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A cena patética de um gol ao último minuto

Danilo Barcelos

Levar um gol no último minuto pode parecer patético. Se um goleiro leva esse gol depois de estar com a bola presa contra o peito e, por uma razão qualquer do destino, ela escapa, a derrota é ainda mais vergonhosa. Se o caso estiver ligado a uma final de campeonato, isso pode prejudicar muito mais a mente do goleiro e será o assunto dos torcedores por semanas. Esse é o tema do conto “No último minuto”, de Sérgio Sant’Anna, do livro Notas a Manfredo Rangel, repórter (a respeito de Kramer), publicado pela primeira vez em 1973.

Sérgio Sant’Anna, escritor carioca, comemora neste 2019 cinquenta anos da publicação de seu primeiro livro, O sobrevivente, reunião de contos publicada pela primeira vez em 1969, marcando a estreia do autor na literatura brasileira. O autor é conhecido pelo apurado olhar para a sociedade da segunda metade do século XX, lançando luzes para cenas do cotidiano que colocam a todos nós em situações múltiplas de sensações, expondo nossas violências diárias, das nossas vivências, dentre elas o futebol.

No conto “No último minuto”, o time do goleiro jogava pelo empate e o jogo estava em 1×1. Até o momento em que, na afobação do fim do jogo, nesse último minuto, uma bola é perdida por um jogador que não consegue dominar bem. Em seguida, em contra-ataque, o meia do time adversário chuta a bola em profundidade para ver o que acontece e os jogadores acreditam na jogada. Num bate-rebate, chutam a bola ao gol e o goleiro defende.

É um chute rasteiro, um centro chocho, e eu grito: “Deixa”. Eu fechei o ângulo direitinho e caio na bola. Eu sinto a bola nos meus braços e no peito. E sei que a torcida vai gritar e aplaudir, desabafando o nervosismo, naquele último ataque do jogo. Eu tenho a bola segura com firmeza contra o peito e, de repente, sinto aquele vazio no corpo. Eu estou agarrando o ar. A bola escapando e penetrando bem de mansinho no gol. A bola não chega nem a alcançar a rede; ela fica paradinha ali, depois da linha fatal. E eu pulo desesperadamente nela, puxando a bola lá de dentro. Mas é tarde demais, todo mundo já viu que foi gol. O estádio explode e é como se minha cabeça estourasse. Eu vejo e ouço aquilo tudo: o time deles se abraçando, a zoeira da multidão, os foguetes e o nosso time que parte para cima do juiz, numa tentativa inútil de anular o gol. Eu ouço e vejo aquilo, mas é como se tudo estivesse muito longe de mim, sem nenhuma relação com isso. (SANT’ANNA, 1997, p. 73).

O conto repete a cena acima sete vezes, sob sete perspectivas diferentes, como se elas fossem vistas em canais de tevê e em câmera lenta nos mesmos canais. Ao mesmo tempo que o goleiro revê na tevê (com exceção da primeira, em que ele descreve a cena como está acima, no ato do jogo), no lance e no seu comentário em câmera lenta das reações de rever o lance, o sofrimento do goleiro aumenta e a dor do momento de falhar, perder uma bola que estava segura no corpo para um gol estranho e inadmissível é o mote central da narrativa.

A narrativa, então, não é sobre o jogo completo, ou mesmo o campeonato todo. Fica centrada no último minuto, na falha do goleiro-narrador que nos conta o que se passa e das impressões que tem do momento. A cada um dos movimentos de câmera por onde ele revê o jogo – porque ele muda o olhar narrativo com a mudança dos canais de tevê e da visão em câmera lenta –, ele vê um outro elemento de cena que agrava a dor de falhar. Mais importante, então, para o autor, é essa dor que aumenta a cada instante que o goleiro revê a cena, trocando de canal e vendo lentamente a falha que fez com que seu time perdesse a final do campeonato. Como ele diz no primeiro fragmento, enquanto a bola estava em seus braços e o jogo seguia empatado, eles eram os campeões do Brasil.

A cena e suas repetições formam uma narrativa sobre a dor, mas não uma cena patética. Patético aqui não é entendido como no senso comum, em que a palavra evoca o sentido de “cena ridícula, humilhante”. Mas sim em seu conceito grego. A palavra grega pathos, de onde vem as palavras “paixão” e “patético” significa “sofrimento”. Um sofrimento que nos levará a uma mudança moral. O pathos é o sentimento básico dos textos trágicos, o elemento central em que o dramaturgo explora como esse sofrer pode levar as personagens a uma mudança moral.

A esse respeito, o pensador alemão Friedrich Shiller, em seu livro Objetos trágicos, objetos estéticos, explica-nos que há nesse sofrimento, quando posto em cena nos textos poéticos da tragédia, um tipo de comoção que nos leva ao deleite. Para Schiller, tanto o sublime quanto o trágico produzem nos espectadores e nos receptores um tipo específico de deleite. O sublime pela sua relação com a beleza e com o estado de prazer que ela nos proporciona. No trágico, no sofrimento desse pathos ali literarizado e tal deleite se dá na relação com o fim ao qual ele está ligado, o que depende da quantidade de fins e de danos a que o sofrimento do texto pode levar (SCHILLER, 2018, p. 25).

