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A cerimônia do adeus: “a nação traída” (I parte)

José Paulo Florenzano

Logo após a conquista do tricampeonato, no México, começaram a surgir informações esparsas a respeito da decisão de Pelé de não atuar mais pela Seleção Brasileira. À época, em meio à euforia provocada pela conquista definitiva da taça Jules Rimet, elas não despertaram muita atenção. Todavia, em meados do ano seguinte, à medida que se aproximavam as partidas amistosas contra a Áustria, no Morumbi, e a Iugoslávia, no Maracanã, as notícias voltaram a circular com mais intensidade, causando apreensão na Rua da Alfândega e no Planalto Central. Embora Zagalo procurasse minimizar o problema, assegurando aos jornalistas que iria “colocar outra peça na equipe”[1]; para a peça de propaganda na qual o regime civil-militar havia convertido o selecionado brasileiro, a ausência de Pelé constituía uma perda irreparável. Nesse sentido, personalidades públicas especialmente designadas pelo governo federal entraram em campo a fim de demovê-lo da decisão, fazê-lo voltar atrás e levá-lo a vestir por mais alguns anos a camisa verde-amarela. Mas para espanto de quem o imaginava sempre dócil e suscetível às pressões do poder, ele se manteve irredutível, sem ceder a nenhum dos argumentos e apelos que lhe eram apresentados. Face à inesperada resistência demonstrada pelo atleta, o jeito, para os homens do general-presidente, foi endurecer o jogo, conforme deixava entrever a reportagem de O Estado de S. Paulo:

Pelé ficou surpreso e ameaçou um sorriso quando soube que alguns setores do governo consideram a sua saída da seleção um ato de indisciplina esportiva.[2]

Desse modo, por razões políticas, o atleta-modelo do regime civil-militar se convertia em jogador indisciplinado, recusando-se a acatar uma ordem hierárquica. Ele se encontrava na cidade de Bragança Paulista, interior do Estado, para a gravação do filme “A Marcha”, na qual interpretava a personagem de Chico Bondade, escravo alforriado que pretendia liderar o protesto das senzalas às vésperas da Abolição[3]. Entre uma cena e outra, no intervalo das filmagens, Pelé foi informado pelos jornalistas acerca do estado da decisão das autoridades federais de mantê-lo no cativeiro simbólico no qual se achava confinado. “No início”, recebendo a notícia com estupefação, o jogador relutava em acreditar “que isto fosse possível”[4]. A incredulidade se explica e compreende. De fato, desde o início Pelé se prestara a colaborar e a servir em todas as campanhas de propaganda política, associando sua imagem institucional à do regime autoritário. Mas, de repente, em consequência de uma resolução que acreditava lhe pertencer de forma exclusiva, as mesmas pessoas que o haviam ungido à condição de herói nacional acusavam-no agora de cometer um ato de indisciplina esportiva, rapidamente equiparado a um ato de deserção militar, pois, conforme a observação perspicaz da antropóloga Simoni Lahud Guedes, no Brasil, os “jogadores são ´convocados` para a seleção brasileira de futebol tal como os jovens são ´convocados` para o serviço militar obrigatório e os soldados para a guerra”.[5] Ao tomar de empréstimo uma categoria do universo militar, a esfera do futebol estabelecia, implicitamente, a equivalência das situações envolvendo o soldado e o jogador. Não se concedia a nenhum dos dois o direito de recusar ou discutir uma ordem superior, cabendo-lhes tão somente cumpri-la sem questionamento.

