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A aventura do Esporte Clube Bahia no país dos sovietes

André Uzêda

“Esses não acreditam em Deus. Nós temos a proteção do Senhor do Bonfim”.

A frase foi a última dita pelo presidente Osório Villas Boas na preleção antes do jogo contra o Torpedo, então líder do Campeonato Russo. Após uma longa excursão no continente europeu, o Bahia finalmente chegava ao país dos sovietes.

Mascote das Olimpíadas de 1980, ursinho Misha chora durante cerimônia de encerramento dos jogos. Foto: Wikipedia.

A partida aconteceu no dia 5 de junho de 1957, na Grande Arena do Estádio Central Lênin. O equipamento, construído um ano antes, seria o mesmo que viria a abrir e fechar as Olimpíadas de 1980, com direito ao aceno e choro do ursinho Misha.

Apesar das intimidações no vestiário, as duas equipes entraram em campo em absoluta cordialidade. Cada um dos atletas, dos dois times, trouxe um buquê de flores na mão e entregou ao adversário, recebendo também um ramo de presente. Houve troca de flâmulas e aplausos da torcida russa – mais de 80 mil – aos brasileiros.

Em 2014, algumas imagens deste jogo misteriosamente vieram à baila após anos, quase seis décadas, de profundo desconhecimento da existência destes registros. Os jogadores do Bahia aturaram com o tradicional uniforme branco, de camisa longa por conta do frio em Moscou, ligeiramente atenuado pela proximidade do verão.

O futebol brasileiro ainda não tinha o status de excelência que viria a conquistar no ano seguinte, com a glória obtida na Copa da Suécia. Ainda assim, muito pelo prestígio de Uruguai e Argentina, o estilo sul-americano era festejado pela habilidade incomum dos atletas na condução da bola.

Na URSS, o momento era de mudança política. Joseph Stalin, no poder desde 1922, havia morrido em 1953 e um forte movimento anticomunista, reprimido com violência, crescia nas repúblicas soviéticas. Por outro lado, a Guerra Fria permanecia em ebulição com a inauguração de novos projetos científicos e a largada na corrida espacial. Naquele mesmo ano da visita do Bahia, em outubro, os russos mandariam para o espaço o primeiro satélite artificial. O Sputnik-1 entrou em órbita no mês de comemoração da Revolução proletária, que completava 40 primaveras.

Veja o vídeo da atuação do Bahia contra o Torpedo:

Em campo, os russos fizeram pressão desde o início do jogo. E rapidamente abriram o placar. Na sequência, mais calor para cima dos baianos, com duas boas chances de ampliar o marcador. Em seu livro-testemunho Futebol, paixão & catimba, Osório revela que apelou para a bruta ignorância para conter o ímpeto moscovita.

“Era de meter medo. Perspectiva de goleada, e daquelas! O Bahia estava cansado dos jogos anteriores em outros países. O Joe quase não corria. Mandei o Jota Alves em seu lugar, mas, antes, chamei o negão e ordenei: ‘Olha, você vai lá e baixa o pai naquele meia esquerda russo. De qualquer jeito! O homem está nos desorientando. Tire ele do jogo…’”

Vale a lembrança que as substituições no futebol só foram permitidas a partir da Copa de 1970 e, muito provavelmente, Osório foi traído pela memória ao reportar o caso. O fato é que, entre botinadas e boas jogadas, ainda no primeiro tempo, o Bahia empatou com o ponta Marito.

No vestiário, mais cobrança do presidente. “Aqueles russos ateus. Nós com a proteção de Senhor do Bonfim! Pau neles! Pau neles!”

A motivação do cartola não era propriamente religiosa e, menos ainda, ideológica, num possível afinamento com a política norte-americana. Ainda assim, era o dinheiro e a lógica capitalista que exasperavam o dirigente.

O Bahia estava sem dinheiro para continuar a excursão. Osório narra no livro que havia caído no golpe de um intermediário que acompanhava a delegação no exterior, embora nunca pagasse os atletas e a comissão técnica. “Tenha calma”, “estou me virando” eram suas respostas diante das seguidas cobranças.

Cerimônia antes do começo da primeira partida do Bahia na Rússia. Foto: Reprodução/YouTube.

