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O vilão trágico e os 70 anos do Maracanazo

Leda Costa

Ainda dizem que o Brasil é um país sem memória. Entretanto, setenta anos se passaram e aqui estou rememorando a aquele gol de Ghiggia que tirou do Brasil a chance de erguer pela primeira vez a taça Jules Rimet em pleno Maracanã. Nesse estádio, construído especialmente para abrigar os jogos da IV Copa do Mundo, havia um público estimado – mas não oficial – de duzentas mil pessoas. O Brasil contava com uma população de 52 milhões de habitantes, mas o número de brasileiros que carregaram na memória a história daquele 16 de julho de 1950 foi multiplicado.

Barbosa. Foto: Wikipedia.

Memórias vividas e imaginadas misturam-se, mas a grande maioria delas se concentra num personagem principal: o goleiro Barbosa. Aquele que na época era considerado o melhor arqueiro do país ficou marcado como o maior responsável pela derrota da seleção. Os dias de herói que Barbosa já havia experimentado[1] foram, aos poucos, sendo deixados para trás, abafados por um único momento que ao ser insistentemente recordado e reinterpretado transformou-lhe não apenas no vilão daquele fracasso em campo, mas no mais completo exemplo de vilão da história das narrativas da derrota do futebol brasileiro. O estigma de Barbosa só fez ganhar força com o passar dos anos e sua carreira pareceu-nos ficar reduzida àquele momento, sem antes e sem depois.

Se, geralmente, concebemos a figura de Barbosa como a de um jogador que havia sido esquecido, é importante ressaltar que ocorreu exatamente o contrário, pois ele costumava ser lembrado em demasia. Uma punição muito severa fora lançada sobre o goleiro da seleção de 1950: a de nunca ser esquecido. Severa, principalmente, porque a memória da qual Barbosa passou a fazer parte relacionava-se à dor, esse sentimento que Nietzsche tinha toda razão em considerá-lo como um dos mais eficientes instrumentos mnemônicos. É por meio da dor de uma derrota que vilões do futebol como Barbosa são lançados no panteão negativo da fama e lá permanecem até obterem a oportunidade de redimir os erros que lhes são imputados. Entretanto, Barbosa não teve essa chance e esse é um dos motivos que faz dele o exemplo mais paradigmático de vilão. A imagem do goleiro jamais conseguiu desvincular-se da derrota de 1950. E a derrota de 1950 jamais conseguiu ser contada sem que no centro de sua narrativa estivesse Barbosa.

Entretanto, se por um lado é verdade a Copa de 1950 havia marcado sua carreira, por outro, as culpabilizações lançadas sobre Barbosa, provavelmente, teriam perdido muito de sua força, caso o goleiro continuasse a atuar pela seleção e conseguisse sagrar-se campeão novamente. E apenas o futuro podia lhe oferecer essa possibilidade de redenção, já que seu passado, mesmo que glorioso, pouco lhe socorria. Antes da Copa de 50, Barbosa fora campeão pelo Brasil, naquele mesmo ano, da Copa Rio Branco e campeão Sul-Americano em 1949. Porém, depois de 1950, nada ganhou pelo escrete nacional. Participou do Sul-Americano de 1953, contudo o Brasil fez uma campanha irregular, sendo eliminado do torneio após duas derrotas para o Paraguai. Nesse mesmo ano aconteceu a fratura na perna e o corte da Copa de 1954. Sua figura parecia, inevitavelmente, anexar-se aos 33min30s do segundo tempo daquele Brasil X Uruguai.

A impressão de que teria havido uma falha de Barbosa no gol de Ghiggia foi alimentada durante o passar dos anos.  As poucas imagens que sobraram não lhe serviram de auxílio, ao contrário, sua escassez reforçou a hipótese de erro do arqueiro brasileiro, que nunca teve a oportunidade de provar o contrário. Não havia os recursos tecnológicos de hoje com seus tira-teimas ou as dezenas de câmaras espalhadas pelo gramado que pudessem captar ângulos e perspectivas diferentes capazes de “inocentar” Barbosa, ou pelo menos tornar menos peremptória sua culpabilização. Mas é provável que mesmo que existissem, tais recursos não fossem tão úteis assim. A impressão de ter havido a falha decisiva de um jogador dificilmente se apaga mesmo que seja empreendido um esforço para se comprovar o contrário. No caso das narrativas midiáticas, a necessidade de atribuir responsabilidades pela derrota é imperativa, pois como bem percebeu Nelson Rodrigues, “nas derrotas muito amargas, a tendência natural da torcida é caçar, por toda parte os culpados”.[2]