Nesse sentido, atender ao chamamento da Seleção e proceder ao alistamento no Exército, implicava o mesmo gesto patriótico de servir a nação, de defendê-la nos diversos terrenos de combate onde ela se apresentava. Vista sob esse prisma, a escolha de Pelé traduzia uma falta irremissível. Aos olhos do governo federal, de parte do jornalismo esportivo e de determinados segmentos da opinião torcedora, ele se afigurava um traidor da pátria, um desertor dos campos de batalha. Pelé, porém, não se deixava intimidar pelas ameaças emanadas tanto do Palácio do Planalto quanto da Rua da Alfândega, como se depreende do telefonema do jogador ao diretor de futebol da CBD, Antônio do Passo: “Todo mundo sabe que vou me despedir agora e não recuarei”[6]. O sorriso afável através do qual nos habituamos a reconhecer Pelé, tomando-o como índice de subserviência e docilidade, subitamente desaparecia, deixando entrever um traço de personalidade insuspeitada. De fato, menos de um ano após a lua de mel proporcionada pela conquista do tricampeonato, o atleta-modelo e o regime civil-militar entravam em rota de colisão, expondo publicamente a contenda que os separava e opunha de modo aparentemente insuperável, pois, enquanto o primeiro manifestava abertamente a vontade inquebrantável de perseverar em sua resolução; o segundo traçava várias linhas de ação para enredá-lo e persuadi-lo a anuir com as razões de Estado.

Com a coroa na mão, o “Rei do Futebol” acena para o público paulista em sua primeira despedida da seleção brasileira, no Estádio do Morumbi. Foto: CBF.

A principal medida, nesse sentido, coube ao ministério da Educação e Cultura, à frente do qual se encontrava o coronel Jarbas Passarinho, cuja nota, inaugurando o embate político-esportivo, anunciava a deliberação oficial de suspender as homenagens previstas para as partidas amistosas do Morumbi e do Maracanã. Ela informava à opinião pública que o titular da pasta ministerial sentia, “pesaroso”, a decisão unilateral do atleta, tomada “por motivos particulares”, quando no fundo “ainda teria condições de honrar, como sempre o fez, a camisa tricampeã do Mundo”[7]. Eis aí o ponto chave enfatizado pelo texto. Pelé ainda reunia plenas condições físicas e técnicas para servir ao país por pelo menos mais um quadriênio. Esta percepção, longe de se restringir às autoridades governamentais, mostrava-se amplamente compartilhada pela massa torcedora, pelos jornalistas esportivos e pelos atletas profissionais. Não obstante, como reconhecia Tostão: “não podemos exigir dele o último suor”, porque, acrescentava o atacante do Cruzeiro, Pelé “já deu demais ao futebol brasileiro”[8]. Não o suficiente, porém, para o regime civil-militar que agora o pressionava de todos os lados para lhe extrair o último suor, conforme desvelava o comunicado do MEC:

Como a solicitação de Pelé para que seja dispensado das futuras convocações do selecionado brasileiro não representa o seu adeus ao futebol, o ministro Jarbas Passarinho [enfatizava o texto] decidiu que a manifestação de apreço a lhe ser dada fique adiada para quando, na verdade, ele se despedir do futebol.[9]

Sob o pretexto de que o atleta continuava vinculado ao Santos e, portanto, prosseguia com a carreira profissional, o MEC dissolvia a comissão constituída no âmbito do aludido ministério para cuidar da efeméride. A nota oficial, distribuída à imprensa na quarta-feira, dia 7 de julho, não conseguia disfarçar a contrariedade diante da decisão de Pelé, considerando “lamentável” não poder vê-lo no torneio comemorativo do Sesquicentenário da Independência[10]. Concebido com a dupla finalidade de proporcionar dividendos políticos ao governo federal e de alavancar a candidatura do presidente da CBD, João Havelange, à presidência da FIFA, o referido torneio, também denominado de Mini Copa, recebia um duro revés com a ausência daquele que era então considerado o melhor futebolista em ação no mundo, capaz de atrair os holofotes para uma competição que se achava às voltas com sérias dificuldades, decorrentes, sobretudo, das anunciadas ausências da Alemanha, da Itália e da Inglaterra[11]. Embora contatadas com antecedência, elas declinaram o convite para atuar no palco montado com o propósito de promover os interesses conjuntos da CBD e da ditadura militar, cujos dirigentes não perdoavam ao atleta o fato de haver contribuído para retirar ao evento esportivo o que lhe restava de prestígio após o boicote velado dos principais selecionados europeus. Como represália, adveio a deliberação conjunta de cancelar as homenagens da cerimônia do adeus. Pelé, por sua vez, acautelava-se, evitando entrar em dividida com as autoridades, declarando aos repórteres que não havia “motivo para que ele ficasse magoado, só porque as homenagens que estavam programadas” tinham sido “adiadas”[12]. O episódio, no entanto, desvelava não apenas o mal-estar instalado no País do Futebol, como, ademais, embutia um risco para o qual o editorial de O Estado de S. Paulo chamava a atenção, criticando a ação estabanada do Planalto Central:

O inábil e irritado recuo do governo, cancelando as homenagens oficiais na despedida de Pelé da Seleção Brasileira imprimiu um colorido político a um episódio que deveria esgotar-se no plano esportivo, e criou para o esquema publicitário governamental uma situação que não pode deixar de ser reconhecida como altamente desconfortável.[13] 

Ao receber os campeões do mundo de 1970, o general-presidente Emílio Garrastazu Médici aponta para Pelé em pose para os fotógrafos. Foto: Reprodução.

A figura de Pelé se nos apresenta invariavelmente emoldurada pelo governo Médici, destacada sobre o pano de fundo constituído pelos Anos de Chumbo, embalada pelo ritmo musical da marcha: “Pra Frente Brasil”. De tão estreito o vínculo entre a personagem e o regime, não notamos a existência de nenhuma rasura no quadro, qualquer tensão interna, sequer uma simples fissura, prevalecendo, ao invés disso, a perene sensação de harmonia, de convergência e de afinidade que os unia e enlaçava em todos os planos. Conforme recordava o editorial supracitado, a “circunstância de Pelé jamais ter assumido posições políticas, realizando-se no plano esportivo, facilitou o seu envolvimento pelo sistema, a sua constante utilização em campanhas patrióticas”[14]. E estas, por sua vez, reiteravam no imaginário social a associação do jogador com o governo, a suposta identidade de interesses que selava uma aliança a princípio tida como inabalável. Talvez por essa razão, os estudos da área de futebol tenham negligenciado o jogo de forças instalado na cerimônia do adeus. Convém, no entanto, resgatá-la do esquecimento a fim de atribuir-lhe a importância política de que ela se reveste, enfocando a personagem central do drama sob uma nova perspectiva analítica, descortinada pelo ensaio do antropólogo Luiz Henrique de Toledo acerca dos “mil corpos” do Rei[15]. Com efeito, trata-se de almejar uma imagem mais complexa e multifacetada, distante, em todo caso, do retrato unívoco esboçado por uma narrativa difusa a respeito do jogador. Aliás, de imediato, impõe-se o registro da ironia que envolve o episódio em tela. O atleta de futebol mais identificado com o sistema repressivo foi, também, o que teve com ele um dos enfrentamentos mais duros, com direito a ameaças, críticas e represálias, formuladas com o propósito deliberado de jogar contra ele a opinião pública e, por essa via, forçá-lo a voltar ao selecionado nacional.

Preocupado com os possíveis desdobramentos do caso, O Estado de S. Paulo indicava a necessidade urgente de “superar o clima de hostilidade” criado por uma “miúda intriga” orquestrada nos bastidores da política esportiva pelo presidente da CBD, João Havelange, engajado no projeto pessoal de ascender ao comando da FIFA. Face aos interesses contrariados pela decisão irredutível do atleta, o dirigente partiu para o ataque, dizendo que, se assim desejasse, “poderia acabar de uma vez com a carreira de Pelé”[16]. Em entrevista concedida na sexta-feira, 9 de julho, véspera do amistoso contra a Áustria, João Havelange esmiuçou a questão, explicando aos repórteres que o decreto-lei 5.199 lhe outorgava o direito de “requisitar qualquer jogador” para o selecionado nacional. Se este não atendesse ao chamado, sujeitava-se a “ser suspenso e sofrer outras punições legais, dentro da legislação”[17]. Na imprensa de Santos, o jornalista De Vaney subscrevia a ameaça, evocando as sanções previstas no artigo 121 do Código Disciplinar do Conselho Nacional de Desportos para o atleta que se negasse a “atender a convocação”[18]. Difícil avaliarmos, em retrospecto, o quão perto de adotar esta medida extrema estiveram as autoridades militares e esportivas. De qualquer modo, a declaração de João Havelange permite-nos inferir que ela foi aventada, oferecendo-se como uma tentação no momento em que as soluções de força constituíam a regra, com os direitos políticos suprimidos e os direitos civis violados. Todavia, sopesando os prós e contras, prevalecera o receio da repercussão que o eventual enquadramento coercitivo provocaria no plano nacional e internacional. Uma vez descartada esta linha de ação, não restava alternativa senão o recurso desesperado às retaliações envolvendo os festejos do adeus, como desvelava a reportagem de O Estado de S. Paulo:

Afinal, está tudo decidido. Pelé sai da Seleção Brasileira sem festa, sem homenagens, incompreendido, criticado até.[19]     

Foi em meio a esta atmosfera de hostilidade por parte do poder central que Pelé entrou em campo no domingo, 11 de julho, contra a Áustria, diante de uma plateia no Morumbi estimada em cerca de cem mil espectadores. Salvo uma ou outra ausência, era praticamente o mesmo time do tricampeonato. Aos trinta e três minutos do primeiro tempo, concluindo o cruzamento desfechado na ponta direita por Zequinha, Pelé abriu o marcador, festejando o gol com o soco no ar, gesto que se lhe tornara a marca registrada nas comemorações. Na etapa complementar a esquadra austríaca ainda chegou ao empate, assinalado logo aos seis minutos de jogo por Iara, mas o essencial havia se passado no intervalo, quando o assim denominado Rei do Futebol realizou a volta olímpica, acompanhado pelos repórteres de campo, seguido de perto pelos policiais encarregados da segurança, os quais lhe rogavam para correr mais devagar porque “não estavam aguentando” o ritmo, empreendido sob os aplausos do público cujo coro de “Pelé, Pelé, Pelé” ecoava pelo estádio[20]. A etapa paulista do adeus estava encerrada. Ele não voltou para o segundo tempo. “Como festa” – reconheceu a revista Placar – “as cerimônias não foram lá essas coisas”[21]. Houve alguns discursos improvisados, a entrega de uma medalha de honra ao mérito, um relógio de ouro presenteado pela FPF e um “obrigado, Negão”, por parte do jornalismo esportivo[22].

No domingo seguinte, 18 de julho, Pelé realizou a segunda e definitiva despedida do selecionado nacional, desta feita no Maracanã, no amistoso contra a Iugoslávia. Mais uma vez, o público torcedor acorreu em grande número, calculado agora em cento e cinquenta mil pessoas. Como da vez anterior, o jogador atuou somente os quarenta e cinco minutos iniciais da partida. No tempo que lhe restava Pelé procurou de todas as formas, qual “uma fera solta em campo”, o derradeiro gol com o uniforme canarinho[23]. Mas em vão. O primeiro tempo chegou ao fim sem a abertura de contagem e já não havia tempo para mais nada, a não ser concluir o drama nacional em que se convertera a despedido do jogador, perfazendo o ritual da volta olímpica, embalado pela “Valsa do Adeus” que irrompia dos alto-falantes do Maracanã, enquanto a multidão, de pé, nas gerais e arquibancadas, agitando lenços brancos, procurava demovê-lo da resolução de não mais vestir a camisa verde e amarela, dirigindo-lhe um derradeiro apelo: “Fica, fica, fica”[24].

E Pelé disse, não!

