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A busca por um herói e como o jornalismo esportivo cria seus monstros

Wallace Graciano

A cena passa-se em 2 de janeiro de 2020. Apesar de a Copa São Paulo bater à porta, um despedaçado Cruzeiro chegar aos 99 anos sem muito o que ser celebrado, e um mercado de transferências brasileiro ao rubro, os dois principais portais de notícia do país viram o principal valor-notícia em um possível retorno de Neymar ao Barcelona, que fora repercutido (mais uma vez…) na capa da revista catalã “Sport” daquele dia. Nada mal, não fosse isso uma tradução de como os meios de comunicação optam por destacar exaustivamente qualquer situação em que ele esteja envolvido, o que trouxe inúmeras críticas à cobertura e ao personagem. Ou seja, mais que um jogador, o craque era um ícone em todos os significados que o termo pode carregar.

Capa do jornal Sport, de Barcelona, do dia 2 de novembro

Neymar foi, mais uma vez, capa da revista catalã Sport no dia 2 de janeiro de 2020, quando voltaram a especular um retorno do jogador ao Barcelona. Foto: Reprodução.

E essa construção é contínua. Se pegarmos ao longo de sua trajetória, observamos que, para além de seu talento técnico indiscutível, Neymar é fruto de uma exploração massiva como produto midiático. Por tais características que o faziam destoar dos demais companheiros, foi explorado pelos meios de comunicação de forma exaustiva desde seus primeiros passos com a camisa do Santos, lá em 2009. Conforme ganhou notoriedade, sua presença ficou ainda mais berrante nesses veículos, o que transformava o personagem maior que a obra (ou o clube em que atuava, no caso).

Essa ideia de exploração massiva de um personagem pode ser explicada em teorias conhecidas. Ao analisar o estudo do herói realizado por Joseph Campbell, Lamartine Costa, lá em 2002, dizia que esse tipo de busca por um personagem icônico se dava, sobretudo, por uma dramatização de como nos relacionamos com o mundo. Ou seja, esses heróis passam a ser peças fundamentais para a compreensão de realidade. A ele é intrínseco à cultura a qual o produziu. Ele é construído, desconstruído, interpretado e fomentado.

Se pensarmos bem, Neymar nasce para o futebol, em 2009, como o expoente de um país que perdeu na técnica sua grande virtude. Vivíamos o primeiro comando de Dunga na seleção brasileira, que durou até meados do ano seguinte. A camisa canarinho, que outrora era objeto de fascínio e exportava ao mundo a ideia da fantasia, agora era encarnada pelo pragmatismo. Não à toa, sua figura surge como antagonista desse modelo e é defendida a ferro e fogo às vésperas da convocação para a Copa do Mundo de 2010, disputada na África do Sul, ainda que ele pouco tenha jogado em alto nível até então, vencendo apenas uma Copa do Brasil em seis meses de titularidade efetiva no Santos, clube que defendia à época.

Isso é perceptível se olharmos a teoria de Katia Rubio, uma das pesquisadoras mais icônicas do meio esportivo, que a essa exploração exaustiva de um personagem “estão associados o sucesso, a fama e uma vida vitoriosa, ou seja, valores cultivados e desejados pela sociedade atual”.

Neymar, no início, era um símbolo que sustentava os sonhos e desejos da humanidade por meio de sua dramatização. O craque carregava, desde cedo, o fardo de ser o principal expoente de um país que perdia a virtude que o destoava no mundo. O futebol sempre foi uma das principais bandeiras diplomáticas que tínhamos ao romper fronteiras. Não à toa, era naquele garoto que era depositada a esperança da recuperação de uma identidade outrora marcante, que já não se fazia presente.

Em “A mítica neoliberal, o sistema esportivo, a mídia e o herói esportivo”, Santiago Pich sustenta isso ao afirmar que “a figura do herói esportivo, veiculada pelos veículos de mídia e instituída no imaginário social, adquire o status da resposta possível para superar as frustrações do insucesso social e tornar os indivíduos aceitos pela sociedade tanto econômica – captando, assim, os desejos populares de ascensão social”.

Não à toa, ganhava mais espaço nos meios de comunicação em relação aos seus demais companheiros, como Paulo Henrique Ganso, de quem também muito se esperava, mas pouco entregou (o que é assunto para outra conversa). Katia Rubio mesmo trata disso ao afirmar que a sociedade valoriza o vencedor através de um comportamento que o mais forte e o mais habilidoso é o apreciado em detrimento ao seu semelhante. Aquele que chegar ao topo servirá como exemplo para os demais. E o herói, enquanto figura mítica, possui força, coragem e astúcia, adjetivos valorizados pela sociedade. Com seu talento fora da curva, Neymar era esse “mito” perfeito.