Frango: “bola facilmente defensável que o goleiro deixa entrar no gol” (Houaiss). Foto: Reprodução/TV Mirante.

Para que a força do pathos faça com que uma obra seja patética é preciso que a personagem que sofre a dor possa, por meio da razão, superar essa dor e então pôr-se a cima dela. Isso porque as dores têm sempre origem na natureza e nunca cessarão, cabendo ao humano, por meio da razão, sempre superá-las. A valorização da razão sobre a dor é o que faz com que a tragédia grega não seja sobre as dores, mas sobre como usar a razão para suportá-las. Isso faz do herói trágico um herói patético, sempre um ser acima do suporte da dor.

Porém, se o personagem não consegue superar sua dor pessoal com o uso da razão e permanece preso somente à dor, não se efetiva aí a força patética do trágico. Como nos diz Schiller, “o sofrimento em si mesmo nunca é patético” (SCHILLER, 2018, p. 79).

Diferente de uma cena trágica tradicional, o que Sérgio Sant’Anna proporciona nesse conto são os vários olhares sobre essa dor. O fim da partida, essa reviravolta que leva um time campeão à derrota por uma falha impensável para o goleiro. O autor dá destaque, dessa forma, ao momento de dor e o amplia, passo a passo, nessa curta narrativa. O que deixa a cena num sentido duplo: risível por nos depararmos com a obsessão do goleiro-narrador em rever a cena e de deleite, nosso deleite, de vê-lo rever a cena. Isso porque “o gênero poético que nos proporciona o prazer moral em grau privilegiado tem de, justamente por isso, servir-se das sensações mistas e nos deleitar por meio da dor” (SCHILLER, 2018, p. 27).

Se pensarmos, a partir dessa leitura, que como nos diz Schiller, não é possível ser patético se estamos ligados a dor, nessa dor do goleiro – como a dor de levar um gol no último minuto – não há nada de patética. Para o goleiro-narrador do conto, ficar preso a dor não o enobrece, não o faz usar a razão. Faz com que ele se humilhe, martirize-se e busque culpados para o fim da partida, para a derrota do campeonato.

O conto nos permite discutir, também, o poder que rever a cena tem em nos causar a dor. E no caso particular do futebol, esse deleite-sofrer preenche a semana das pessoas, elemento explorado aqui pela literatura, mas cotidianamente vivido por todos nós no Brasil. Não há campeonato de futebol em que as emissoras de televisão não se embasem nessa lógica do sofrer e do deleite que Sérgio Sant’Anna destaca em seu conto. O rever o gol sofrido em múltiplos canais de tevê, em câmera lenta, com comentaristas, é a dinâmica da imprensa com o futebol. A ridicularização de um frango no último minuto – que é a razão do sofrer do goleiro – acaba por se tornar a razão do riso do adversário.

Há sempre, então, em alguma medida, uma relação de deleite no futebol: seja o deleite na dor adversária da derrota como o deleite na vitória do jogo. Essa dor tira o indivíduo jogador da cena. Quando as emissoras e os canais de imprensa destacam uma cena dessas, o foco do deleite – seja da dor ou seja da alegria – é o torcedor. Sérgo Sant’Anna coloca o jogador no centro da cena e nos faz algumas perguntas: o que passa um jogador quando algo do tipo acontece? Como lidar com o fracasso pessoal de não conseguir cumprir sua função?

Além disso, o conto evidencia, em alguma medida, essa dinâmica contingencial do futebol: até aquele instante em que o goleiro tem a bola nos braços, em que ele está abraçado a ela, o seu time é o campeão do campeonato. E basta um instante seguinte para que a derrota e a vergonha, a dor, por fim, materializem-se no personagem e uma explosão de alegria, contrastada a essa dor exploda no estádio ao redor do goleiro que permanece no chão, observando tudo e se sentindo profundamente distante disso, incapaz de se tornar patético no sentido grego do termo. Incapaz de superar a dor por meio da razão. Ao invés disso, o goleiro põe a razão em analisar quem são os reais culpados pelo gol que ele sofre, quem são os que deveriam ter evitado o gol antes dele: o meio de campo que perde o domínio da bola, o zagueiro que não consegue marcar o adversário que acredita no chute em profundidade. Diferente de um herói patético, o goleiro mergulha na dor buscando outros responsáveis porque sabe que na tevê, nas emissoras e nos canais de imprensa, ele será o culpado da derrota, para o deleite dos torcedores.

Assim, o conto de Sérgio Sant’Anna  inverte os olhares. No centro das câmeras e dos olhares dos leitores está o goleiro, seu sentimento e o revisitar essa dor da derrota, de buscar alento para a sua falha. O autor inverte a lógica das nossas semanas nas transmissões do futebol. É também preciso olhar para os atores em cena, na contingência constante do espetáculo e pensar nas suas dores.

Referências bibliográficas

SANT’ANNA, Sérgio. “No último minuto”, In: Contos e novelas reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 72-77.

SCHILLER, Friedrich. Objetos trágicos, objetos estéticos. Trad. Vladimir Vieira. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.