Essa caça começou logo depois do apito final do árbitro Mr. Reader. Mário Filho, o jornalista esportivo mais importantes da época, afirmou que o arqueiro “nos dois lances decisivos se movimentou sempre com atraso fatal” (Jornal dos Sports, 18/07/1950). Mário minimizou o peso do erro, ao compreender que se tratava de uma falha derivada do excesso de responsabilidade depositado sobre os jogadores. Porém, essa tentativa não escondia a desconfiança de que o goleiro da seleção não tivera controle emocional suficiente para suportar um jogo daquele porte[3].

Se, na época, o goleiro não foi considerado o único culpado[4], em compensação a certeza de que ele havia falhado, era quase unânime. Na análise do desempenho individual dos jogadores da seleção, o jornal Correio da Manhã concluiu que Barbosa “não esteve numa tarde feliz (…) Falhou por ocasião do segundo gol uruguaio” (Grifo meu, 18/07/1950). O Estado de São Paulo, por sua vez, declarou que “se Barbosa permanecesse parado, onde se encontrava, a bola teria batido nele e voltado. Fez, porém, o inacreditável: atirou-se no chão quando ela vinha de meia altura” (apud Perdigão, 147). Já no jornal O Diário do Povo, podemos ler que “Barbosa esteve num dia negro, engolindo um frango no gol que deu a vitória aos orientais” (Grifos meus, 18/10/1950).   

“Por que o Brasil perdeu a Copa do Mundo” foi um documentário resultante das filmagens do jogo Brasil X Uruguai que ficou a cargo do consórcio Cinédia-Milton Rodrigues, que cobriu com exclusividade a Copa do Mundo de 50.

No Jornal dos Sports, a foto do gol de Ghiggia veio acompanhada do seguinte comentário: “Barbosa falhou na cobertura da meta. O couro tomou o caminho certo do fundo das redes” (Grifo meu, 18/07/1950). Esse mesmo periódico esportivo publicou algumas opiniões de leitores em relação à derrota do selecionado. Houve quem pedisse apoio à seleção, mas muitas pessoas demonstraram grande insatisfação com a atuação de alguns jogadores. Em uma das cartas publicadas na seção “Desabafa o torcedor”, o leitor Gilvan Guedes fez uma análise do desempenho individual da seleção e não titubeou ao apontar Barbosa como “o responsável direto pela nossa derrota” (19/07/1950). Opinião bem próxima a do colunista desse mesmo jornal, Ricardo Serran, que afirmou que Barbosa havia deixado “passar os dois gols uruguaios, especialmente o segundo” (27/07/1950).

Abaixo da foto pode-se ler “Barbosa falhou na cobertura da meta”. Jornal dos Sports, 18/07/1950 – Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

 

Se, inicialmente, Barbosa dividiu a vilania com Bigode, hoje em dia, poucos se lembram que após o jogo Brasil X Uruguai, esse lateral, também, havia sido alvo constante de críticas e acusações. Então como se deu o processo de transformação de Barbosa no vilão solitário do Maracanazo? Por que ele foi convertido no herdeiro único da vilania desse jogo?  O processo que anexou, indelevelmente, o goleiro ao jogo de 16 de julho não é tão simples de ser decifrado, entretanto é possível traçar um de seus principais momentos: 1970.

Em 1970, a narrativa da derrota de 1950 voltava com força e esse período foi bastante relevante no processo de transformação da vilania de Barbosa. Foi a Copa de 1970 que despertou um boom de referências ao Maracanazo, afinal, nela a seleção, pela primeira vez, voltaria a enfrentar o Uruguai em uma partida válida pela Copa do Mundo. Desse modo, 1950 ressurgiu como um fantasma.  E Barbosa estava no centro dessa lembrança. O resgate do Maracanazo se alicerçava mais em dúvidas do que certezas. Afinal de contas, os anos haviam passado e nem mesmo os jogadores mantinham intactas as recordações daquele jogo. As histórias contadas sobre 1950 ganharam uma aura lendária, não somente pelas condições específicas do jogo, mas porque os recursos tecnológicos da época não eram suficientes para dar conta de uma versão um pouco mais fidedigna do jogo.

