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Homenagem aos 50 anos de Dener, um grande herói da minha infância

Makchwell Coimbra Narcizo

Um aviso: o texto que segue é carregado de memória afetiva e possivelmente de imprecisões factuais. E essa, é exatamente a proposta, foi escrito com o coração.

Por ocasião do aniversário 50 anos do jogador Dener, vi algumas crônicas, poucas, sobre seu modo excepcional de jogar, poucas em proporção a seu talento e encanto que causou. Resolvi publicar algumas memórias, repletas de afetos, fragmentos de coisas que escrevi e venho reescrevendo nos últimos anos, o texto traz minha paixão pelo futebol e como esse jogador faz parte dela.

Quando descobri que era irremediavelmente viciado em futebol? Na verdade, em dois momentos, um em 1990 quando o Vasco perdeu o título do então importante Campeonato Carioca para o Botafogo de Futebol e Regatas, o Vasco mesmo perdendo deu a Volta Olímpica (coisa do Eurico), me lembro bem que eu estava “jantando” na hora do jogo, de uma hora para outra perdi a fome e quando vi estava chorando, depois disso vi que o futebol faria parte de minha vida para sempre; outra ocasião foi em 19 de abril de 1994, um dia comum até 12h50, um dia em que acordei lá pelas 9 horas e fui pra quadra bater uma sagrada bolinha. Para variar fiquei jogando um pouquinho além do horário, voltei pra casa tomei banho, almocei e fui pra escola sem sequer ver o Globo Esporte, algo sagrado pra mim na época. Cheguei na aula um amigo vascaíno me abraçou, um corintiano balançou a cabeça, então perguntei:

O que houve?

O corintiano disse:

“Cara, o Dener morreu! Você viu?”

Eu disse:

Você tá doido? Para de brincadeira besta. – assim falamos no interior de Goiás.

O amigo vascaíno disse:

“É verdade, o anjo negro se foi.”

DenerDaí pra frente não sei como se desenrolou a conversa, sei que meus olhos se encheram de lágrimas, não assisti a aula naquele dia e nos próximos 7 ou 8 dias, algo impensado para mim na época. Até então eu devia ter faltado no máximo uns 5 dias de aula em toda vida. Mas realmente não consegui sair de casa nos próximos dias. Dener, o jogador que fazia com que meu time fosse para mim invencível havia morrido, havia me mostrado que também era mortal e não um super-herói como eu imaginava.

Dener, moleque de jogo fácil, que driblava os adversários como se eles fossem estátuas, fazia de uma caneta o momento máximo daquele momento. Ahhhhh como jogava!

O jovem que veio da Portuguesa de Desportos com dribles mirabolantes, uma velocidade inimaginável e ainda por cima sabia bater a gol, sim o Dener era um cracasso de bola. Sei que a expressão “cracasso” ainda existe hoje em nosso futebol, entretanto, bem mais como expressão, ou, só como expressão mesmo.

Imagem que não me sai da cabeça, na verdade são duas, uma a do carro branco cravado em um poste, isso destruiu meus sonhos de ser invencível; outra não é a do Dener driblando todo o time adversário e metendo um golaço, mas sim a de um jogo contra o Botafogo de Futebol e Regatas – ou era contra o Fluminense? … tanto faz? – em que o Valdir Bigode já havia feito uns 2 ou 3 não importa, quando o Dener veio driblando, deu um drible de corpo em um “João” qualquer fez que ia bater deixou um outro “João” no chão chegou na cara do goleiro fez que bateu no canto e colocou entre as pernas do goleiro, foi quando ouvi o inigualável Januário de Oliveira gritar (acho – não importa): “Eeeeeeeeeee o gol, gooooooooool”, mas sabe o que aconteceu? Não foi gol, sim, não foi gol, aí pergunto: e daí? Neste caso o gol era sim um detalhe.

Dener, o último grande herói da minha infância.

Você sim foi um camisa 10, que me fez entender o significado da camisa 10.

 

E como bônus, um pouquinho do significado da vida e das coisas que realmente importam nela.

 

Obrigado!

Como citar

NARCIZO, Makchwell Coimbra. Homenagem aos 50 anos de Dener, um grande herói da minha infância. Ludopédio, São Paulo, v. 142, n. 6, 2021.