13.1

À caça dos elefantes – Joanesburgo/Port Elisabeth

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

Durante a fase de grupos, acompanhamos as deslocações da selecção portuguesa. Contamos uma pequena história por dia para dar ideia de como estamos a viver o nosso Mundial.

12 de Junho – A metrópole fantasma

Os nigerianos estão eufóricos. Pequenos grupos vestidos de verde-alface pululam em redor do Ellis Park, no centro de Joanesburgo. Uns levam um caixão com as cores da Argentina, outros galinhas vivas totalmente pintadas de verde e outros ainda usam máscaras tradicionais. Há muitos feitiços rogados à equipa de Maradona antes do Argentina-Nigéria. Os bilhetes estão à venda no mercado negro a 100 dólares (80 euros) mas não os podemos comprar. Assistimos à partida num pub às portas do estádio, onde uns vinte sul-africanos brancos vestidos com pólos verdes e amarelos assistem a um desafio de râguebi. Às 16h, o televisor sintoniza-se em Ellis Park e Diego Maradona, treinador da Argentina, aparece na imagem vestido de fato e gravata. Que frustração estar a uma distância tão curta de Deus e só poder vê-lo no monitor! Assim que se muda a transmissão, a clientela do bar muda radicalmente – os brancos de pólo abandonam o bar e chegam pretos igualmente robustos equipados com a camisola garrida das Super Eagles nigerianas. Apesar de termos a Argentina como nossa selecção estrangeira predilecta, vibramos com as defesas impossíveis de Vincent Enyeama, guarda-redes nigeriano, que nega sucessivamente o sucesso de Lionel Messi. E, mesmo quando Heinze marca o golo solitário que dá a vitória à Argentina, dirigimos palavras de conforto aos adeptos nigerianos. É altamente recomendado não dirigir a palavra a nigerianos. Os nigerianos são os africanos mais odiados em África e, particularmente, na África do Sul. Mas a nossa feliz passagem por Lagos deu-nos margem de manobra para percebermos que o preconceito é, como todos os preconceitos, injustificado. É verdade que há células criminosas organizadas por nigerianos a funcionar pelo Mundo inteiro mas os que estão a ver o jogo connosco são só mais uns adeptos apaixonados por futebol. Acontece que os nigerianos, os congoleses e os senegaleses tomaram conta do antigo maior centro económico da África do Sul, do coração de Joanesburgo, instalando os seus pequenos negócios no que eram há anos atrás as sedes das mais abastadas empresas do país.

No final do jogo, apercebemo-nos do fenómeno. O centro da City, assinalado pela imponência dos 223 metros da torre de Carlton Center, está deserto. Papéis bailam no ar ao sabor do vento, vagabundos aquecem as mãos em fogueiras feitas no passeio, vultos passam incógnitos por baixo das ténues luzes do candeeiro. Há quem diga que caminhar nesta zona à noite é firmar por livre vontade a certidão de óbito. Não há movimento nem vivalma. Só almas ignoradas. Esta Joanesburgo parece uma cidade tirada de um daqueles filmes de ficção científica em que a Terra foi invadida por alienígenas e toda a gente fugiu num disco voador paras outro planeta, deixando nas ruas uma sub-espécie marginal que só pode sobreviver recorrendo ao roubo e à pilhagem. Resistem os arranha-céus com os seus traços rectilíneos e o brilho das luzes reflectido nas fachadas de espelho e aço, uma arquitectura vertical e imponente que foi concebida para mostrar o poder financeiro da fluorescente África do Sul. Hoje é uma fachada. Uma fachada para aquela que é a verdadeira linha arquitectónica de Joanesburgo – a arquitectura do medo.