A distância do tempo ajudava a transformar aquela derrota em um evento cheio de mistérios, a ainda serem decifrados e o maior deles relacionava-se ao gol de Ghiggia, o lance fatal do jogo. Se em 1950, como já foi dito, eram poucas as dúvidas quanto à possível falha de Barbosa, com o passar dos anos essa certeza foi minguando. Esse fenômeno, entretanto, ao invés de enfraquecer o elo entre Barbosa e o Maracanazo, fortaleceu-o mais ainda. O goleiro voltava ao cerne da discussão em torno da pergunta que mais uma vez se repetia “por que o Brasil perdeu?”. Essa foi a tônica das referências feitas ao jogo do dia 16 de julho. Obdulio Varela, Ghiggia, Bigode e Juvenal foram os nomes mais consultados para decifrar aquele que se transformara no maior dos enigmas de 1950: Barbosa teria falhado?

Uma espécie de tribunal formou o cenário desse resgate da Copa de 1950, feito por muitos jornais da época e, através dele, se visava realizar uma avaliação pretensamente mais justa da atuação do selecionado.  No meio desse julgamento estava Barbosa. Entretanto, a justiça não importava tanto assim, pois alimentar a dúvida significava explorar uma versão plena de polêmica e de dramaticidade. E a imprensa da época soube como nunca tirar proveito desses aspectos, pois a possibilidade de um erro fatal, cometido faltando pouco para o fim do segundo tempo em um jogo que valia Copa do Mundo, causava – e ainda provoca – bastante impacto. Tudo isso, somado a incerteza de que essa falha teria ocorrido, foi responsável por uma enxurrada de comentários e depoimentos.

Um grande goleiro que teria levado um enorme frango. Sem dúvida, essa versão tem muito mais poder de repercussão do que erros coletivos. Pois, se Ghiggia correra livre pela lateral do campo, ainda restava a possibilidade de Barbosa defender seu chute. Afinal, o goleiro é o último recurso, a última esperança que se tem para que o gol seja evitado. Não que um jogo de futebol funcione exatamente desse modo, mas nosso imaginário assim o concebe. E nas narrativas de futebol, do jornalismo esportivo no Brasil, esse imaginário repleto de expectativas e representações, muitas vezes, fala mais alto.

O fato de ser goleiro contribuiu bastante para a consolidação de Barbosa enquanto vilão único de 1950, isso somado à distância temporal que fez da certeza de falha uma dúvida a ser ainda esclarecida. A tentativa de inocentar Barbosa foi grande e ironicamente Ghiggia foi um dos levantou voz a favor do ex-goleiro da seleção: “não houve falha de Barbosa (…) ele usou a lógica, já que o primeiro gol surgiu de uma jogada semelhante, de um centro meu (Jornal do Brasil, 17/06/1970). Obdulio Varela, por sua vez, também defendeu Barbosa alegando que se tratava de um “goleiro ágil e com grande golpe de vista”, mas cuja sorte lhe faltara no segundo gol uruguaio (Veja, 24/06/1970). Mas se os uruguaios o inocentavam, seu colega de seleção, Juvenal, não foi tão solidário. Em entrevista ao Jornal do Brasil, o jogador afirmou que Barbosa foi um grande goleiro e não poderia ter tomado um gol “como aquele, a bola passando entre ele e a trave” (Jornal do Brasil, 17/06/1970).

Seleção Brasileira na Copa de 1950. Fonte: CBF

Narrando Barbosa

Em 1970, a memória de 1950 se anexa a figura de Barbosa. O goleiro não somente entrou para a história, como se tornou símbolo máximo da derrota de 1950. Seu abatimento, seu desconsolo ao levantar-se do chão após o gol de Ghiggia transformaram-no na tradução viva da perda da copa do mundo. Pouquíssimas imagens sobraram desse jogo. E a principal delas não primava pela clareza. Filmada de poucos ângulos, nada se destaca mais nessa curta filmagem do que a figura de Barbosa que desolado, ergue-se lentamente como quem tivesse levado um grande golpe. A demora para pôr-se novamente de pé e os passos lentos com que se encaminha na direção da meta nos passa um pouco da dimensão do estrondoso impacto daquele gol.

