40.4

34 graus

Marcos Alvito

Na piscina de hidromassagem dos jogadores, por ordem do médico do clube, a água é mantida a 34 graus, nem um grau a mais, nem a menos. É o que explica este simpático senhor que após aposentar-se transformou-se em guia de estádio de futebol. O tour é realmente impressionante. O Arsenal foi fundado por operários de uma fábrica de armamentos e até hoje o bairro em torno do Emirates Stadium, localizado ao norte de Londres, é uma região relativamente pobre. Para chegar ao estádio basta seguir as várias placas colocadas desde a estação de metrô, por entre lojas por alugar, um pub que ostenta várias bandeiras do clube, um restaurante boliviano, um escritório onde imigrantes africanos podem enviar dinheiro para seus parentes, pequenas mercearias e até um fabricante de lareiras. Hoje, todavia, o Arsenal é um dos clubes mais ricos do mundo e o canhão, símbolo que remete às suas origens, agora jaz em uma parede de mármore.

O British Museum exibe suas maravilhas gratuitamente, mas as pessoas que estão aqui (inclusive este que vos escreve) estão dispostas a pagar o equivalente a 48 reais por uma visita de 50 minutos a um estádio de futebol vazio. Eduardo Galeano, certa vez, disse que não há nada mais solitário e silencioso do que um estádio sem público. Pode ser, mas o novíssimo estádio do Arsenal, inaugurado em 2006 após pouco mais de dois anos de obras, é a verdadeira jóia da coroa do futebol inglês.

O gramado é tão perfeito que só pode ser pisado pelos jogadores e mesmo assim somente durante as partidas. Afinal, este tapete sem falhas é alimentado de forma ecologicamente correta pela água da chuva coletada pelo arrojado teto transparente. No inverno, a grama é aquecida por um tipo de luz que imita a luz solar. A forma como a visita foi estruturada simboliza com clareza a realidade neocapitalista do futebol globalizado. Começamos por subir escadas até a sala dos diretores. Claro que há um elevador, mas somos muitos, pois além dos turistas habituais, há dois grupos de pré-adolescentes, alemães e dinamarqueses, garotos que vieram disputar um torneio infantil na Inglaterra. Nos olhos de cada um deles parece brilhar o mesmo sonho de um dia  jogar aqui.

A sala dos diretores é o lugar onde se tem a melhor visão do estádio na opinião de Peter, nosso guia. Essa opinião até poderia ser contestada, mas não o fato de que é o setor mais luxuoso. Aqui há uma enorme sala cheia de robustas poltronas de couro vermelho, todas com o símbolo da grife, ou melhor, com o escudo do clube em dourado. Há mesas para possíveis reuniões e/ou degustação do buffet servido em dias de jogos para estes happy few. Há, é claro, um monitor de tela plana, mas quem quiser ver o jogo ao vivo pode dar dois passinhos e sentar-se em um dos 48 assentos acolchoados à disposição dos diretores e dos seus convidados. A visão dali é realmente magnífica: não só avista-se o semi-intocado gramado, mas os 60.464 assentos vermelhos devidamente numerados existentes nesta estrutura colossal com vários níveis e formas onduladas.

Peter admite que o futebol hoje em dia é sobretudo “money” e diz que além da sala dos diretores há 150 boxes corporativos que pertencem ou são alugados a grandes empresas e seus sócios. Não esquece da sala de imprensa, curiosamente colocada em um ângulo não muito favorável: na quina do campo. De qualquer forma, lembra Peter, eles também estão assistindo o jogo pela televisão. Os colegas da imprensa escrita sentam-se um pouco abaixo, em lugares individuais que dispõem de computador. E não pára por aí: se o jornalista tiver dúvida sobre um lance ocorrido aos 7 minutos do segundo tempo uma funcionária do clube poderá repetir a jogada até que tudo fique esclarecido.

