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38: a Copa que não terminou

Plínio Labriola Negreiros

Entre tantas marcas do futebol, há um espaço especial para as polêmicas que se perdem no tempo. Em relação às Copas do Mundo, os mais atentos ao selecionado nacional já têm a disputa realizada no país, em 2014 e o incomodo 7 a 1, como mote para bons debates. O mesmo vale para 1982 e a inesperada derrota para os italianos. Para os mais velhos e os estudiosos, o Maracanazo merece análises e explicações. Nesse sentido, dirijo meu olhar um pouco mais para o passado e trato das polêmicas e dos balanços elaborados em torno da presença do selecionado de futebol em terras francesas, em 1938. O excelente desempenho, ainda que também assinalado por uma derrota pesada para a equipe italiana, suscitou um profícuo debate.

O forte envolvimento da sociedade brasileira como a presença brasileira na III Copa do Mundo não terminou com o fim dessa competição. Havia a dor dos torcedores, manifestada de muitas formas, algumas até trágicas, conforme já se discutiu em outro texto. Havia, ao mesmo tempo, as falas das autoridades políticas, que tanto se envolveram com os passos do selecionado de futebol. Nos discursos oficiais não poderia haver qualquer sinal de paixão, típica dos torcedores. Logo após a difícil derrota para a equipe italiana, no dia 17 de junho em publicação d’A Gazeta, o ministro da Educação, Gustavo Capanema, remete um telegrama à delegação na França:

Dr. Castello Branco — Delegação Esportiva Brasileira — Marselha ou Paris — Mando efusivas congratulações aos bravos jogadores brasileiros pela alta demonstração de resistência e pugnacidade agora reveladas em tantas competições. Perdendo hoje para um valoroso adversário, os nossos rapazes não desmerecem da confiança com que temos acompanhado sua atuação. Esta sucessão vertiginosa de pelejas duramente combatidas foi uma afirmação admirável do Brasil, a cujo esporte estão asseguradas muitas e belas glórias futuras.

Capanema, em função do cargo que ocupava, não tinha interesse em entrar em polêmicas mais apropriadas aos cronistas esportivos e aos torcedores. Cabia a um dos principais auxiliares de Vargas apresentar os ganhos da participação brasileira na França e as suas palavras não deixaram dúvidas: foi um importante momento de afirmação do Brasil. O objetivo principal havia sido atingido; porém, era necessário continuar investindo nos esportes, para garantir mais glórias à nação. Ele tinha clareza do papel dos esportes nesse processo de construção da nação. Portanto, era evidente que os resultados obtidos pela seleção de futebol na França eram mais que satisfatórios, já que se constituíram na melhor participação do futebol em Copa do Mundo. E era a primeira vez que o poder público investia de fato numa competição de tanto peso.

Não se podia esquecer, ainda, a questão de que a equipe nacional foi formada, pela primeira vez, com os melhores jogadores em atividade no país, sem qualquer boicote de São Paulo, como em 1930 e 1934. Assim, por parte do ministro Capanema e do governo Vargas, só se podia comemorar, já que os altos investimentos haviam tido retorno. Mas o sonho do governo brasileiro era o de receber os atletas como os grandes vencedores da Copa, como fez o líder do fascismo na Itália, Benito Mussolini, conforme mostrava O Estado de S. Paulo, na edição de 30 de junho de 1938:

Os jogadores do selecionado italiano que, vencendo os brasileiros em Marselha, virtualmente tinham assegurada a conquista da ‘Taça do Mundo’, desde o momento em que deixaram vitoriosos o estádio marselhês, foram recebidos em audiência especial pelo sr. Benito Mussolini e deixaram pouco depois o Palácio Veneza, levando cada um deles, um envelope na mão, contendo 25 mil liras.

O ‘Duce’ recebeu os onze campeões italianos, na sala ‘Mapa Mundi’ do Palácio Veneza, às 10 horas. Os jogadores envergaram camisas azuis, com punhos brancos e perfilaram-se diante do chefe do governo.

O ‘Duce’ abrangeu com um rápido olhar todo o grupo e dirigiu-se a Sylvio Piola, o centroavante do quadro e que marcou cinco dos onze pontos conquistados pelos italianos, durante o torneio.

Um paredro do futebol italiano, presente à cerimônia, informou à ‘United Press’ que nessa ocasião Sylvio Piola ficou visivelmente emocionado, apontando para os seus companheiros, como desejando significar que o mérito era de todos.

O ‘Duce’, entretanto, colocou uma das mãos no ombro de Piola e dirigindo-se a todos os jogadores, declarou: ‘Sinto-me orgulhoso de vós, porque soubestes ser tenazes, fortes e verdadeiros esportistas, como os fascistas devem ser.’

