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71 anos de história do esporte de pessoas com deficiência

Wagner Xavier de Camargo

No último dia 29 de julho de 2019 completaram-se 71 anos de um evento que pode ser tomado como “marco fundante” das competições esportivas de pessoas com deficiência. Os Jogos de Stoke Mandeville, realizados em 1948 nas instalações de um hospital de reabilitação do mesmo nome (no distrito de Aylesbury Vale, Inglaterra), iniciaram uma prática inusitada, sistematizada e que ganharia rapidamente apelo popular. Com a intenção primeira de inclusão social de pessoas lesionadas nos combates da II Guerra Mundial, o então médico neurologista Ludwig Guttmann reuniu 14 homens e duas mulheres das Forças Armadas Britânicas para competirem na modalidade de Tiro com Arco.

Em que pese ter sido um marco importante para contar esta história do esporte de pessoas com deficiência, não foi a primeira vez que um grupo de lesionados, amputados, surdos ou cegos se reuniram para a prática de exercícios físicos. Há registros históricos de práticas assistemáticas, ainda em fins do século XIX, de grupos com deficiência auditiva que já experimentavam a “novidade” (o esporte moderno) e se aventuravam em algumas modalidades esportivas.

Algumas mulheres com paraplegia em aulas de arco e flecha no Hospital Stoke Mandeville, no início dos anos 50. Foto: jackcast2015/Flickr.

No Brasil, e na história de algumas instituições de ensino voltadas para crianças com deficiência, sabe-se que garotos cegos jogavam futebol com tampinhas de refrigerante (novidades no início do século XX no país), ou meias emboladas, em pátios de internatos no Nordeste. Ou ainda, que disputas acirradíssimas de xadrez aconteciam entre jovens de visão subnormal e cegos nos auditórios do Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro. Após a I Guerra Mundial, algumas práticas reabilitatórias de caráter esportivo e com cadeiras de rodas apareceram na Alemanha e mesmo nos Estados Unidos.

Entretanto, foi a partir do número absurdo de lesionados, amputados, paralisados, surdos e cegos produzido pela II Guerra Mundial que a sistematização de ações esportivas voltadas para pessoas com deficiência tomou corpo e se organizou em eventos de esporte então denominados “paradesportivos” ou “paralímpicos”. Se no início deste processo de estruturação, ainda em fins dos anos 1950, a expressão “Jogos Paralímpicos” significava evento de esportes para “paralíticos”, “paraplégicos” e “paralisados” em geral, numa espécie de nominação preconceituosa e discriminatória de uma “olimpíada particular”, com o passar do tempo passa a ser um evento fixo no calendário esportivo internacional. Os Jogos Paralímpicos rapidamente se caracterizam como um campeonato multiesportivo, paralelo e subsequente, aos Jogos Olímpicos (de verão e inverno).

O australiano Paralímpico Tony South recebe sua medalha de ouro pelo tiro ao alvo nos Jogos Paraolímpicos de Verão de Tel Aviv, em 1968, do fundador do movimento paraolímpico, Ludwig Guttmann. Foto: Wikipedia.

Por isso que os Jogos de Stoke Mandeville, em 1948, podem ser considerados o marco fundante de um movimento que se estrutura e se sistematiza, proporcionando o aumento da visibilidade de pessoas com deficiência. Para quem gosta do “mito de origem” (como diria o historiador Marc Bloch sobre um fato histórico desencadeador) e é aficionado/a em momentos fundantes da “história oficial” da Humanidade, é a eles que deve se referenciar. Os Jogos Paralímpicos se realizaram, pela primeira vez, no mesmo lugar e alguns dias após os Jogos Olímpicos de Roma, em 1960. E depois de um período meio cambaleante de afirmação, a partir de 1988 têm se organizado nas mesmas cidades-sede em que acontecem as contendas olímpicas.

Em nosso país a trajetória sistemática do paradesporto tem sido frequente e constante desde os anos 1980, com a fundação de várias entidades nacionais de foro paradesportivo. Eu mesmo estudei em meu Mestrado a estruturação da então Associação Brasileira de Desportos para Cegos (ABDC) e fiz parte de sua reestruturação, entre os anos de 1993 e 1996. Na época fui nomeado coordenador técnico de goalball, uma de suas modalidades de esporte que necessitava maior planejamento. Não apenas o goalball, mas todos os esportes praticados por pessoas cegas e com deficiência visual tiveram um incremento no número de atletas e mesmo em melhorias de condições de treinamento nos últimos 20 anos. Parte desta melhora advém de múltiplas ações, e, inclusive, da fundação do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), em 1995, e de tudo o que ele realizou em todo o território nacional ao longo destes anos.

Seleção sueca de Goalball nos Jogos Paraolímpicos de Verão de Atenas, em 2004. Foto: Wikipedia.

Dessa forma, o esporte paraolímpico tem se desenvolvido a olhos vistos. Se é verdade que ainda colhe “frutos” de tragédias pessoais, lesões irreversíveis ou mesmo de problemas no nascimento (de má-formação congênita ou drogadição), é também verdade que potencializa e estimula pessoas para buscarem um lugar nas práticas esportivas contemporâneas. A multiplicação dos torneios (nacionais, continentais e mundiais), a tecnologia à disposição do corpo com deficiência e mesmo a produção de conhecimento sobre este corpo no esporte são ganhos socioculturais de grande relevância.

Tenho certeza de que, apesar dos tempos sombrios que se abatem sobre a política nacional com consequências para ações de desenvolvimento e financiamentos do esporte por parte do Estado, o paradesporto nacional sobreviverá. E nossas e nossos atletas, das mais distintas habilidades e níveis de comprometimento na deficiência, se superarão. Afinal, a “superação”, em que pese ser “clichê”, é um caminho sem volta. E a expressão esportiva destas pessoas, uma questão de sobrevivência!