No outro canto, há a sala de controle, onde policiais monitoram todo o estádio com ajuda das câmeras do circuito interno de televisão. O próprio clube contrata cerca de 850 stewards (funcionários) para tomar conta de toda a segurança e orientação dos torcedores. Para evitar o tumulto na chegada e na saída, o clube espalha televisões por todo o estádio, que passam os jogos que ocorrem antes do jogo do Arsenal e depois, ou seja, para estimular as pessoas a chegarem mais cedo e a ficarem até mais tarde. “E é claro que não é nada mau que eles consumam mais um pouco”, arremata nosso guia com um humor tipicamente inglês.

Da sala dos diretores passamos ao vestiário dos jogadores, se é que um local com piscina de hidromassagem a 34 graus pode ser chamado assim. Há uma sala vazia para o alongamento dos jogadores, banheiros de hotel 5 estrelas, uma sala de massagem e fisioterapia e, por fim, os armários dos jogadores, agrupados por setor do time: defensores, meio-campistas e atacantes. O armário do goleiro, é claro, fica isolado num canto. Há também uma sala que durante os jogos é ocupada por três médicos. Eles dispõem de modernos equipamentos, capazes de fazer um raio-x ou uma tomografia, permitindo o atendimento e o diagnóstico sem que o jogador precise sair do estádio. No vestiário os jogadores, lembra Peter, estão de serviço e, portanto, têm que falar inglês. Terminadas as últimas entrevistas, já de banho tomado e roupa trocada, podem voltar a falar suas línguas maternas. No caso do Arsenal da temporada 2007-2008: português, holandês, espanhol, francês, checo, croata (Eduardo Silva), camaronês e até inglês.

Depois de mil fotos e do frenesi dos garotos imaginando vestir uma daquelas milionárias camisas vermelhas com mangas brancas, descemos até o campo, com direito a atravessar aquele túnel que separa os novos heróis da cultura pop de seus fiéis admiradores, antigamente chamados de torcedores. Pelas normas da Premier League, 5% dos lugares do estádio (pouco mais de 3 mil assentos), são obrigatoriamente reservados aos torcedores adversários. Eles ficam localizados no setor inferior das arquibancadas e é claro que ficam na quina em torno da bandeira de corner.

Não há venda de ingressos no estádio do Arsenal. Ou melhor, vendem-se ingressos, mas somente para aqueles que tornam-se sócios-torcedores, que pela bagatela de 30 libras (99 reais), esperam exatos 28 dias para receber a carteirinha vermelha que lhes dará direito a comprar ingressos por no mínimo 50 libras (165 reais). Em suma, para ver um único jogo do Arsenal seria necessário gastar pelo menos 264….

Assim não há hooligan que aguente. Além da questão financeira, os ingressos são numerados e vendidos somente aos portadores de cartões, devidamente cadastrados, registrados e cobrados (eu ia dizer extorquidos). No chance. Afinal, é preciso recuperar o dinheirinho gasto na construção do estádio, a bagatela de 400 milhões de libras (um bilhão, trezentos e vinte milhões de reais, valor maior do que o orçamento de 99% das cidades brasileiras). A empresa aérea Emirates Airlines pagou 330 milhões de reais pelos naming rights do estádio por 15 anos. Mesmo assim o Arsenal endividou-se até o pescoço para pagar seu novo estádio, o que lhe impõe um orçamento mais contido em termos de contratações do que os outros grandes clubes.

Depois de sonharmos à beira do campo com gols e tabelinhas imaginárias, chega a hora da verdade, em que o destino e o sentido final da nossa presença ali são devidamente revelados. Saímos pelas portas onde os jogadores entram em dia de jogo e somos triunfalmente conduzidos à gigantesca loja do clube. Gastem um pouquinho, diz Peter semi-suprimindo um sorriso, quem sabe assim poderemos contratar mais um jogador. Na ausência de dribles, passes milimétricos e cabeçadas certeiras, podemos nos contentar com uma caneca vermelha, bolas de golfe, meias, chaveiros, almofadas, pijamas, canetas, balas, cadernos, chocolates, relógios e até camisas do Arsenal com nosso nome gravado. E pensar que já houve um tempo em que a camisa dez não tinha preço…

Como citar

ALVITO, Marcos. 34 graus. Ludopédio, São Paulo, v. 40, n. 4, 2012.