Apavorados pelo aumento substancial do crime no centro da cidade, os moradores brancos mudaram as suas casas e as suas empresas para os subúrbios, principalmente para o norte da cidade. Os Jo’burg Highjackers, uma espécie de “okupas”, instalaram-se nos espaços deixados pelos brancos. Estes vivem hoje em autênticas fortalezas, protegidas com vedações eléctricas, arame farpado, alarmes sofisticados e cães assassinos. Não se trata de paranóia. Joanesburgo é uma das zonas mais perigosas do mundo fora de cenários de guerra. Estima-se que existam 5000 homicídios por ano. O número duplica quando se trata de violações. Segundo um relatório do Instituto de Estudos de Segurança, o crime violento duplicou nos últimos 11 anos. 50 pessoas são assaltadas por dia. A cada 24h, 150 mulheres são violadas. Alguns governantes do Congresso Nacional Africano, partido do poder, dizem que as alegações de que Joanesburgo está em estado de sítio são racistas. Porém, a esmagadora maioria dos crimes acontecem nas townships, os bairros de lata habitados por negros. Com o Mundial a aproximar-se, as forças de segurança prenderam alguns dos homens mais perigosos da cidade deixando as prisões lotadas. Mas mesmo quando se varre a sala fica sempre algum cotão debaixo do sofá e os assaltantes que sobraram já fizeram das suas, atacando e roubando equipas de jornalistas e, inclusive, o hotel da selecção da Grécia. A segurança na capital económica do país foi meticulosamente preparada. Na casa em que estamos a viver, no sul da cidade, a caixa de correio foi invadida por notas informativas divulgadas pela polícia. Um deles recomendava precaução na realização de churrascos nos quintais das vivendas pois o relaxamento e a abundância de álcool poderia ser um chamariz aos criminosos.

Os ecrãs gigantes montados para a emissão dos jogos mostram bem a tendência migratória de Joanesburgo. O que foi instalado no centro da urbe, na Praça Mary Fitzgerald, está às moscas minutos antes do Inglaterra-EUA. Os fãs do Mundial foram para onde se mudou a cidade, Sandton, a 20km do velho coração da cidade, hoje local onde prosperam as sedes das maiores seguradoras, bancos e escritórios de advogados. Sandton é o sítio do momento em Jo’burg. É aqui, num grande parque relvado virado para a estátua de Nelson Mandela, que assistimos ao desafio entre as duas potências anglófonas. Conseguimos estacionar na zona VIP mesmo sem ter convite nem acreditação. A polícia sul-africana, imbuída de uma enorme vontade de bem acolher, facilita a vida dos visitantes, permitindo o acesso a zonas restritas e a circulação em estradas cortadas. As ordens são simples: não complicar. No parque de estacionamento, a claque do Brasil ensaia os cânticos para a estreia: “Eu vim para te ver, eu vim para te apoiar, não há melhor no Mundo que o nosso Kaká”. A plateia está dividida e o jogo acaba com um empate, com um “frango” monumental de Green, guarda-redes inglês. Só há uma figura que une o público feminino, David Beckham, que quando aparece no ecrã gigante vestido de fato e gravata acciona um grito agudo e estridente. Mas nem esse som histérico nem o zumbido constante das vuvuzelas chega à downtown, onde fantasmas alienados da ocorrência do Mundial, continuam a tentar sobreviver e a resistir ao frio, esperando efemeramente a chegada dum disco voador que os leve dali para fora.

