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A campanha #tambémvamoscom12 e a tradição americana de luta e resistência

Marcus Vinícius Costa Lage

Pela primeira vez desde 2004, quando o atual modelo de disputa do Campeonato Mineiro foi instituído, o meu América entrou em campo para disputar uma fase eliminatória do estadual contra o Atlético com algum tipo de vantagem regulamentar. Além de terminarmos a primeira fase da competição em 2º lugar, atrás apenas do Cruzeiro, ainda surfávamos a onda de otimismo e orgulho criada pelo título da Segundona conquistado no ano anterior.

Enquanto isso, nosso rival andava ruim das pernas; para os padrões deles, é claro. A 9ª colocação no Brasileirão de 2017 interrompeu uma série de cinco participações consecutivas do Atlético na Copa Libertadores da América e seu início de ano vinha sendo marcado por uma sucessão de desempenhos insatisfatórios no Mineiro e na Copa do Brasil.

Apesar de todo esse cenário favorável, nós, americanos, nunca nos enganamos quanto a isso. Mesmo com um elenco mais fechado, um esquema de jogo mais bem definido, uma sequência de bons resultados e a vantagem regulamentar no confronto, nada disso era suficiente para vencermos o Atlético ou o Cruzeiro, especialmente pelo Campeonato Mineiro.

E quando digo isso, não estou me referindo à tradição vitoriosa desses clubes na competição ou aos milhares de torcedores a mais que eles levam aos estádios. Tampouco aos qualificados e estrelados atletas que, invariavelmente, suas diretorias conseguem contratar.

Muito embora reconheça que todos esses aspectos sejam suficientes para contradizermos qualquer favoritismo de nossa parte contra Atlético e Cruzeiro, à semelhança do que relatei nesta Arquibancada sobre nosso título da Série B ano passado[1], sempre desconfiamos mesmo de que esses confrontos sejam decididos pelas forças ocultas do futebol. Forças estas que, no caso mineiro, estão ligadas afetivamente ao Galo e à Raposa, que sabem mexer muito bem seus pauzinhos nos bastidores para se favorecerem, inescrupulosamente. Pelo menos, é nisso que cremos.

Se, ano após ano, acionamos esse discursivo para justificar nossas derrotas, ou, no melhor dos casos, para enaltecer nossas surpreendentes vitórias, especialmente, contra Atlético e Cruzeiro, a edição do Campeonato Mineiro de 2018 ofereceu um prato cheio para que o revisitássemos. Tudo começou antes mesmo que as semifinais fossem jogadas, quando América e Atlético se enfrentaram ainda pela 7ª rodada da competição. Naquela ocasião, apesar da elástica vitória alvinegra por 3 a 0, o jogo foi marcado por dois lances que, aos olhos americanos, foram bastante polêmicos e capitais. O primeiro deles, aos 45 minutos do primeiro tempo: Róger Guedes do Atlético cabeceou e o goleiro americano Glauco, de dentro do gol, espalmou a bola antes que ela entrasse por completo. Com muita convicção, o auxiliar de arbitragem correu para o centro do gramado, inaugurando, equivocadamente, o placar do confronto. Já com o segundo lance teria acontecido o inverso: aos 4 minutos da etapa complementar, o atacante alviverde Marquinhos finalizou também de cabeça, mas a bola foi afastada pela defesa atleticana em dois tempos, primeiro pelo goleiro Victor e, em seguida, pelo zagueiro atleticano Gabriel, quando a bola já havia cruzado a linha do gol. Mais uma vez convictos de suas decisões, o auxiliar e o árbitro principal deixaram o jogo correr, não validando o nosso gol legítimo quando a partida estava, injustamente, 1 a 0 para eles.[2]

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Lance da partida entre Atlético e América. Foto: Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro.

