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6 anos de Allianz Parque: arena que ainda não é casa

Mariana Mandelli

A série “Práticas torcedoras em territórios palmeirenses” é baseada na dissertação de mestrado de Mariana Mandelli, intitulada “Allianz Parque e Rua Palestra Itália: práticas torcedoras em uma arena multiuso” (Antropologia-USP, 2018). A pesquisa de campo foi realizada entre 2015 e 2017 nos arredores do Allianz Parque com o objetivo de investigar os efeitos da modernização do estádio da Sociedade Esportiva Palmeiras entre a torcida. Confira a série de textos aqui.

Foto: Mariana Mandelli

Não é nenhum segredo que a amarga derrota[1] para o Sport Club do Recife na noite de 19 de novembro de 2014 marcou a história do Palmeiras de duas maneiras antagônicas: se por um lado o resultado agravava a crise do time, que àquela altura do Campeonato Brasileiro, na 35ª rodada, tinha apenas 39 pontos, foi esse o jogo que reabriu as portas do estádio Palestra Itália para sua torcida, encerrando uma espera de quatro anos – tempo que durou a reforma do campo.

Seis anos após o vexame, aparentemente bastante coisa mudou. A nova arena palmeirense – que já não é mais tão nova assim – acumula quatro títulos e números astronômicos, especialmente no que se refere às cifras[2]: mais de R$ 320 milhões acumulados em bilheteria somente considerando jogos do Palmeiras. Tal especificação é importante porque, como espaço multiuso, o Allianz Parque é frequentemente alugado para eventos culturais e corporativos, além de servir de palco para jogos da Seleção Brasileira vez ou outra. Em 2017, por exemplo, a renda de Brasil x Chile pelas eliminatórias da Copa do Mundo chegou a mais de R$ 15 milhões, batendo o recorde nacional à época[3].

Desde a reinauguração, o Palmeiras tem jogado recorrentemente com casa cheia: o Allianz Parque figura entre os maiores públicos médios de estádios do Brasil, com média de 30 mil torcedores[4] por partida. O custo do ingresso é igualmente alto: cerca de R$ 57[5], o mais caro do País em 2019 (e nos anos anteriores também).

Ou seja: a volta para casa que a torcida palmeirense tanto ansiava com a abertura do Allianz Parque se concretizou, mas não para todos e todas. Se é verdade que apenas uma parcela da torcida de qualquer time frequenta seu estádio, pelos mais diversos motivos, a era das arenas reduziu ainda mais esse potencial público por uma razão: a financeira.

Desde a (re)inauguração em 2014, existem três maneiras de se adquirir um ingresso para ver o Palmeiras jogar em sua “casa”: por meio do Avanti, o programa de sócio-torcedor do clube; pelo Passaporte Allianz Parque, modalidade de aquisição de cadeiras lançada pela W Torre, a construtora “parceira”, e pela compra de ingressos avulsos (online ou na própria bilheteria) – neste caso, são negociadas apenas as entradas que não foram adquiridas pelos dois primeiros serviços citados.

Foto: Mariana Mandelli

As mensalidades do Avanti e do Passaporte Allianz Parque não custam barato. Mesmo o plano menos custoso de sócio-torcedor, que atualmente é de R$ 17,99 ao mês, não garante que o torcedor consiga comprar o ingresso: ele apenas dá 20% de desconto na aquisição de uma entrada no setor superior da arena, cujo preço cheio na última partida do Palmeiras antes da pandemia estava entre R$ 130 e R$ 150[6]. Vale destacar que é possível que mesmo podendo comprar o ingresso, esse torcedor talvez não consiga reservá-lo, já que o Avanti tem uma série de regras que favorecem os torcedores que pagam os planos mais caros e/ou que são mais assíduos nos jogos[7], o que praticamente exclui aqueles cujas visitas são mais espaçadas.

Assim, se considerarmos o cenário perene de desigualdade do País, as sucessivas crises econômicas e o valor do salário mínimo (nacional ou estadual[8]), frequentar Allianz Parque foge da realidade da maioria dos brasileiros e, consequentemente, de grande parte da torcida palmeirense. A “nova” casa do Palmeiras não é, portanto, para todos os palmeirenses.

Tal situação ainda conta mais dois agravantes. O primeiro eu destaquei em artigo anterior nesta coluna, quando tratei da falta de identidade do espaço físico da arena com as cores e escudos do Palmeiras. Por fora, não há nada que indique na estrutura metálica do Allianz Parque que ele pertence ao clube alviverde. Quem avista o estádio da rua e se depara com o grande letreiro eletrônico que anuncia “Allianz Parque” em letras garrafais não sabe a quem ele pertence, algo facilmente identificável na arena corintiana e no campo são paulino, por exemplo. Por dentro, todas os elementos que remetem ao Palmeiras são móveis ou removíveis, como bandeiras e totens. Os vestiários talvez sejam a única exceção, já que são envelopados com fotos das conquistas palmeirenses no decorrer da história.