Uma vitória do selecionado do Brasil, é bem provável, teria também resultado numa recepção política desse quilate. Ao invés da presença de um Piola, certamente Vargas receberia Leônidas da Silva, o artilheiro da seleção e da Copa. Como isso não foi possível, coube às autoridades brasileiras aproveitarem-se do que os atletas haviam conquistado, que não foi pouco.

Seleção brasileira perfilada em jogo da Copa do Mundo de 1938: Leônidas, Batatais, Peracio, Domingos da Guia, Brandão, Zezé Procópio, Machado, Roberto, Romeu Pellicciari, Afonsinho e Patesko. Foto: CBF/Reprodução.

Ao mesmo tempo, enquanto o retorno do selecionado de futebol era ansiosamente esperado, coisa que demoraria aproximadamente quinze dias, os debates acerca dessa experiência esportiva apontaram para outros caminhos, em especial o de tentar entender o porquê da não conquista da cobiçada Copa do Mundo. Assim, para os torcedores como para a imprensa esportiva, a participação brasileira na Copa da França necessitaria de muitas discussões, algumas intermináveis, como o polêmico lance do pênalti sobre o jogador italiano. Ou a questão era mais ampla: por que o time do Brasil, formado pelos considerados como os melhores jogadores do torneio, além de deter um estilo futebolístico superior aos europeus, não ganhou? O fato de os árbitros terem prejudicado os futebolistas brasileiros em várias partidas, como a ausência do principal jogador do time, Leônidas, não pareciam ser uma explicação suficiente.

Para muitos analistas da participação brasileira na Copa da França, a equipe nacional foi prejudicada em muitos momentos, o que demostrava a má vontade dos dirigentes do futebol internacional para com os brasileiros. Mas a questão se ampliava: por que a má vontade dos europeus com um time de outro continente? Por que a prevenção dos europeus contra os brasileiros? De fato isso existia, ou apenas foi citado como maneira de tentar justificar o insucesso relativo da equipe brasileira? Para Eme-Eme, cronista esportivo d’A Gazeta, logo após a derrota para o time italiano, o problema poderia ser resumido da seguinte maneira: o regionalismo dos europeus não permitiu que o Brasil e o seu futebol fossem tratados com um mínimo de igualdade. Esse tratamento desigual, sofrido pelo time brasileiro, poderia ser atribuído a uma situação de isolamento do selecionado nacional, pois fora o único representante da América do Sul, já que as outras forças futebolísticas deste continente preferiram não disputar a Copa da França, que foi o caso da Argentina e do Uruguai. Ou seja, para esse cronista, o Brasil não tinha ao seu lado nenhum irmão da América do Sul para unir forças. A ida de uma dessas nações poderia ter resultado numa ação diferente dos dirigentes do futebol internacional. Ou como ainda disse o cronista, as injustiças seriam divididas entre os países sul-americanos e não recairiam integralmente sobre os brasileiros.

Já para Thomaz Mazzoni, o principal cronista esportivo de São Paulo, o Brasil — a partir do futebol — havia sido vítima de má-fé por ser uma nação sem qualquer expressão no quadro mundial; ou seja, não era uma nação que mereceria maior respeito dos organizadores da Copa de 38 e dos dirigentes da FIFA — assim, enfatiza a questão das arbitragens. Mas o futebol brasileiro, ainda segundo Mazzoni, também não soube articular-se politicamente dentro dos bastidores da FIFA. Mazzoni dizia, mesmo sem explicitar, que a poderosa Itália fascista soubera fazer o trabalho de “bastidor”. Outra questão foi levantada, agora em relação aos jogadores: estes não foram capazes de compreender a importância daquele momento para o futebol do Brasil e para a própria nação. Surgiu ainda no Brasil, e aguçou-se na França, uma forte rivalidade entre os jogadores do time titular e os do time reserva. Daí a observação do cronista de A Gazeta no livro O Brasil na Taça do Mundo, publicado em 1938:

Quando os homens do esporte, no Brasil, conseguirem dar outra mentalidade aos nossos jogadores, então poderemos dar às nossas delegações chefes que ajam de outra maneira, sem dúvida, como requerem os sãos princípios da disciplina esportiva e cívica, especialmente em se tratando de uma representação nacional a uma competição internacional, em que acima de tudo deve pairar o nome da Pátria!

Em suma, a direção da embaixada nada deixou a desejar, podendo-se dizer que poucas vezes uma delegação esportiva brasileira seguiu para o estrangeiro melhor dirigida e orientada.

