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A camisa de Tostão

José Costa Júnior

Nas diversas comemorações dos 50 anos da conquista do tricampeonato mundial pelo Brasil na Copa do Mundo de 1970, uma cena é recorrente: ao final do jogo contra a Itália, que nos deu o título, Tostão é agarrado por torcedores, que lhe tomam a camisa, as meias e quase levam o calção. Essa comemoração da vitória no México faz parte do imaginário popular dos brasileiros, que sempre rememoram aquela mítica seleção como um dos melhores times de futebol já formados. Num momento de opressão política e social no país, governado por uma ditadura militar, e num mundo dividido por sistemas e “cortinas de ferro”, onde espaços geográficos e ideológicos eram conquistados palmo a palmo, muitos ainda levantam questões sobre o papel da seleção brasileira naquelas circunstâncias. No entanto, o caráter mítico da equipe e da Copa se sobrepõe: os grandes lances e jogadas, os gols feitos e os não feitos, os craques quase sobrenaturais, as cores do estádios, dos jogadores e das camisas, tudo lembra espetáculo e alegria. Ao final, torcedores de nacionalidade indefinida invadem e abraçam os jogadores, levam os uniformes como lembrança daquele momento mágico e congregam da conquista definitiva da Taça Jules Rimet (e temporária, já que seria roubada).

Em termos históricos, a seleção brasileira começou jogando de camisas brancas em 1914, que logo são abolidas após a derrota na final da Copa de 1950. No lugar, surge a camisa amarela, que irá se tornar um símbolo do Brasil pelo mundo e o reconhecimento do caráter diferenciado do futebol brasileiro. Conforme o antropólogo Roberto DaMatta aponta em O que faz o Brasil, Brasil?, “cada sociedade (e cada ser humano) se utiliza de um número limitado de coisas (e de experiências) para construir-se como algo único, maravilhoso, divino e legal.” É o caso da camisa da seleção brasileira: simboliza algo em que somos únicos, constituindo uma parte de nossa identidade como país e como povo, apara além de distinções de classe, religião, raça e gênero. Assim, a camisa amarela da seleção brasileira da Copa de 1970 é uma representação daquele momento único, no qual o mundo nos reconhece como uma grande nação, alegre, diversa e competente. Se o futebol foi criado para europeus, é aqui que ele encontra quem o melhor o pratica, com alegria e sofisticação. E, diferente dos frios e civilizados uniformes europeus, a nossa “Amarelinha” se distingue pelo intensidade da cor, o que amplia a potência do símbolo.

Tostão e Pelé. Fonte: CBF

Numa análise sobre as origens e a difusão do nacionalismo, o historiador irlandês Benedict Anderson (1983) defende que os traços que dão unidade para os agrupamentos humanos envolvem construções imaginativas que aproximam e que envolvem as pessoas. Trata-se do que Anderson identificou como “comunidades imaginadas”. No caso brasileiro, após a proliferação do futebol no país e dos sucessivos títulos com boas apresentações pelo mundo afora, a seleção brasileira passa a ser um elemento que contribui para a identidade nacional, configurando um símbolo de nossa “comunidade imaginada”. Aquele time nos representa, com nossas cores, nossas dificuldades e nossa história. Esse laço que nos une fica mais intenso a cada quatro anos quando acontece a Copa do Mundo, na qual sempre estamos presentes (ao menos até aqui). Uma memória comum dos brasileiros também envolve a preparação das ruas e das casas para os jogos do Brasil, num ritual que contribui também para o reforço dos laços comunitários em torno do futebol. Seja através do rádio ou da televisão, os jogos da seleção serviram como um meio de aproximação e envolvimento pouco disponível em outras práticas.

A crença comum de que um time e uma camisa nos representam e nos impactam é curiosa. Nos importamos com a seleção brasileira e alteramos nossos cotidianos em função dela. Compreender esse processo envolve uma análise de fundo sobre os modos como criamos e compartilhamos crenças comuns. No caso de símbolos, construímos uma “realidade intersubjetiva”, para utilizar os termos do historiador israelense Yuval Noah Harari, na qual acreditamos. Sobre a seleção brasileira, compartilhamos a crença de que nosso país é representado por um time de futebol com uma determinada camisa e que merece nossa mais distinta atenção (mesmo que não conheça nenhum dos 11 sujeitos que vistam a tal camisa). Essa realidade depende de nossas subjetividades e crenças em comum, que não alcança, por exemplo, a seleção brasileira de rugby (caso ela exista). Assim, a nossa “comunidade imaginada” depende de uma “realidade subjetiva” inventada que nos dá identidade e que nos é importante, um traço fundamental do que “faz do Brasil, Brasil”. Uma canção intitulada “Aqui é o país do futebol” escrita por Milton Nascimento e Fernando Brant nas vésperas da Copa de 1970 e  cantada por Wilson Simonal retrata bem o valor e o alcance dessa crença comum:

Brasil está vazio na tarde de domingo, né?

Olha o sambão, aqui é o país do futebol

Brasil está vazio na tarde de domingo, né?