O segundo, mais grave, é o cercamento da arena em dias de jogo. Desde outubro de 2016, o Palmeiras fecha o cruzamento das ruas Caraibas e Palestra Itália nos trechos onde comumente havia a maior concentração de pessoas antes das partidas, permitindo assim a passagem apenas de palmeirenses que tenham ingressos para o portão A, localizado justamente na Rua Palestra Itália. Tal ação afasta do estádio os torcedores que vão até a região para ver o certame do dia nos bares, na companhia de amigos[9] e, como muitos dizem, “curtir o clima”. Traduzindo em poucas palavras: há quatro anos o Palmeiras “areniza”[10] as ruas próximas, na tentativa de impor a elas a mesma lógica vigente dentro do Allianz Parque.

A ideia de que um estádio é a casa de um time de futebol e de sua torcida é amplamente usada no discurso de jogadores/técnicos, jornalistas esportivos e torcedores – são eles os atores sociais que compõem a tríade profissionais/especialistas/torcedores, enunciada por Toledo em sua tese de doutorado e que seria, segundo o autor, estrutural na prática dessa modalidade esportiva no Brasil (TOLEDO, 2000, p.5). Já segundo Hollanda, o emprego do termo “casa” nesse sentido “revela o universo de metáforas familiares na linguagem do futebol e designa a maneira pela qual os torcedores concebem o seu próprio estádio, dando origem às expressões: ‘jogar em casa’ e ‘jogar fora de casa’” (2012, p. 104).

Foto: Mariana Mandelli

Muitos palmeirenses organizados e não organizados com quem mantive contato durante a minha etnografia no Allianz Parque confessaram-me que ainda não se sentem em “casa” no Allianz Parque. Tal concepção é perceptível em discursos que valorizam formas de torcer que seriam mais verdadeiras do que outras, numa espécie de escala do que seria um verdadeiro torcedor. Para esses palmeirenses, o público que frequenta a arena é corriqueiramente classificado como “modinha”, já que esses “novos torcedores” não seriam tão leais ao clube e frequentariam os jogos mais pelo evento em si do que pelo “amor à camisa”.

Com todos esses elementos, o debate sobre o pertencimento palmeirense nesse momento do clube é amplo e complexo, e as perguntas sem resposta são várias. A quem pertence o Allianz Parque, tendo em vista as divergências entre Palmeiras e W Torre que se arrastam há anos e que impactam diretamente a experiência dos torcedores dentro da arena? Se uma torcida concebe seu estádio como casa, como afirma Hollanda, que parcela é essa de palmeirenses que se apropria da arena, tendo em vista o poder aquisitivo necessário para frequentar os jogos? Em outras palavras: que tipo de torcedor é bem-vindo nessa casa? E qual o papel do clube nisso tudo, que exclui torcedores de dentro e de fora do estádio, barrando a passagem deles inclusive nas ruas do entorno?

Como campo multiuso, é sabido que o Allianz Parque estabelece fluxos simbólicos no que tange às práticas torcedoras e a valores ressaltados pelo chamado “padrão FIFA”, como segurança, controle e consumo, mais visíveis no país a partir das intervenções antes da Copa do Mundo de 2014, que se desdobram até hoje com suas peculiaridades. Seis anos depois de sua abertura, a arena palmeirense ainda segue à risca essa cartilha empresarial e excludente, que repele de dentro e de fora da casa os únicos responsáveis por imprimir identidade ao seu espaço ultramoderno e asséptico: os torcedores.

 

Notas

[1] Leia mais em Palmeiras perde para o Sport na casa nova e segue ameaçado na Série A. GE, 19 de novembro de 2014. Acesso em 22/11/2020.

[2] Leia mais em Palmeiras soma R$ 320 milhões em renda no Allianz, com ingresso a R$ 67. UOL Notícias, 1 de julho de 2020. Acesso em 22/11/2020.

[3] Ler mais em Brasil x Chile quebra recorde de arrecadação. CBF, 10 de outubro de 2017. Acesso em 22/11/2020.

[4] Tais números referem-se a antes da pandemia, obviamente.

[5] Veja em Com ingresso mais caro do Brasil, Palmeiras pode deixar de arrecadar R$ 20 milhões em 2019. GE, 23 de outubro de 2019. Acesso em 22/11/2020.

[6] O último jogo do Palmeiras em casa com torcida em 2020 foi em 10 de março, contra o Guaraní do Paraguai. Leia mais em Venda de ingressos para jogo contra Guaraní-PAR no Allianz Parque pela Libertadores. Palmeiras, 4 de março de 2020. Acesso em 22/11/2020.

[7] As regras do Avanti serão detalhadas em um artigo futuro nesta coluna.

[8] Alguns estados, como é o caso de São Paulo, têm valores próprios para o salário mínimo.

[9] O cerco será melhor explicado em um artigo próximo. Abordei longamente a prática na minha dissertação de mestrado.

[10] A “arenização” da rua também acontece de outras maneiras, como com a abertura de bares e outros estabelecimentos que visam um público mais abastado. Isso também foi abordado na dissertação.

 

Referências

HOLLANDA, B. B. B. A torcida brasileira. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012.

TOLEDO, L.H. Lógicas no Futebol: Dimensões Simbólicas de um Esporte Nacional. 2000. 341 f. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000.


Como citar

MANDELLI, Mariana. 6 anos de Allianz Parque: arena que ainda não é casa. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 48, 2020.