O Estado de S. Paulo, porém, reconhecia-lhe o direito de encerrar a carreira na Seleção Brasileira e saía em sua defesa contra os críticos mais exaltados, evocando a “harmonia profunda” existente “entre o jogador e o homem”, exemplo de conduta dentro e fora de campo, modelo ideal tanto no que concernia à atividade profissional quanto no que dizia respeito à vida privada. “Inteligente, modesto, disciplinado”, Pelé se constituía na própria “imagem das virtudes da nacionalidade”. Corroborando esta avaliação, o coronel Jarbas Passarinho, em artigo escrito especialmente para o referido jornal, tecia elogios “ao homem que soube ser humilde”[25]. Daí inclusive o espanto oficial com a recusa obstinada do atleta, a qual não se coadunava com a representação dominante erigida ao longo de uma trajetória de catorze anos por intermédio de colunas, crônicas e reportagens diárias e incessantes.

A representação de Pelé como a figura arquetípica da humildade do nosso futebol encerrava certa dubiedade, embutia uma armadilha semântica. De um lado, ela denotava a atitude despojada diante dos interlocutores na crônica esportiva, o trato afável com os fãs e admiradores, bem como o relacionamento sem estrelismo com os companheiros de profissão. De outro lado, porém, ela subentendia docilidade à classe dirigente, respeito à hierarquia racial, subserviência ao regime civil-militar. Intensificando esta ambiguidade, jogando com ela, O Estado de S. Paulo criticava a manipulação do atleta pelo governo federal, e denunciava as intrigas da CBD para enredá-lo na teia dos interesses da entidade; ao mesmo tempo em que endossava os atributos comumente associados à personagem, reforçando a imagem de submissão cristalizada ao longo do tempo. Graças às contradições acima apontadas o jornal paulista sentia-se à vontade para assinalar, com pompa e circunstância, no espaço nobre do editorial, a “identificação do atleta com a Nação e da Nação com o atleta”[26].     

E, no entanto, no exato momento em que se postulava o elo, ele começava a se desfazer. Se o governo federal havia contribuído de modo significativo para estabelecê-lo, explorando-o em benefício próprio, agora agia em sentido contrário, concorrendo para perturbar uma identificação que parecia acima de quaisquer dúvidas ou questionamentos. Já no início do ano de 1972 as autoridades voltavam à carga, transformando o retorno de Pelé à Seleção Brasileira em uma obsessão política, como se a continuidade do sistema de dominação dependesse e estivesse à mercê dos caprichos de um jogador de futebol. A retomada do jogo de pressões ocorreu na quarta-feira, 5 de janeiro, quando Garrastazu Médici recebeu em audiência especial no Palácio do Planalto a diretoria do Santos, acompanhada da presença de Pelé. O encontro objetivava discutir uma possível saída para a grave crise financeira que atingia a agremiação praiana, mergulhada em dívidas por causa da compra do Parque Balneário, mas a reconsideração do atleta para voltar ao selecionado nacional não estava excluída da pauta. Ambas as partes, no entanto, sairiam frustrados da reunião. A direção do clube porque obteve somente promessas vagas de um improvável socorro material; o presidente da República porque Pelé negaria “o último e mais importante apelo”, feito por Garrastazu Médici na condição de “torcedor”[27]. Foi o primeiro encontro entre os dois, desde o instante em que o jogador anunciara a decisão de abandonar a camisa verde e amarela. Segundo O Estado de S. Paulo, o general-presidente vinha acompanhando o caso de perto, porquanto se abstivesse de se pronunciar publicamente sobre a polêmica[28]. Isto não significa que não tenha agido nos bastidores, que a resolução do MEC de cancelar todas as homenagens previstas para a cerimônia do adeus não tivesse contado com o aval do ditador, cuja imagem, no entanto, se achava tão estreitamente ligada à do atleta.

De fato, atribuía-se a Pelé papel relevante nos esforços de propaganda política para fixar a representação do Brasil como uma ilha de tranquilidade em contraste com a sociedade norte-americana, convulsionada pelos conflitos entre negros e brancos. Nesse sentido, na mensagem veiculada à nação por ocasião do ano novo, em cadeia de rádio e televisão, Garrastazu Médici realçava a “harmonia entre as raças” no país[29]. Pouco depois, numa carta enviada ao secretário-geral da ONU, o embaixador brasileiro nas Nações Unidas, Sérgio Armando Frazão, classificava o Brasil como um “bom exemplo de integração e harmonia raciais”.[30] O ápice destas afirmações ufanistas dar-se-ia nos festejos do Sesquicentenário da Independência, momento privilegiado no qual o mito da nacionalidade percorria e animava todos os discursos, proferidos em gabinetes oficiais, praças públicas ou nos textos jornalísticos, como, por exemplo, o do editorial de O Estado de S. Paulo:

A fraternidade inter-racial nasceu no Brasil com a nação, é uma herança da nossa formação histórica.[31]

A identificação entre Pelé e o Brasil, expressão da verdade que o discurso de poder acima enunciado pretendia afirmar, tinha como pressuposto necessário o fato de o jogador abdicar da identidade negra, de não a reivindicar perante os demais setores da sociedade nacional, reiterando a existência do país mestiço[32]. Todavia, à medida que Pelé migrava da esfera do futebol para o campo empresarial, a identificação postulada pelas celebrações oficiais e midiáticas sofria um inesperado abalo. Isto ocorria porque ele deixava uma atividade vista como própria aos negros, deslocando-se para uma área de atividade considerada, a priori, reservada aos brancos. Conferindo primazia à figura do empresário em detrimento da profissão de atleta, adotando uma postura mais autônoma face aos interesses patrióticos em nome dos quais se pronunciavam os militares, os jornalistas e os torcedores, Pelé se posicionava fora da ordem prescrita pela democracia racial. Eis o paradoxo. A personagem designada para representar, no teatro da nação, a convivência harmônica entre negros e brancos, colocava-se em movimento, descortinando o quadro da mitologia nacional sob um prisma inesperado.

A maior parte da crônica esportiva, convém salientarmos, entendia e aceitava as razões enumeradas pelo jogador para não trajar mais a camisa verde e amarela[33]. Havia, porém, aqueles que interpretavam a decisão, ao mesmo tempo, como uma traição à nação brasileira e uma transgressão à ordem racial, cometida, eis o ponto chave, por um negro que abandonara inadvertidamente o espaço social que lhe era designado, desafiando, dessa maneira, o código tradicional de comportamento instituído no campo das relações raciais[34]. O atrevimento reclamava uma lição exemplar e ela seria ministrada justamente pelo jornalista praiano que havia se dedicado ao longo dos anos a erigir a mitologia da camisa dez do Santos.


Notas

[1] Cf. “A seleção está começando a viver sem Pelé”, O Estado de S. Paulo, 3 de julho de 1971.

[2] Cf. “Pelé mantém decisão e explica as suas razões”, O Estado de S. Paulo, 7 de julho de 1971.

[3] O filme foi lançado em julho de 1972 com direção de Osvaldo Sampaio. Tratava-se de uma adaptação do livro de Afonso Schmidt, “A Marcha – Romance da Abolição”, publicado em 1942.

[4] Cf. “Pelé mantém decisão e explica as suas razões”, O Estado de S. Paulo, 7 de julho de 1971. Cf. “Pelé denuncia pressões e ameaça abandonar o futebol”, Jornal do Brasil, 9 de julho de 1971.

[5] Guedes, Simoni Lahud (2006) Os europeus do futebol brasileiro ou como a “pátria de chuteiras” enfrenta a ameaça do mercado. In: Nações em campo: Copa do Mundo e identidade nacional. Édison Gastaldo e Simoni Lahud Guedes (organizadores). Niterói, Rio de Janeiro, Intertexto, p.82.

[6] Cf. “França terá Pelé em 1972”, O Estado de S. Paulo, 8 de julho de 1971.

[7] Cf. “Governo deixa a festa para quando Pelé parar”, O Estado de S. Paulo, 8 de julho de 1971.

[8] Cf. “Tostão vai disposto a lutar contra a mística”, O Estado de S. Paulo, 1 de julho de 1971.

[9] Cf. “Governo deixa a festa para quando Pelé parar”, O Estado de S. Paulo, 8 de julho de 1971.

[10] Cf. “Governo deixa a festa para quando Pelé parar”, O Estado de S. Paulo, 8 de julho de 1971.

