bar do Careca, em Belo Horizonte, ao Kentura Kente, em Montes Claros, ou ao Barzé, na histórica Diamantina.

No caso dos bares em Johanesburgo, tais lugares foram propícios para encontrar latinos, europeus, asiáticos e, evidentemente, muitos africanos, dos mais diversos países do continente negro. Aí o futebol se tornava a ponte de comunicação e aproximação entre os torcedores, independente de suas origens e línguas. Nesses momentos, faz diferença ter algum conhecimento relacionado ao futebol mundial em geral, aos clubes, seleções nacionais, jogadores, entre outros aspectos que direta ou indiretamente estão vinculados ao futebol. Só para exemplificar, ficamos conversando durante mais de quatro horas com dois mexicanos, pai e filho, ambos torcedores do Club de Fútbol América, que viajaram desde a capital mexicana para assistirem a sua seleção no mundial. Até parecia que já nos conhecíamos há bastante tempo, dada a fluidez do nosso bate papo; enfim, coisas que o futebol permite e que muito aprecio!

Quanto ao selecionado nacional, não há muito que dizer além da pouca empolgação que a equipe de Dunga causava em nós brasileiros. Não considero que Dunga tenha sido um jogador ruim e sem qualidades; ao contrário, em minha opinião ele foi um bom volante e um líder em campo, e a Copa de 1994 comprovou isso! Mas em 2010 faltava qualidade técnica em nossa meia cancha, um centroavante genial e especialmente um ímpeto tático ofensivo, e a Holanda e Sneijder não perdoaram, nos mandando de volta para casa nas quartas de final.

Por outro lado, outras coisas me empolgavam durante o mundial de seleções em 2010, uma delas em especial: conhecer Soweto, a casa onde viveu Nelson Mandela e o Museu do Apartheid. Assim, em uma tarde fria do inverno sul-africano, vivi uma experiência impactante e provocadora, que certamente não esquecerei jamais. Nesses lugares, eu, meu irmão e minha cunhada não falamos mais de futebol, da Copa do Mundo, de Robinho, Dunga, Messi, Iniesta, esquemas táticos e etc. Muito ao contrário, o impacto de tais lugares fez com que as nossas conversas e a nossa alegria, por estarmos em um mundial de seleções, perdessem lugar para um certo silêncio! Hoje, ao olhar para trás, tenho a sensação de que tal experiência me deu uma nova lente (míope que sou), para olhar, dar mais atenção e refletir sobre a luta contra o racismo, dentro e fora do campo de jogo.

Museu do Apartheid em Johanesburgo, África do Sul. Foto: Arquivo pessoal.

E por falar em cultura negra, como não lembrar das vuvuzelas, instrumentos bastante utilizados pelos sul-africanos durante a Copa do Mundo de 2010. A nossa expectativa era grande e desprovida de preconceitos quanto a elas, diferentemente de muitos torcedores (e da própria FIFA), que entendiam que tais instrumentos poderiam prejudicar o espetáculo. De nossa parte, entramos no clima, tocamos e cantamos com eles, enfim, nos divertimos e fizemos muito barulho, pois para nós era importante viver as experiências do lugar, nesse lócus tão privilegiado chamado arquibancada, de onde os sons das vuvuzelas ecoavam ludicamente. Para muitos, era inadequado, antiquado ou desnecessário, já para mim foi intenso, arrepiante e único.

Outro fato que merece ser lembrado diz respeito ao encontro inusitado que tive com algumas crianças em uma esquina de Soweto, quando meninos negros jogavam bola livre e ludicamente! Ora, a rua e a prática lúdica do futebol têm uma relação muito especial e é dessa relação que, em muitos casos, sonhos brotam e em alguns casos se tornam realidade, ou seja, a rua vira estádio, e o(a) menino(a) de pés descalços se torna atleta profissional de futebol. É bem verdade que nesse roteiro somente alguns se tornam atores principais e a maioria, a grande maioria, continua atrás das cortinas, muitas vezes sem conseguir ao menos subir no palco. De todo modo, que a rua continue sendo um lugar lúdico para vivências futebolísticas, em qualquer coordenada mundo afora. 

Crianças jogam bola em uma esquina de Soweto, Johanesburgo, África do Sul. Foto: Arquivo pessoal.

Bem, esse foi um breve relato de algumas experiências que tive na Copa do Mundo de 2010, um evento que me permitiu assistir novamente a jogos de seleções nacionais em estádios e bares, junto a gente vinda dos mais diversos cantos e recantos do mundo; um evento que me permitiu pisar pela primeira vez em solo africano, conhecer um pouco da cultura da África do Sul e, por que não, reverenciar os chamados Big Five (o leão, o leopardo, o rinoceronte, o búfalo e o elefante), animais que eu só via pela tela da televisão ou, infelizmente, em zoológicos. Em 2010, foi possível vê-los em seu habitat natural, mais ou menos como Xavi, Iniesta, Busquet, David Villa e companhia o fizeram nos gramados sul-africanos, porque para esses caras ali parecia ser seu habitat natural e, a partir da derrota para a Suíça no primeiro jogo (afinal, nem todo dia é do caçador), passaram a caçar suas presas impiedosamente e, após a vitória contra a Holanda na grande final, conquistaram seu primeiro título mundial de seleções. Enfim, teriam os espanhóis se tornado grandes caçadores em Copas do Mundo?

Como citar

CORDEIRO, Leandro Batista. 2010: uma odisseia no sul da África. Ludopédio, São Paulo, v. 130, n. 8, 2020.