Durante os dias que se seguiram, diversos americanos externaram sua indignação pelo ocorrido. Em sua conta no Twitter, o presidente Marcus Salum não mediu palavras e disse que o jogo América 0, Atlético 3 era um retrato do “velho futebol mineiro.” Na mesma linha, o blogueiro Jairo Viana confessou, em sua resenha sobre o jogo, que foi “embora [do estádio] aos 20 minutos do segundo tempo, tomado por uma revolta absurda e uma indignação tão plena por testemunhar a ressurreição das velhas roubalheiras.”[3] E se alguém mais desavisado não entendia qual era o passado a que se referiam Salum e Jairo Viana, o colunista Paulo Vilara, do jornal Estado de Minas, fazia questão de relembrá-lo, citando, em uma irônica crônica, os “famosos casos dos árbitros Joaquim Cocó e Cidinho Bola Nossa, que sempre davam um jeito de proteger o Atlético.”[4] Favorecimentos históricos que explicariam, segundo Mário César Monteiro, o nosso Marinho, um dos mais reconhecidos pesquisadores da História do América, o fato de que, “considerando o período da Era Profissional do futebol mineiro, […] o América NUNCA [sic] conseguiu ser campeão tendo em uma final o adversário Atlético e um árbitro mineiro da [Federação Mineira de Futebol –] FMF.”[5]

De modo que, à medida que avançávamos na competição e víamos “a [FMF], a Comissão de Arbitragem […] e grande parte da imprensa esportiva de Minas Gerais […] favorecer e proteger” o Atlético, não tínhamos outra reivindicação em mente que não àquela utilizada por Paulo Vilara para intitular mais uma de suas crônicas: “Queremos juiz de fora!”[6] Mas, para assombro geral, assim que os semifinalistas do Campeonato Mineiro foram decididos, a Federação Mineira, nas palavras de Jairo Viana, “revesti[u o jogo entre América e Atlético] de uma capa de infâmia e injustiça.”[7] É que, como se não bastasse indicar um árbitro local para o sorteio da arbitragem entre Coelho e Galo, a FMF designou o mesmo “soprador de apito” do confronto válido pela 7ª rodada. E quiseram os deuses do futebol que o sorteado da vez fosse justamente esse árbitro.

Depois disso, não nos restava mais nenhuma dúvida: como disseram vários americanos, dentre eles Jairo Viana, essa era a prova inconteste de que o Atlético era mesmo o “time da federação”[8]. Mas, parafraseando o blogueiro americano Walison Fernandes, mesmo “[d]iante de tanto descaso com o América, […] nos resta[va] tentar acreditar que as coisas [pudessem] ser resolvidas […] dentro das quatro linhas, sem interferência da arbitragem.” Pois, como muito bem lembrou ele, “[a]final de contas, somos a resistência!”[9]

Para confirmar a nossa crença de que temos que lutar sempre, “contra tudo e contra todos”, nesse novo confronto tivemos dois gols anulados. O primeiro deles, mais uma vez de forma equivocada. E, ainda por cima, quando a partida estava empatada em 0 a 0. Como desgraça pouca é bobagem, aos 31 minutos do segundo tempo, o atleticano Cazares marcou um gol meio esquisito, revertendo a vantagem americana para o jogo seguinte “no apito”, como fez questão de deixar registrado nosso presidente no dia seguinte.[10]

Seguindo a mesma perspectiva de Salum e como forma de mobilizar o torcedor para o decisivo confronto, a diretoria de marketing do América passou a adotar a #tambémvamoscom12 em suas redes sociais. Claramente, a campanha tinha o propósito de denunciar os erros de arbitragem a favor do adversário, como se, nos dois primeiros encontros, ele tivesse contado com a colaboração de um 12º e irregular jogador. Ao mesmo tempo, a mensagem procurava sensibilizar o torcedor americano a comparecer ao estádio e apoiar sua equipe em um momento delicado, fazendo o papel de 12º jogador, dessa maneira, igualando simbolicamente as forças.