[11] Almeida, Adjovanes Thadeu Silva de (2013). O regime militar em festa. Rio de Janeiro, Apicuri, p.162.

[12] Cf. “O que restou da festa”, O Estado de S. Paulo, 9 de julho de 1971.

[13] Cf. “Episódio esportivo passa a ser político”, O Estado de S. Paulo, 10 de julho de 1971.

[14] Cf. “Episódio esportivo passa a ser político”, O Estado de S. Paulo, 10 de julho de 1971.

[15] Toledo, Luiz Henrique de (2004) Pelé: os mil corpos de um rei. Júlio Garganta, José Oliveira & Maurício Murad (organizadores). Futebol de muitas cores e sabores. Reflexões em torno do desporto mais popular do mundo. Universidade do Porto, Campo das Letras, pp.147-166, Porto, Portugal.

[16] Cf. “CBD ameaça, mas não pune Pelé”, O Estado de S. Paulo, 10 de julho de 1971.

[17] Cf. “CBD ameaça, mas não pune Pelé”, O Estado de S. Paulo, 10 de julho de 1971.

[18] De acordo com o jornalista, a atitude de Pelé se enquadrava no artigo 121 do Código Disciplinar do CND: “Sofrerá multa de dois mil e vinte cruzeiros todo o atleta profissional que não atenda às requisições de federações ou Confederação para concentração, exames médicos, treinos, jogos e demais exigências relativas à seleções. Além da multa em dinheiro, o atleta profissional que se negar a atender à convocação ficará suspenso (sem poder atuar pelo seu clube) durante o tempo em que durar a sua negativa, ou, mais do que isso, por um período cuja extensão será determinada pelo CND”. Cf. “Cidade no Esporte”, coluna: De Vaney, Cidade de Santos, 2 de abril de 1971.

[19] Cf. “Torcida dará a resposta”, O Estado de S. Paulo, 10 de julho de 1971.

[20] Cf. “Pelé elogia a torcida e só espera não chorar”, O Estado de S. Paulo, 15 de julho de 1971.

[21] Cf. “Adeus é bola na rede”, revista Placar, nº 70, 16 de julho de 1971.

[22] Cf. “Um relógio, por 3 Copas, 109 jogos e 94 gols”, O Estado de S. Paulo, 11 de julho de 1971 e “Adeus é bola na rede”, revista Placar, nº 70, 16 de julho de 1971.

[23] Cf. “O espetáculo do adeus”, revista Placar, nº 71, 23 de julho de 1971.

[24] Cf. “O espetáculo do adeus”, revista Placar, nº 71, 23 de julho de 1971.

[25] Cf. “O homem à altura do ídolo”, O Estado de S. Paulo, 18 de julho de 1971. No mesmo artigo, Jarbas Passarinho ressaltava “a importância do exemplo de Pelé para a juventude. Quem de nós não admira a sua noção exata de valor da família e o respeito que tem para com seus pais simples”.

[26] Cf. “Pelé”, O Estado de S. Paulo, 13 de julho de 1971.

[27] Cf. “Pelé não aceita apelo do torcedor Médici”, O Estado de S. Paulo, 6 de janeiro de 1972.

[28] Cf. “Brasil silencia, Iugoslávia dá comenda a Pelé”, O Estado de S. Paulo, 10 de julho de 1971.

[29] Cf. “País está preparado para a incompreensão”, O Estado de S. Paulo, 1 de janeiro de 1972.

[30] Cf. “Racismo: dados são do MEC”, O Estado de S. Paulo, 27 de maio de 1972.

[31] Cf. “150 anos de Independência”, O Estado de S. Paulo, 7 de setembro de 1972.

[32] Munanga, Kabengele (1999). Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis, RJ, Vozes.

[33] Ver, por exemplo, “Jogador quer parar, mas até despedida é difícil”, Oldemário Touguinhó, Jornal do Brasil, 8 de julho de 1971.

[34] Bastide, Roger; Fernandes, Florestan (2008). Brancos e negros em São Paulo. São Paulo. 4 ed. Global.


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