Em outras palavras, se a direção do futebol brasileiro na Europa agiu sempre corretamente, o mesmo não poderia ser dito dos atletas que representavam o Brasil na Copa do Mundo. Estes continuavam pouco conscientes do que significava o futebol naquele momento da história do país. De certa forma, a questão das reivindicações das gratificações antes do embarque para a Europa ainda não havia sido plenamente deglutida, muito menos as divergências quanto aos jogadores titulares e os reservas.

Para o cronista esportivo d’O Estado de S. Paulo, J. R. Pantoja, a arbitragem prejudicou o selecionado, porém esse não era ponto fundamental para se explicar a derrota do futebol na França. Aliás, para ele, conforme artigo já do início de julho de 1938:

Esta história de se atribuir apenas aos árbitros europeus o insucesso do nosso ‘association’ é recurso muito pouco convincente e de uma deselegância bastante reprovável e que evidencia ainda mais a fragilidade dos conhecimentos técnicos futebolísticos que intervieram na organização da representação cebedense.

Para o cronista d’O Estado, foi um grande erro não se disputarem partidas amistosas com equipes europeias logo que a seleção chegou a Paris; ou seja, o selecionado brasileiro mal chegou a treinar. Inclusive, era opinião corrente na seção esportiva do Estado, de que o potencial do futebol brasileiro, mesmo em termos regionais, jamais seria aproveitado, entre outros motivos, pela absoluta falta de preocupação em realizar treinamentos. No caso da Copa, a situação havia sido mais grave: os brasileiros não conheciam como os europeus jogavam; só foram descobrir isso ao entrarem em campo, já valendo pela disputa da Taça do Mundo. Assim, a falha estava claramente colocada nas mãos da direção da delegação. Pantoja ainda tecia outras críticas sobre a participação brasileira na Copa de 1938:

Os nossos futebolistas não tiveram um proceder recomendável, embora menos lamentável do que o que marcou a ação do locutor encarregado de descrição das pelejas de que participassem os representantes do Brasil, o qual realizou grandes esforços no sentido de revelar que, na Europa, não existem futebolistas dedicados, exceto os defensores da ‘esquadra azzurra’, tampouco juizes honestos, com exceção daquele simpático esportista que dirigiu o jogo Brasil vs. Itália…

Mas Mazzoni continuava a elogiar a direção da delegação em detrimento das atitudes dos jogadores brasileiros. Ou seja, as conquistas não foram maiores por conta dos jogadores:

Em matéria de disciplina, não é preciso que se diga, não somos modelares. Ao contrário, muito, muito, temos que evoluir. Conseguiu-se muito até dos nossos jogadores na 3ª Copa do Mundo, sabido como é qual o seu grau de disciplina, quais os seus costumes, os seus caprichos. Não há dúvida, o nosso jogador ainda não está compenetrado do rigor da sua responsabilidade profissional, esportiva e cívica, em face de tão grande missão… É uma criança grande, sem dúvida.

Cartaz da Copa do Mundo de 1938, realizada na França. A capa do livro “O Brasil na Taça do Mundo”, de Thomaz Mazzoni, utilizou imagem quase idêntica. Foto: Reprodução.

Na verdade, neste ponto, Mazzoni não pretendia mostrar quanto os jogadores do Brasil eram indisciplinados, principalmente fora do campo; estava, sim, preocupado com a imprensa esportiva do Brasil, que, segundo esse cronista, prestava um desserviço ao esporte nacional por inventar casos de indisciplina entre os jogadores, ou aumentar pequenos conflitos. Os periódicos eram acusados de sensacionalismo, que atingia a delegação na França. Porém, apesar de defender os jogadores, mostrando que essas indisciplinas foram insignificantes, a mentalidade dos mesmos ainda era marcada pela não compreensão do seu ofício, ainda no livro O Brasil na Taça do Mundo:

Felizmente, compensando tais atitudes antipatrióticas, em que não estão envolvidos apenas os ‘torcedores’ ignorantes, mas elementos de projeção nos grandes clubes do Rio, constata-se com satisfação o gesto decidido da imprensa e dos elementos de responsabilidade contra as repugnantes calúnias levantadas por uma facção de maus brasileiros, merecendo especial registro a decisão tomada pelo Fluminense ao proibir que os seus jogadores, integrantes da seleção, façam quaisquer declarações relativas à orientação do técnico e dos chefes da embaixada durante a estada na França.