Enquanto alfinetava a Federação e o adversário, e promovia o jogo com a #tambémvamoscom12, o América introduzia a cor vermelha em várias de suas peças gráficas, sobretudo nas redes sociais. No dia do jogo, por exemplo, uma placa de publicidade alvirrubra, justamente a que fica no centro do gramado do Independência, estampou a referida hashtag. Os jogadores, ao entrarem em campo, também ostentaram um uniforme alternativo, todo alvirrubro, confeccionado exclusivamente para o jogo.

Mas, por que a cor vermelha? Para muitos de nós, americanos, essa é uma resposta simples de ser dada, já que ela se refere a um período da história que está mais do que impregnado em nosso imaginário. Para ser bem fiel à versão mais difundida, reproduzo o texto do site oficial do clube, que explica a questão da seguinte maneira: “Inconformado com a implantação do profissionalismo, pois os americanos acreditavam que o futebol, assim como os demais esportes, deveria ser amador, o Clube passou a disputar suas partidas com a camisa vermelha, em sinal de protesto.”[11]

Nesse sentido, o que parecia ser apenas mais uma das várias reclamações que fizemos ao longo do campeonato contra a arbitragem e os gestores do futebol mineiro, ou uma simples estratégia de marketing do clube com o intuito de atrair público e atenção para o último e decisivo confronto das semifinais, na realidade, tratava-se do acionamento de um “lugar de memória”[12] altamente significativo para nossa comunidade afetiva. Um “lugar de memória” que, em grande medida, representa o marco inaugural da luta e resistência americanas. Um dos vários “lugares de memória” americanos que pretendo explorar melhor em minhas próximas contribuições neste espaço.

Quanto ao resultado desse último jogo? Ah, isso é só um detalhe. Melhor deixar pra lá.

Dá-lhe Coelho!


[1] Ver texto de minha autoria intitulado “Coelhão campeão brasileiro de 2017: contra tudo e contra todos!” Disponível em: <goo.gl/bei3Gy>.

[2] O GE selecionou os lances polêmicos da partida e imprimiu neles recursos gráficos para auxiliar as análises dos comentaristas esportivos. As imagens podem ser vistas na matéria: “Presidente do América-MG dispara após erros no clássico: ‘Velho futebol mineiro'”. GloboEsporte.com, 18 fev. 2018. Disponível em: <goo.gl/UsFn5W>.

[3] VIANA, Jairo. Rádio-Polícia. Decadentes, 19 fev. 2018. Disponível em: <goo.gl/zB5byP>.

[4] VILARA, Paulo. Um bandeirinha fora de série. Superesportes, 23 fev. 2018. Disponível em: <goo.gl/vVV4aV>. Para uma breve história sobre esses dois árbitros, ver: LIMA, Jairo Anatólio. Os times do coração. In.: Estádio Independência. Belo Horizonte: Conceito, 2003, p. 68-70. (BH: a cidade de cada um).

[5] MONTEIRO, Mário César. A gota versus Oceano. Decadentes, 27 fev. 2017. Disponível em: <goo.gl/ATgF33>.

[6] VILARA, Paulo. Queremos juiz de fora! Superesportes, 16 mar. 2018. Disponível em: <goo.gl/eCnxPY>.

[7] VIANA, Jaio. Canção do exílio. Decadentes, 21 mar. 2018. Disponível em: <goo.gl/72ePWo>.

[8] VIANA, Jaio. Canção do exílio. Decadentes, 21 mar. 2018. Disponível em: <goo.gl/72ePWo>.

[9] FERNANDES, Walison. Foi Muito Feio (FMF). Decadentes, 20 mar. 2018. Disponível em: <goo.gl/GL2gbG>.

[10] Ver trechos da entrevista coletiva de Marcus Salum em: No dia seguinte à nova polêmica, Salum protesta na FMF: “Nossa luta é antiga”. GloboEsporte.com, 23 mar. 2018. Disponível em: <goo.gl/mCm3MR>.

[11] Disponível em: <goo.gl/jxeHgh>.

[12] Cf. NORA, Pierre. Entre memória e história. A problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, dez. 1993.