A imagem de Barbosa parece transparecer a sua consciência de que se tratava de um instante irreversível, de um momento tragicamente sem volta. Impressão que é intensificada para nós que já sabemos que de fato aquele lance decidiu o rumo do jogo. Se algum dia pretendeu-se fazer dessas imagens um instrumento de esclarecimento das dúvidas acerca daquele lance, elas, ao contrário, não foram muito úteis para esse fim. A cena do gol não foi capaz de elucidar mistérios, mas conseguiu – e ainda consegue – conferir cores trágicas à derrota de 1950 e a Barbosa.

Ela traduz o girar da roda da fortuna trágica do goleiro. Ali em meio ao silêncio de duzentas mil pessoas, Barbosa se vê de frente a uma encruzilhada pela qual passa “a estrada para o que poderia ter sido e a estrada para o que será”. Não havia como retroceder no tempo. A tristeza de Barbosa contrasta com a alegria de Ghiggia que podemos ver ao fundo, sendo abraçado por seus colegas que pulam e comemoram intensamente. E não é possível desconsiderar a vigorosa força dramática dessa sequência e que se condensa na figura de Barbosa.

Barbosa foi o vilão trágico sobre o qual depositamos um misto de sentimentos. Em vários momentos chegamos a culpabilizá-lo, mas em diversos outros nos sentimos tocados por sua imagem. Barbosa foi grande e sua grandeza não passou despercebida por Nelson Rodrigues, para quem o arqueiro havia atingido a imortalidade. A longevidade esportiva do goleiro chamou a atenção do teatrólogo, que ficou encantado ao vê-lo atuando no auge dos seus 38 anos de idade. Causava-lhe surpresa, principalmente porque se tratava de um jogador sobre o qual, quase todo brasileiro havia descarregado “a responsabilidade maciça, compacta da derrota”. Mas o goleiro sobrevivera a 1950, dando provas de sua força, pois fosse “qualquer um outro estaria morto, enterrado, com o seguinte epitáfio – ‘Aqui jaz fulano, assassinado por um frango’”.

O lance do gol de Ghiggia continuará despertando dúvidas que tendem a ser mantidas, pois já se passaram 70 anos desde que o Brasil perdeu sua primeira Copa do Mundo e essa distância temporal tornará essa lembrança cada vez mais difusa. Mas a possível falha de Barbosa somente continuará a ser um enigma, caso continuemos a nos sentir tão incomodados com a derrota, pois o fato de não termos suportado aquele vice-campeonato é que manteve o 16 de julho vivo em nossa memória. Memória de ressentidos e de um país que demonstra ter uma profunda intolerância à derrota dentro dos gramados, pois se o Brasil tivesse se sagrado campeão em 1950 a desconfiança em torno de erro de Barbosa cairia no esquecimento. E todo esse texto perderia seu sentido.


Notas

[1] Barbosa foi figura fundamental na conquista do Sul-Americano de 1948 do time do Vasco da Gama. Na final contra o River Plate, em Buenos Aires, Barbosa defendeu um pênalti cobrado pelo jogador Angel Labruna, na época artilheiro do River. Essa defesa garantiu o 0 x 0 que deu o título ao Vasco da Gama.

[2] RODRIGUES, Nelson. O berro impresso das manchetes. Rio de Janeiro: Agir, 2007.

[3] Esse tipo de interpretação foi comum nas recepções da derrota de 1950, perdurando até 1954. Sobre esse aspecto ver GUEDES, Simoni Lahud. O Brasil no campo de futebol. Rio de Janeiro: EdUFF, 1998.

[4] O lateral Bigode também surge nas narrativas de grande parte da imprensa da época como um dos culpados – um dos vilões – da derrota de 1950.


Como citar

COSTA, Leda. O vilão trágico e os 70 anos do Maracanazo. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 8, 2020.