Olha o sambão, aqui é o país do futebol

 

No fundo desse país

Ao longo das avenidas

Nos campos de terra e grama

Brasil só é futebol

Nesses noventa minutos

De emoção e alegria

Esqueço a casa e o trabalho

A vida fica lá fora

E tudo fica lá fora

Inferno fica lá fora

As dores ficam lá fora

 

Para além da satisfação e da unidade, todo símbolo também está disponível para usos e manipulações. Devido ao valor da seleção nacional de futebol para a grande maioria dos brasileiros, ela já foi utilizada como elemento de propaganda e apoio a regimes políticos e visões de mundo. No caso da ditadura que governou o Brasil entre 1964 e 1970, a seleção brasileira foi muitas vezes aproximada do regime, porém não foi a única vez que isso aconteceu. Todos os governos do país, de um modo ou de outro, buscaram essa aproximação e uma possível apropriação. No entanto, os governos passam e a seleção brasileira, como um potente símbolo nacional que é, fica. Sua estrutura administrativa, hoje realizada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também é alvo de críticas constantes devido às diversas acusações de práticas questionáveis e muitas vezes criminosas. Porém, é curioso como essa instituição parece ser menor que a seleção brasileira, mesmo que em termos institucionais a controle. Como um elemento que atravessa a cultura, a sociedade e a política do país, o time nacional parece estar além das estruturas administrativas, mesmo que seja estruturado e administrado por elas.

Há quem defenda que, nos últimos anos, a gestão do futebol brasileiro pela CBF tenha afastado a seleção do povo brasileiro. Ao acompanhar o ritmo globalizante do futebol moderno, a seleção passou a ser ocupada por jogadores pouco conhecidos por aqui, ou por jogar em campos internacionais e ser vista apenas pela televisão. Ingressos para jogos e camisas com altos preços inviabilizam ainda mais essa aproximação. Talvez os resultados das últimas Copas tenham contribuído para a diminuição da intensidade ou tenha existindo um desgaste do futebol como elemento distintivo do Brasil. Perder uma semifinal da Copa do Mundo, jogando no Brasil e por 7 a 1 é uma situação que ainda não foi digerida e cujos efeitos afetivos, sociais e políticos ainda estamos avaliando. No entanto, mesmo com essas tensões e dificuldades, não se pode negar que ainda exista um considerável grau de importância da seleção brasileira na cultura e na sociedade brasileira, o que faz com que os debates sobre a competência dos envolvidos sejam tão constantes.

Para ampliar o cenário, a camisa amarela e toda a sua simbologia tem sido apropriada por movimentações sociais e políticas conservadoras desde 2013, ano em que grandes manifestações políticas ocuparam as ruas do país. Tais manifestações, que começaram devido às insatisfações e indignações ligadas ao conturbado cenário político e social brasileiro, logo foram ocupadas por formas intensas de ressentimento moralista e de um patriotismo conservador. Nas manifestações desses grupos, a camisa do Brasil é utilizada como uma forma de mostrar a existência de um sentimento nacional, um certo “orgulho de ser brasileiro”. No entanto, essa apropriação não se efetiva por dois motivos: (i) a camisa é da seleção brasileira é “de todos e de ninguém”; a apropriação por um determinado movimento ou grupo limita seu alcance e simbologia; (ii) essa apropriação não consegue efetivar uma mudança simbólica, que envolve história e memória; os apoiadores de um determinado partido não representam nem a totalidade do povo brasileiro muito menos suas práticas se conectam com o que vivenciamos com a nossa seleção.

Conforme a rica análise do ensaísta José Miguel Wisnik, compreender a relação entre o futebol e o Brasil envolve uma interpretação dupla do futebol como “veneno-remédio” da sociedade brasileira: ao garantir uma identidade, o futebol oferece um elemento fundante de nossa subjetividade, que nos envolve e emociona, e trata-se de um “remédio”; ao nos fazer esquecer da vida, que “fica lá fora”, ou ser politicamente usado nas mais diversas circunstâncias o futebol trata-se de um “veneno”. No entanto, é o que temos e que nos faz ser o que somos, com todas as dores e delícias envolvidas nisso. Na final da Copa do Mundo de 1970, a camisa da seleção brasileira utilizada por Tostão foi tomada por aqueles que queriam levar um pouco da glória que aquele grande jogador simbolizava: campeão do mundo, com arte, beleza e técnica, representando o que somos com alegria e potência. Hoje o cenário é outro: precisamos retomar a camisa amarela daqueles que acreditam, de uma forma ressentida, violenta e autoritária, que o Brasil é só deles. Não é nem nunca foi: a camisa de Tostão e da seleção brasileira é de todos nós.

Referências

ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: Reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. (1983)

HARARI, Yuval. Sapiens: Uma breve história da humanidade. Tradução de Janaína Marcoantonio, Porto Alegre: L&PM, 2014. (20011)

WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: O futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

Como citar

COSTA JúNIOR, José. A camisa de Tostão. Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 48, 2020.