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A bancada da bola banca quem?

Georgino Jorge de Souza Neto, Tomaz Salles de Amorim Pereira

A relação estabelecida entre o campo político e o universo esportivo não é algo recente. Ao longo do século XX podemos notar que ambos se entrecruzam, construindo práticas e interesses fortemente particulares. O desenvolvimento de uma estrutura mercadológica, que privilegia o incremento da lógica produção-consumo fez com que, tanto a esfera política quanto a esportiva, dialogassem centralmente a partir deste prisma.

Assim, de modo mais específico, o futebol (enquanto um sub-produto esportivo), é formatado como uma experiência espetacularizada, visando o consumo, o lucro e o estabelecimento de um rentável mercado. No caso do Brasil, é possível pensarmos que poucas manifestações culturais tenham a força de penetração social que o futebol possui. Obviamente, um fenômeno de tamanho impacto não passaria despercebido aos olhos do sistema de poder institucionalizado, através dos representantes políticos.

Com efeito, não é pouco comum o uso deste esporte no cotidiano político nacional. Desde candidatos que através de práticas eleitoreiras prometem melhorias nos campos de várzea dos bairros, ou a entrega de material esportivo, até uma mais ordenada e sofisticada aproximação com os níveis mais elevados do futebol profissional. Tornou-se usual a eleição de vereadores, deputados e senadores vinculados ao contexto futebolístico. Uma legião de ex-jogadores, jornalistas esportivos, dirigentes e empresários do setor têm emergido no cenário político brasileiro, compondo assim o que denominou-se chamar de “bancada da bola”.

Sobre este fenômeno (bancada), o entendemos a partir da formação de frentes parlamentares organizadas, independentes ao partido, em torno de interesses comuns, e que possuem como bandeira principal a legislação a favor do desenvolvimento e/ou melhoria de determinado setor. Sendo assim, podemos registrar a constituição de várias “bancadas” presentes no cenário político brasileiro, dentre as quais destaque para a evangélica, ambiental, ruralista e sindical. No caso particular do futebol, o que motiva, justifica e legitima a constituição de tal grupo parlamentar? Ele se sustenta a partir de quais princípios? Quem ele “banca”?

Diferentemente das frentes parlamentares supramencionadas, a bancada da Bola formalizada como Frente Parlamentar de Apoio ao Esporte não possui grandes credenciais ou papéis destacáveis em embates ocorridos no Congresso. Não obstante, atua de forma intensa, contudo discreta e pontual.

A sua composição é a reunião de congressistas brasileiros ligados aos clubes de futebol e às federações de futebol que atuam em prol de interesses comuns. Encontra-se dificuldade ao procurar datar a instauração de tal Frente Parlamentar, entretanto, sabe-se que a eleição de Eurico Miranda, à época presidente do Clube de Regatas Vasco da Gama, em 1994 representa um divisor de águas. O lema da campanha do dirigente vascaíno demonstrava, de forma clara, a aproximação do futebol com a política – “Vascaíno vota em vascaíno.” O curioso é a origem do dinheiro para o financiamento de campanha: 50 mil reais foram doados pela Confederação Brasileira de Futebol.

José Maria Marin, Marco Polo Del Nero e Eurico Miranda. Foto: Rafael Ribeiro – CBF.

Desde Eurico, os componentes da bancada da bola apresentam um objetivo em comum e norteador da atuação dos membros – proteção aos anseios dos clubes e, sobretudo, aos da CBF. Após a traumática derrota na Copa do Mundo de 1998, realizada na França, dúvidas quanta à idoneidade dos responsáveis pelo gerenciamento da seleção brasileira deflagraram-se. Questionou-se a lesão do atacante Ronaldo Nazário, melhor jogador do elenco, e o contrato de patrocínio da Nike, fabricante de material esportivo, com a Confederação Brasileira de Futebol aliado a irregularidades financeiras relacionadas aos dirigentes da CBF.

O polêmico tema ganhou espaço na política brasileira, Câmara e Senado atuaram em parceria na criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Pela primeira vez o futebol estava sob os refletores do congresso – CPI do Futebol, também alcunhada de CPI-Nike. Diversas personalidades do futebol foram chamadas pela comissão liderada pelo deputado federal Aldo Rebelo, dentre elas o treinador Zagallo, o craque Ronaldo, o presidente, à época, da CBF Ricardo Teixeira, Vanderlei Luxemburgo e o também jogador Edmundo. As páginas desportivas mais assemelhavam-se às policiais, tamanha eram as revelações de irregularidades, incompetência e de corrupção.

A CPI proposta por Aldo Rebelo produziu em oito meses de investigações uma análise ampla, contundente e reveladora, especialmente a despeito das transações financeiras escusas realizadas por Ricardo Teixeira. Todavia, uma manobra realizada por congressistas, apelidada de bancada da bola agiu em parceria com a alta cúpula da CBF. Eurico Miranda, presidente do Vasco da Gama; José Mendonça, presidente do Santa Cruz; Darcísio Perondi, irmão do presidente da Federação Gaúcha de Futebol; e outros congressistas ligados ao futebol persuadiram deputados “neutros” a votarem contra a aprovação do relatório final do inquérito proposto por Aldo.

A atuação da bancada da bola não é rotineira, nem tão enfática se comparada à de outras frentes parlamentares, no entanto, caracteriza-se por ser pontual, favorável e fiel aos anseios dos dirigentes de clubes, de federações e, principalmente, da CBF.

Em novembro de 2013, às vésperas da Copa do Mundo, o Senador Mário Couto (PSDB-PA) deu início aos planos de instaurar nova Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar, novamente, a Confederação Brasileira de Futebol. Não obstante, tal tratativa sucumbiu-se antes mesmo da leitura do texto, uma vez que não alcançou o número de assinaturas necessárias (27). Um dia antes do prazo para a divulgação nominal final dos senadores favoráveis ao inquérito, Zezé Perrella, senador pelo PDT-MG, convenceu nove senadores a desistirem de assinar a promulgação da investigação. O ex-presidente do Cruzeiro Esporte Clube ofereceu-se para ajudar o presidente da CBF José Maria Marin. Demonstrando, dessa forma, a quais interesses a bancada da bola serve.

A presidenta Dilma Rousseff durante cerimônia de assinatura de medida provisória para modernizar a gestão e a responsabilidade fiscal do futebol brasileiro (março de 2015), no Palácio do Planalto. Foto: José Cruz – Agência Brasil.

Atualmente, um assunto rondou as discussões futebolísticas de cunho político: Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE). O projeto que visa o refinanciamento das dívidas dos clubes de futebol com a União encontrou forte resistência por parte dos congressistas ligados à CBF. Vicente Cândido (PT-SP); deputado federal é sócio do futuro presidente da CBF, Marco Polo Del Nero; José Rocha (PR-BA), defensor da entidade; Deley (PMDB-RJ), alinhado aos interesses da CBF e dos clubes; e Jovair Arantes, conselheiro do Atlético Goianiense; polemizaram o texto da LRFE. Deliberadamente tentaram fazer com o refinanciamento das dívidas ocorresse sem a cobrança de nenhuma contrapartida dos clubes. Ademais, os supracitados deputados organizaram-se para que a CBF fosse excluída do projeto, impedindo, assim, que a confederação se sujeitasse à fiscalização do governo e às leis de responsabilidade fiscal e de transparência.

Este tipo de debate no cenário futebolístico/político brasileiro se torna cada vez mais necessário, frente aos embates de interesses situados no interior deste movimento, e que vêm forçando (não sem resistências), a forja de novos comportamentos e valores dos atores envolvidos na cultura e prática do futebol (e do seu entorno).