13 de Junho – Um dia de compras

Hoje é domingo, dia da família. Os nossos anfitriões, os meus primos José e Cândida e a sua filha Raquel, convidam-nos para um passeio por Joanesburgo. Começamos por uma volta pela zona sul, onde reside a maioria da comunidade portuguesa. Os primeiros emigrantes que aqui chegaram em meados do século XX instalaram-se na zona de Larochelle e viviam essencialmente do comércio tradicional. Uma boa fatia destes emigrantes eram agricultores madeirenses que aqui instalaram negócios de venda de legumes e produtos alimentares. Ainda hoje, o comércio representa 50% da actividade da comunidade lusa na África do Sul. Contudo, existem já portugueses de segunda e terceira geração a trabalhar como médicos, grandes empresários, advogados e mesmo deputados. Os portugueses encaixaram-se num meio trepidante da sociedade sul-africana. A sua deslocação era apoiada pelo governo do apartheid mas não lhes eram dadas as mesmas regalias oferecidas aos restantes brancos de descendência holandesa e inglesa. As suas habilitações académicas e profissionais também eram, nesta altura, bastante mais limitadas. Assim, instalaram os seus negócios nos bairros mais pobres, tornando algumas zonas anteriormente exclusivamente habitadas por uma população negra em áreas mistas. Contudo, apenas uma minoria se imiscuiu na comunidade africana. Este foi o principal motivo da onda de criminalidade que assolou os comerciantes portugueses. Depois da mudança de regime e do aumento do crime, os portugueses, instalados em zonas perigosas e avessos a gastar dinheiro em barreiras de segurança, foram presas fáceis para o assalto e para o homicídio. Chegaram a morrer 50 portugueses num só ano. Foram tomadas medidas de prevenção e, no último ano, esse número ficou reduzido a três baixas.

De seguida, vamos até ao Sales Center, o posto de venda de bilhetes para o Mundial. À porta, vendem-se às claras bilhetes para o Holanda-Dinamarca, o jogo de amanhã em Joanesburgo. A polícia e os voluntários da organização fazem vista grossa ao negócio clandestino de entradas. Um dos candongueiros tem uma resma de bilhetes na mão e vende-os a 80 euros. Há muita gente a fazer fortunas com estas transacções. Infelizmente, não temos nem um bilhete e o Holanda-Dinamarca não nos interessa pois partimos amanhã bem cedo para Port Elisabeth, onde Portugal se vai estrear na competição contra a Costa do Marfim. No interior do edifício, há uma longa fila para a aquisição das entradas que restam. Pena que já não sejam muitas. E que as que existam sejam para jogos sem grande interesse, como o Eslováquia-Nova Zelândia ou o Suíça-Honduras. Estudamos bem o calendário e optamos por comprar o ingresso para o primeiro jogo dos oitavos-de-final, entre o primeiro classificado do grupo A e o segundo do grupo B. Só restam lugares de categoria 2 que custam 105 dólares A estratégia é perspicaz. Se o destino ditar um encontro entre a África do Sul, equipa da casa, e a Argentina, a equipa treinada por Deus, assistiremos ao desafio. Mas se os resultados ditarem um confronte entre, por exemplo, o Uruguai e a Grécia ou a Coreia do Sul, tentaremos vendê-los à porta do estádio de Port Elisabeth. Enquanto estamos na fila, assistimos na televisão ao golo vitorioso da Eslovénia frente à Argélia – mais um “frango” monumental do guardião. Parece que as trajectória alucinante da Jabulani, a bola deste Mundial, voltou a fazer das suas.

Somos depois levados até ao Monte Casino, um dos centros comerciais de elite da cidade. O edifício é muito original. Reproduz as muralhas de uma cidade medieval siciliana e a réplica está tão bem montada que pergunto em que século foram construídos os alicerces da obra e quando foi restaurado. “Tem meia dúzia de anos”, responde o meu primo. As lojas foram montadas em casas típicas com varandins decorados com flores coloridas e o tecto do shopping simula o céu em várias alturas do dia. Nem faltam os velhinhos Fiat 500 e as Piaggio enferrujadas. O espaço conta, entre outras coisas, com um enorme casino, sala de teatro e um ecrã gigante que emite os jogos do Mundial. A clientela é quase exclusivamente branca e leva ao ombros os cachecóis das selecções que apoia no Mundial. No casino, luzes psicadélicas e sons hipnóticos inspiram uma cadeia da sorte – homens que procuram fortunas e prostitutas finas que procuram a fortuna dos homens. Não resistimos a tentar a sorte. Jogamos vinte rands (2 euros). Perdemos tudo. Aqui passeia-se uma Joanesburgo selecta, mulheres altas e loiras com pose de modelos e homens de carteira recheada. Uma África muito diferente da que vimos durante cinco meses.