Para os dirigentes do futebol brasileiro, não parecia tão importante discutir a fundo as razões da derrota. Mais importante era mostrar os ganhos obtidos para o futebol e para o próprio país. Assim, o presidente da CBD, Luiz Aranha, analisava o selecionado de futebol nas página d’ O Brasil na Taça do Mundo:

É necessário notar… que a nossa derrota se deve tão somente a um malfadado penal, que exceção feita do segundo jogo contra os tchecos, nos perseguia inexoravelmente. Além disso, depois de duas jornadas rudes e impiedosas, jogamos com a nossa linha desfalcada de Leônidas, inteiramente desfeita pela troca de posições imposta a vários jogadores. Não pudemos ter a colaboração de Niginho, devido, como se sabe, ao antecipado protesto da Itália. Não podemos focalizar exclusivamente essa última etapa, exatamente a que nos foi adversa, sem examinar toda a campanha cumprida com brilhantismo, virilidade e educação esportiva pelos nossos rapazes. Quando outro mérito não tivesse a atuação do nosso selecionado na Europa, bastaria o de haver propiciado ao Brasil, uma larga e eficiente propaganda popular em todo o mundo. Por isso mesmo, eles merecem os nossos calorosos aplausos e a nossa gratidão. Bastaria lembrar a heroica jornada de domingo passado, quando eles revelaram ao mundo e aos próprios brasileiros nossa galhardia e nossa virilidade nos momentos mais rudes e difíceis.

O dirigente de futebol colocava uma questão fundamental: através do futebol, os brasileiros começavam a descobrir as suas reais forças e isso deve ser colocado num contexto especial, em que o regime Vargas apresentava a necessidade de a nação explorar o seu verdadeiro potencial, em todos os seus aspectos, inclusive no humano. Assim, o futebol, na visão de Luiz Aranha, teria a tarefa de mostrar como os brasileiros poderiam estar construindo o Brasil do progresso, do crescimento econômico, sem qualquer sentimento de inferioridade frente aos outros povos. Porém, esse potencial do povo brasileiro, segundo O Brasil na Taça do Mundo, para ser melhor aproveitado, precisava de alguns ajustes, agora na perspectiva do jogador Martin do selecionado:

Os italianos aprenderam muito. Hoje jogam como nós jogamos, com o mesmo entusiasmo e com uma disciplina modelar. Terminando o prélio, não se entregam ao delírio. Recebem o cumprimento do general Vaccaro, perfilados, e se dirigem depois para um ônibus, militarmente. Eu acho que devemos realizar um esforço aqui para estabelecer uma disciplina como a que se observa entre os italianos. Precisamos apenas disso, de uma sobriedade absoluta, de silêncio e respeito. Foi o que aprendi de melhor no campeonato do mundo e o que julgo foi a melhor lição para todos nós. Em qualidades individuais somos insuperáveis. Aliás, ninguém na Europa discute isso. Com a disciplina dos italianos seríamos invencíveis.

Novamente a questão central da disciplina. Esta, associada às qualidades do atleta brasileiro, faria do nosso futebol sempre um vencedor. A analogia com os acontecimentos nacionais se tornava inevitável. Para Martin, como para parte da imprensa esportiva, faltava ao Brasil a disciplina, que poderia ser entendida no sentido de que todos os brasileiros, deixando de defender interesses de classes e regionais, passassem a lutar apenas pela grandeza do país, através da construção de uma verdadeira nação.

Como no futebol, também o Brasil precisava, conforme o regime anunciava, estar atento para que a disciplina e a ordem imperassem, condições mínimas para o progresso da nação. Ordem, disciplina, racionalismo, planejamento eram necessários no esporte e na vida nacional como um todo. Almeida Júnior, escrevendo na revista Educação Física, na edição de julho de 1938, também tirava conclusões sobre a derrota do selecionado do Brasil:

Temos individualidades sem par, incomparáveis num cotejo com os melhores jogadores do mundo. Leônidas não encontrou competidor na sua posição; Walter, Domingos, Romeu, Martin, Perácio, Tim, Patesko para não citar todos poderão ter deparados rivais, mas nunca superiores. Confessemos, por outro lado, que nos falta um seguro jogo de equipe, o ‘jogo de conjunto’ na expressão entre nós consagrada.

De certa forma, o esporte, nesse caso o futebol, era um modelo a ser seguido pela nação em construção. Como declarou o jogador Martin, se a equipe do Brasil tivesse mais disciplina, teria vencido. Não faltou competência esportiva e sim organização e espírito cívico, tão presentes no time italiano.

Por fim, talvez a questão mais importante dessa participação do selecionado nacional de futebol na III Copa do Mundo: o futebol trouxe debates essenciais sobre o próprio país. Houve debates sobre o que éramos e sobre o que poderíamos e deveríamos ser. A pesada derrota na IV Copa do Mundo, em terras brasileiras atualizou esse debate. E, é provável, que a cada nova disputa do torneio da FIFA, façamos reflexões sobre o Brasil, com suas possibilidades e mazelas.