126.14

A “camisa popular” do Fortaleza e a importância desta iniciativa

Beatriz Kalil Othero Fernandes

Em novembro de 2019, o Fortaleza Esporte Clube lançou as linhas de camisas “Tradição” e “Glória”, que também estão sendo vendidas na esplanada da Arena Castelão e por comerciantes ambulantes cadastrados na central de vendas do clube.

A principal diferença do uniforme em relação a outros modelos está no preço, que é de R$ 59,90, aproximadamente R$ 140 a menos do que os comercializados em lojas do time. A confecção da camisa também é diferente, possuindo escudo e outros elementos sublimados, e não costurados – como tradicionalmente em versões mais caras.

Além disso, torcedores que já possuem uma camisa falsificada podem trocá-la pelo novo modelo, ganhando R$ 10 de desconto na compra. A fim de proporcionar uma reflexão mais palpável e de entender de maneira mais ampla a importância da ação do Fortaleza, é possível apresentar a camisa como o produto de maior desejo do torcedor e da torcedora – não só no futebol, como também em outros esportes, como basquete e vôlei.

É forte a demanda de torcedores de praticamente todas as idades por camisas de futebol (incluindo os recém nascidos, filhos de pais e mães que querem transmitir o time de futebol como herança); é o símbolo básico de identificação; pode ser utilizada em diferentes contextos sociais além do jogo no estádio; enfim, a camisa do próprio time é o produto essencial que a torcida almeja ter.

Os uniformes “Tradição” e “Glória” compõem o estoque. Foto: Leonardo Moreira/FortalezaEC.

A fabricação é realizada pela Leão 1918, marca oficial do Fortaleza, com selo próprio de camisa popular. Foto: Leonardo Moreira/FortalezaEC.

A atuação dos colecionadores também corrobora com a relevância da camisa, demonstrando que ela tem ainda mais significados e usos, do que apenas o vestuário do cotidiano. Com isso, de certa forma, bonés, casacos, bermudas, meias, camisas polo, garrafas e tantos outros artigos vendidos pelos clubes, muitas vezes, não são prioridade, quando comparados à camisa.

Dessa maneira, tendo em vista o contexto esportivo atual, onde há elitização do futebol, arenização dos estádios, repressão de diferentes formas de torcer e reafirmação da desigualdade social, a iniciativa do Fortaleza possui bastante relevância. Afinal, pode ser lida, de certa forma, como símbolo de uma tentativa de democratização do futebol, e de resistência contra ações que visam deixar o esporte mais excludente e hostil às classes de menor poder aquisitivo.

De acordo com o posicionamento divulgado pelo time cearense, a medida quer lutar contra a pirataria e se aproximar do comércio informal, um segmento importante na venda de uniformes do clube – afirmação esta, que pode ser aplicada à maioria dos times brasileiros, dado o caráter popular do futebol.

A título de comparação, o valor da camisa contempla cerca de 6% do salário mínimo pago no Brasil (R$ 998), enquanto o valor de blusas mais caras vendidas pelo Fortaleza representa em torno de 20% de tal remuneração.

Em contrapartida, é válido ressaltar que o valor de R$ 59,90 – mesmo sendo mais acessível do que as outras quantias praticadas no comércio de artigos esportivos – ainda deixa de atender algumas parcelas da população. Essas, por sua vez, em função maior de necessidade (e não escolha), têm de priorizar a moradia e o alimento próprios, e das famílias.

Portanto, depois de ações como essa do Fortaleza, a expectativa é de que mais clubes se comprometam com a ampliação do acesso dos torcedores aos artigos esportivos e ao patrimônio dos clubes – como o estádio, sinônimo de pertencimento, e a camisa, símbolo de identidade.

Como citar

FERNANDES, Beatriz Kalil Othero. A “camisa popular” do Fortaleza e a importância desta iniciativa. Ludopédio, São Paulo, v. 126, n. 14, 2019.