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A beleza individual no esporte coletivo: os mais belos dribles do futebol e do basquetebol em 2015

Marcos Marques dos Santos Júnior

“A maioria das pessoas que se consideram cultas tende a acreditar que experiências estéticas só podem ser desencadeadas por um conjunto limitado de objetos e situações consagrados: por livros que se apresentem como “literários”, pela música executada em salas de concerto, por quadros pendurados em museus ou por dramas que se desenvolvam num palco. O fato de ser tão conservador com respeito ao cânone permite a esse grupo de elite utilizar a experiência estética como instrumento de distinção e privilégio social- instrumento de distinção, aliás, que a autoproclamada classe média culta gosta de usar como arma de agressão social, mais contra os “novos ricos” que contra os ignorantes, pobres e oprimidos. De acordo com essa visão, os times que milhões de pessoas comuns acompanham, e dos quais alguns multimilionários são até donos, jamais seriam dignos o suficiente para serem confundidos com algum tipo de experiência estética.” (Gumbrecht, 2007)

Em minha opinião os dois melhores dribles do ano de 2015 no futebol e no basquetebol foram do argentino Lionel Messi atacante do F.C. Barcelona e de Stephen Curry norte americano armador do Golden State Warriors. A partir de agora darei opiniões que reforçarão o meu gosto por eles.

O drible de Messi em Boateng pelas semifinais da temporada 2015-2016 da Liga dos Campeões da Europa foi além de bonito plasticamente como também muito decisivo pois apesar de não ser o último gol daquele jogo mas foi o que desestabilizou psicologicamente o Bayern não somente para o restante daquela partida que era de ida mas até para o jogo da volta em Munique, enfim, foi realmente impactante, com efeito digno das grandes obras de arte.

A obra de arte quando é grande vai além dos sentidos de quem a aprecia chegando até o seu espírito, ou seja, com potência chega até as camadas mais sutis do nosso ser. Ela fica registrada na consciência do observador assim como também ficam uma bela paisagem da natureza, ou uma bela cena de um filme; a diferença entre um e outro é mesmo a estaticidade de um e o movimento no outro.

Assim é, pois no caso dos esportes quando os apreciamos sabemos o que está acontecendo ali assistindo uma partida de futebol ou de basquetebol, sabemos que mesmo não sendo profundos conhecedores daquela modalidade temos corpos e também nos movimentamos, a diferença se resume aos movimentos executados, no caso, os dribles dos atletas têm diferentes metas do que quando nos movimentamos em nossas diferentes rotinas indo comprar pão, caminhando até o trabalho ou passeando no parque.

Repare que todos nós assim como os atletas no cumprimento dos nossos diferentes deveres respeitamos um tempo cronológico pré-determinado, respeitamos certos limites espaciais, sentimos todos juntos a lei da gravidade sendo exercida sobre nós, temos chefes e eles (atletas) no caso têm técnicos e por aí vai.

No caso de Messi sua meta é o gol e no caso de Stephen Curry sua meta é a cesta com ambos antes de chegarem às suas metas finais executando um drible desconcertante em cima de um marcador no meio do caminho.

SAO PAULO, BRAZIL - JULY 09: Lionel Messi of Argentina celebrates the win after the 2014 FIFA World Cup Brazil Semi Final match between the Netherlands and Argentina at Arena de Sao Paulo on July 9, 2014 in Sao Paulo, Brazil. (Photo by Clive Rose/Getty Images) *** Local Caption *** Lionel Messi

Messi em ação pela Argentina na Copa de 2014. Foto: Clive Rose / Getty Images.

Não é novidade que o movimento humano em estado de excelência atrai olhares detectores da beleza em movimento, nós, torcedores de algum clube ou franquia ou até mesmo somente apreciadores do belo, sem desprender energia torcendo para alguém especificamente.

Não haveria esporte profissional hoje se não houvesse torcedores ou apreciadores, pois não haveria público e financeiramente as instituições do esporte profissional faliriam sem dinheiro e fechariam. Nós, os observadores é quem damos vida e movimento financeiro ao esporte profissional por diversas vias de mercado e é bom que isso seja sempre lembrado. Nós é quem julgamos o que é belo e bonito nos esportes ou em qualquer outra arte.

Veja bem, nós somos tão chatos ao criticar a arte esportiva como podem ser chatos também críticos de outras artes. Nós vaiamos, deixamos o ginásio ou o estádio antes do fim e até brigamos como idiotas, praticamos selvageria, sim? Nesse caso seria melhor se fôssemos apenas chatos, certo? Essa é a parte chata no esporte fora os casos de dopping e outras mais… mas sigamos com o que interessa no momento, o belo.

A apreciação de um drible que tem movimento é diferente da apreciação de um belo quadro que se encontra estático, pois como sabemos, o jogo flui, a bola rola e quem vai ao banheiro, por exemplo, pode perder um gol ou um belo drible (podendo consultar o lance posteriormente nas mídias) mas o quadro permanecerá ali estático, com você podendo ir ao banheiro se quiser e ele ainda estará lá paradinho à sua espera na volta.