Finalmente, em casa, imbuído pelas surpresas que têm acontecido no Mundial, aposto numa surpresa da Austrália frente à Alemanha. O meu primo Zé aposta na goleada. 4-0 para a Mannschaft. Não é o meu dia de sorte.

14 de Junho – Port Elisabeth…aqui vamos nós

Um ajuntamento de camaroneses numa estação de serviço às portas de Bloemfontein leva-nos a encostar. O motivo do aglomerado – Roger Milla teve que ir à casa de banho. Está agora rodeado por compatriotas que o puxam e abraçam para tirar uma fotografia ou para assinar uma camisola. Ainda tentamos desesperadamente aproximarmo-nos para cumprimentá-lo mas o craque não nos reconheceu. É compreensível. Afinal, quantas entrevistas a equipas de jornalistas estrangeiras terá dado nos últimos meses? A selecção dos Camarões defronta dentro de pouco mais de duas horas a sua congénere japonesa em Bloemfontein, a capital do Free State. É neste ponto dos 895km que temos que percorrer que nos encontramos. No país dos boers. Esta região no centro geográfico do país foi uma república independente controlada por fazendeiros descendentes de holandeses, os boers, na última metade do século XIX e mantém hoje as suas fronteiras originais. Nas suas planícies douradas, salpicadas por pequenos montes que parecem almofadas de feno, 30 mil fazendas produzem 70% dos cereais do país. É o celeiro da África do Sul. A cultura e a língua boer, o afrikaans, domina a região a tal ponto que não conseguimos sintonizar um relato do jogo em inglês.

Na estação de serviço, conhecemos ainda três portugueses residentes em Moçambique que têm bilhetes para vender para o Portugal-Costa do Marfim. Determinados em não ficar à porta, reservamos os ingressos. Mas estes não são os únicos portugueses que se cruzam connosco na estrada. Vários carros com a bandeira das quinas desfraldada ultrapassam-nos e buzinam em sinal de reconhecimento patriótico. Não contávamos era com o aparecimento de uma cara conhecida. Mas ela apareceu. Estávamos encostados na berma para trocarmos de condutor quando o Suzuki vermelho de Bruno Fonseca, o nosso amigo fotógrafo de Luanda que entrou connosco na África do Sul, parou ao nosso lado: “Então, estão perdidos?”. Mais uma vez, galgamos quilómetros juntos, entramos na província de Eastern Cape e só paramos para comer mais alguma coisa numa estação de serviço, onde um boer  alcoólico, com um visual semelhante ao do Pai Natal, me pede uns trocos para um whisky. Quando lhe pergunto donde vem, responde-me: “From nowhere” (“De lado nenhum). Manifestação de desenraízamento ou mera bebedeira?

Nova estação de serviço, agora no ponto de chegada, em Port Elisabeth, doze horas depois do arranque. Um carro da polícia escolta-nos até ao hotel Formula 1, uma rede de hotéis de baixo custo espalhada pela África do Sul (50 euros. A escolta não significa que Port Elisabeth seja uma cidade perigosa. Não. Muito pelo contrário. PE é conhecida como a “cidade amigável” pelo seu baixo índice de criminalidade e pelo ambiente acolhedor. Está plantada à beira-mar e, apesar de ser uma das maiores cidades do país, é um dos principais destinos de férias dos sul-africanos. Escoltaram-nos porque estávamos completamente perdidos. Arrecadado o material e estacionado o jipe, partimos ao encontro da grande família de adeptos portugueses. Encontramo-nos os caravanistas que, como nós, desceram África para assistir ao Mundia, Fred e António, que desceram crescer o bigode para apoiar a selecção e toda a artilharia da imprensa portuguesa. Juntos, agitamos pela primeira vez os cachecóis e as bandeiras, pintando a cidade de verde e vermelho. “OOOOO, Portugal, allez, Portugal, allez….”. O grande jogo é já amanhã.