Refém do próprio personagem

Essa busca massiva fez com que Neymar não fosse apenas “vítima” de um processo de exploração. Ele mesmo se apropriou disso, tornando-se um ícone e, consequentemente, atraindo marcas que queriam associar a ele sua identidade, o que lhe foi vantajoso financeiramente. O craque, antes mito criado pelas notícias, passava a criá-las por si só.

E aí cabe uma crítica direta ao jornalismo esportivo. Deixando de lado o comportamento do atleta em sua vida social – pois isso, em última instância, a ninguém interessa, de fato –, a exploração massiva do craque como personagem faz da mídia um ator em tudo que envolve a carreira do jogador.

E ao pegarmos outra teoria famosa, a da sociedade-espetáculo, de Adorno & Horkheimer, em 1985, vemos que a busca pela audiência pelos meios de comunicação e, consequentemente, lucros, faz com que o meio do jornalismo esportivo deturpe e seja deturpado. Afinal, há uma busca cada vez maior por satisfazer as necessidades pré-existentes, direcionando a cultura ao consumo, não o contrário.

Obviamente, o é pela popularidade desses astros, da constante entrega de informações e imagens dele, que o jornalismo se torna interessante para o público. Porém, o que observamos no caso da carreira do jogador foi uma exploração como ícone único de uma geração. Não houve uma formação de público contínua para outros atletas e assuntos, somente uma resposta pelos anseios da população através de relatórios de audiência e recepção do personagem.

Assim, a exploração massiva de Neymar enquanto personagem (a qual ele mesmo se apropriou, que fique claro, novamente) fez com que houvesse um esvaziamento de valor real. Ou seja, não interessava apenas o que ele representava dentro de campo, mas, também, e talvez principalmente, fora dele. Seu talento passou a ser sobrepujado pelo valor de mercado, que é voltado para o consumo das massas. Nesse contexto, o jornalismo possui papel preponderante, uma vez que é um intermediador entre a produção de conteúdo e a sociedade.

Neymar é refém do próprio personagem. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Em “Esporte e Sociedade”, Antônio Franco Estadella criticava esse modus operandi. Para ele, o jornalismo esportivo e o esporte perdiam sua essência, tornando-se apenas produtos consumíveis.

“Por um lado, o esporte, continuando assim, corre o risco de se transformar eventualmente em mais um artigo de consumo; por outro, poderá se transformar num simples negócio. A partir do momento em que pode ser uma profissão, o esporte subordina-se à necessidade de dar dinheiro e, na medida em que se subordina a esta possibilidade, orienta-se no sentido do que mais agrada às pessoas, o que nem sempre é o mais esportivo, moral ou limpo”, diz o autor.

Como não traduzia perfeitamente esses anseios de um personagem ideal, Neymar passou a ter frequentemente sua vida pessoal confrontando ou anulando a esportiva. A “régua” para medir suas atuações, até então muito destacadas, era ampliada pelas polêmicas além dos gramados nas quais ele se envolvia. A habilidade, a técnica e a astúcia eram virtudes colocadas em xeque por adjetivos que não eram inerentes ao processo. Quando o fracasso – tão comum ao meio esportivo – batia à porta, as críticas eram ainda mais severas, sempre carregadas de opiniões que, no fundo, traziam intrínsecas a decepção pelo arquétipo ideal ao qual ele não encarnou.

É claro que Neymar chegou a esse patamar através de seu talento destoante. Foi sua técnica e habilidade que deram parte de tal status. Porém, os meios de comunicação também o elevaram a um degrau mais elevado, condicionando o público a tê-lo em prateleiras em que o atleta não é somente uma personalidade pelo o que pode oferecer, mas pelo o que representa.

Ainda que muitas críticas devem ser feitas ao atleta – e também ao comportamento seu e de seus pares – os meios de comunicação deveriam enxergar seu papel no processo. A cobertura massiva e destacada faz, sim, dele um produto do meio, e o meio não sabe ainda como tratá-lo. Apenas reproduz mais e mais, sem muitos critérios, o que aparece do jogador, como se fosse uma hiena faminta em busca do alimento.

O resultado, como veem, impacta em todas as pontas, trazendo um jogador sobrecarregado midiaticamente e, também, uma mídia faminta em busca de audiência, sem se preocupar com a relevância. E esse fenômeno tende a piorar conforme os fracassos irem surgindo – e virão, como aparecem para todos.

Que haja parcimônia nos meios de comunicação e ao próprio atleta. Pois, como disse Renê Simões lá em 2010, quando viu o craque do Santos discutir com seu então treinador, Dorival Júnior, “estamos criando um monstro”.