O drible de Messi

Aquilo foi um deus-nos-acuda para os alemães, ver aquilo dentro de campo seria humilhante, o zagueiro alemão no chão depois do drible, a cavadinha em cima do melhor goleiro do mundo e depois a rede a balançar ainda com outro defensor do Bayern deitado dentro do gol, pois havia se jogado para tentar impedi-lo. Depois do gol estavam lá os corpos caídos no chão; drama para alguns e celebração para outros.

Assistindo o jogo em casa também me joguei no chão, pois sou dramático ao ver jogos emocionantes e naquele instante eu definitivamente colocaria Messi no meu hall da fama ao lado de Romário, Zidane e outros.

Diferente do drible de Stephen Curry (veja daqui a pouco), Messi não levou o adversário para uma determinada zona favorável ao drible, ele driblou o zagueiro no primeiro espaço que viria pela frente (o ato do drible também faz aparecer mais espaço ainda) como também não escondeu a bola do marcador como fez Curry, não foi uma pedalada digna de Ronaldinho Gaúcho que ao passar as pernas por cima da bola faz-se um ato de escondê-la, Messi levou a bola pra cima do marcador fez que iria para um lado mas foi para o outro, só isso fez com que Boateng caísse duro no chão e Messi seguisse rumo à sua meta.

E essa simplicidade é digna de Messi, que a prefere. Ele é excelente em tirar boniteza da simplicidade, um artista que se fôssemos colocar a jogada do gol em um quadro esse não seria pintado com muitas curvas mas sim com pinceladas penetrantes e objetivas, a única curva seria a trajetória da bola na cavadinha por cima do ótimo goleiro Neuer, uma curva desenhada devagar e cheia de suspense como o arremesso de Curry após o drible em Chris Paul. Veja o gol de Messi:

A zona do arrebatamento onde Stephen Curry driblou Chris Paul

Stephen Curry foi campeão da temporada 2015-2016 da NBA pelo Golden State Warriors além de ter sido o craque do campeonato que para eles é chamado de MVP (Most Valuable Player), ou seja, Jogador Mais Valioso.

Steph, como é chamado, vem quebrando diversos recordes e pulverizando marcas em quadras, é um excelente atleta assim como Messi mas o que mais me interessa nele é a plasticidade de seus movimentos.

Seu drible se deu como se ele levasse seu ótimo marcador Chris Paul para uma espécie de zona do drible, ou zona do arrebatamento, nesse caso, veja bem meu amigo, Steph saiu do lado direito quicando a bola e cruzou todo o garrafão até o lado esquerdo. Vocês acham que depois de ter chegado numa zona aonde ficaria sozinho com seu marcador ele voltaria para o lado de onde veio?

Warriors at Wizards 2/3/16

Stephen Curry aplica drible. Foto: Keith Allison.

Pois bem, imaginemos uma cena de um filme com um jovem apaixonado que cheio de boas intenções retira a moça de uma zona conturbada cheia de gente para pedi-la em namoro, amigo leitor, você acha que ele voltaria com a moça até a zona da confusão? É claro que não! Ele cumpriria seu objetivo, a pediria em namoro ali mesmo e ela provavelmente aceitaria, pois tudo foi meticulosamente planejado.Pois é amigo, o mesmo aconteceu nas quadras, a vida imita a arte ou a arte imita a vida? Boa pergunta, sim?

Stephen Curry não voltaria, aliás, ele insinuou que voltaria passando a bola por detrás do corpo em direção ao lado do qual veio mas não voltou, Chris Paul achou que ele voltaria ao outro lado mas ele não voltou, resultado: O drible teve um efeito elástico, ele se flexibilizou para um lado e voltou para o mesmo lugar causando um solavanco em Chis Paul que não conseguiu voltar para o lugar e caiu; Stephen Curry já sem marcação fechou o quadro com uma pincelada em forma de curva até a cesta de dois pontos.

No basquete americano o drible tem outro nome, por lá eles chamam de crossover, enfim, o drible de Stephen Curry foi um pouco mais complexo que o drible de Messi e consequentemente mais plástico também, se fôssemos emoldurar esse momento criado pelo belo armador o pintor pincelaria mais curvas que o quadro do gol de Messi e a semelhança entre os dois se daria no arremate com um grande arco até a cesta assim como o arremate (cavadinha) de Messi também teve um arco, ou seja, a bola passou por uma parábola antes de chegar à meta.

Com essa jogada de Curry poderíamos fazer uma comparação gravando uma cena de um filme (arte em movimento) com um jovem negro americano atravessando uma rua da direita para a esquerda que ficaria em dúvida se esqueceu de pagar sua conta numa cafeteria mas que se deu conta de que não esqueceu e voltaria rumo ao seu objetivo, subiria meia dúzia de escadas e atravessaria uma pequena ponte arqueada da esquerda para a direita em direção à sua meta, cheio de boas intenções.

Veja a arte de Stephen Curry:

Referências:

Gumbrecht, Hans Ulrich. Elogio da beleza atlética. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Como citar

SANTOS JúNIOR, Marcos Marques dos. A beleza individual no esporte coletivo: os mais belos dribles do futebol e do basquetebol em 2015.