Desde o início, o périplo tricolor enfrentava dificuldades financeiras. Ainda em Salvador, na véspera da viagem, o sócio que bancaria as passagens desistiu. A informação vazou para a imprensa e virou gaiatice nas gazetas. “O Bahia vai excursionar em Periperi”, brincavam os cronistas, em referência ao bairro suburbano, distante do centro da cidade.

Para garantir o traslado, Osório usou suas influências políticas como vereador para conseguir uma audiência com o governador da Bahia, Antônio Balbino. Lá, suplicou por um empréstimo sob o argumento que seria a primeira vez de um time baiano no exterior. O Banco de Fomento, criado para incentivar projetos de infraestrutura, profissionais liberais e pequenas empresas, concedeu a verba pública e garantiu a viagem do clube à Europa.

Foram jogos em Londres (perdeu do Chelsea), Alemanha (perdeu do Hamburgo, mas venceu o Kassel), França (venceu a seleção Le Havre), Tchecoslováquia (derrotou a seleção nacional por 3 a 1) e Bélgica (empatou com o Standard de Liège).

Na Rússia, cansado dos sucessivos canos e dos poucos caraminguás pagos, Osório conseguiu contato direto com a federação russa através de dois intérpretes brasileiros. Ainda aproveitou para construir uma trama e dispensar o intermediário caloteiro.

“Eu acho que ele é espião americano. Acompanhei os movimentos dele em Hamburgo e penso que deseja criar mais casos”, teria dito para as autoridades soviéticas.

Com o agenciador fora da jogada, o contrato foi firmado em 10 mil rublos. Mas só seria pago se o Bahia vencesse o jogo. No combo, ainda continha a promessa de novos adversários em territórios socialistas para medir forças com o tricolor.

O doping motivacional funcionou e, no segundo tempo, Hamilton virou com um chute forte de fora da área. Os russos adiantaram a linha ofensiva e pressionaram a todo custo por uma nova igualdade. Não se sabe se por interseção do Senhor do Bonfim ou pelo estímulo de finalmente receberem os combinados, a linha média de defesa esteve inspiradíssima e salvou três bolas em na risca do gol. Em outra oportunidade, o goleiro Jair projetou o corpo num chute à queima-roupa.

Defesa do Bahia tenta afastar bola e garantir a virada no placar. Foto: Reprodução/YouTube.

Com a virada espetacular, o Bahia garantiu inicialmente mais três jogos, logo virando sete, ao todo. Rodou pelas cidades de Leningrado, Minsk e novamente Moscou. Duelou com o Zenit (venceu por 4 a 3), Spartak (empatou em 1 a 1), venceu o Kieschenov por 1 a 0, empatou com o Lokomotiv Moscow (por 2 a 2) e com o Karkov (0 a 0) e, na despedida da jornada, ainda perdeu para o Dínamo por 3 a 1, que seria campeão russo daquela temporada e tinha a meta defendida pela estrela Lev Yashin.

Alguns estudiosos defendem que o Bahia foi o primeiro clube brasileiro a atuar na Rússia. Pesa sobre esta decisão o contexto da Guerra Fria e o embargo americano nas relações latino-americanas com o bloco soviético. No entanto, carece de maiores fontes esta afirmação tão categórica sobre o pioneirismo tricolor.

De qualquer sorte, houve uma frondosa mais-valia durante aquela visita. Trocando antigas peças como Carlito e Isaltino, o Bahia começava a formar ali o esquadrão imbatível que viria a reinar nos cinco anos seguintes, conquistando, como louro maior, a I Taça Brasil, de 1959, sobre o Santos de Pelé.

Na condição de campeão do Brasil, voltaria novamente à Rússia em 1960. Entre os novos confrontos, venceria um combinado do exército russo, em 18 de agosto, por 2 a 1. O mesmo exército que coleciona, entre seus títulos incontestes, vitórias sobre Napoleão e Hitler, jogando em casa, na retranca, e saindo num rápido e fulminante contra-ataque.

Como citar

UZêDA, André. A aventura do Esporte Clube Bahia no país dos sovietes. Ludopédio, São Paulo, v. 131, n. 64, 2020.