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A cerimônia do adeus: a rebeldia de Pelé (III parte)

José Paulo Florenzano

A campanha épica na Copa do México não havia apagado da memória de Pelé a traumática eliminação na Copa da Inglaterra. Ela continuava viva o suficiente para demovê-lo de toda e qualquer veleidade de participar de mais uma competição na Europa. Àquela altura da carreira, tratava-se para ele de explorar comercialmente a projeção obtida nos gramados, os títulos conquistados nas competições. Não lhe interessava disputar a Copa da Alemanha, em 1974, e correr o risco de ver dilapidado o capital simbólico a duras penas acumulado nos campos de batalha[1]. Conforme suas próprias palavras, “não tenho mais nada a ganhar”, mas, em compensação, tinha muito a perder com um eventual insucesso[2]. O interesse pessoal do ícone global, no entanto, colidia com o projeto político do regime civil-militar.

A cerimônia de posse do presidente da República, Ernesto Geisel, na sexta-feira, 15 de março de 1974, parecia indicar a existência de um armistício. Durante a troca de comando em Brasília, a imprensa registrara o último abraço de Médici em Pelé. Estampada nos jornais do dia seguinte, a foto transmitia a impressão de que, apesar de tudo, os laços de amizade haviam sobrevivido às declarações públicas, às notas oficiais e a intensa troca de missivas envolvendo o MEC, a CBD e o REI[3]. Mas, conforme o ditado popular, as aparências enganam.

Antes mesmo de completar um mês o novo governo escalava os ministros Ney Braga, da Educação e Cultura, e Arnaldo Prieto, do Trabalho, para articularem uma nova ofensiva sobre Pelé. De acordo com o noticiário de O Estado de S. Paulo, o “último apelo” ocorreria em “nível governamental, com grandes possibilidades de êxito”[4]. O próprio jornal que se alinhara ao lado do atleta desde o início do embate, no já distante ano de 1971, concedendo-lhe espaço para expressar a posição discordante e a defendendo em sucessivos editoriais, parecia pôr em dúvida a resistência de Pelé e insinuava a hipótese de que ele, afinal, “aceitaria” o novo apelo. O cerco arquitetado pelo Palácio do Planalto incluía ainda a colaboração de Modesto Roma, dirigente do Santos, o qual sugeria a elaboração de uma nova carta, mas desta feita contendo a assinatura dos vinte e cinco atletas do selecionado nacional, encimadas pela do presidente da República[5].

Nos vestiários da Vila Belmiro, na quarta-feira, 10 de abril, Pelé escancarava o jogo de pressões que o envolvia, desabafando com os repórteres encarregados de cobrir o cotidiano do alvinegro praiano: Vou repetir mais uma vez que não voltarei, mesmo que o governo me faça um apelo”. E ponderava sobre a adoção de uma eventual medida de força:

Se o presidente Geisel pedir, eu direi “não”, a menos que haja uma intimação governamental. Aí, então, será um caso para ser bem pensado.[6]

A intimação oficial jamais lhe foi endereçada. No lugar dela, as autoridades políticas, esportivas e militares levaram a cabo o plano arquitetado nos bastidores a fim de persuadir o jogador. A investida final, com efeito, dar-se-ia na terça-feira, 16 de abril, em uma reunião em Brasília agendada na residência do ministro do Trabalho, Arnaldo Pietro. Além do anfitrião, foram convocadas as seguintes personagens: o ministro da Educação e Cultura, Ney Braga; o secretário de imprensa da presidência da República, Humberto Esmeraldo Barreto; o deputado federal pela Arena, e ex-presidente do Santos, Athiê Jorge Cury; e a filha do general-presidente, Amália Lucy. Também esteve presente o procurador do atleta, José Fornos Rodrigues[7]. A princípio, Pelé cumpria em Brasília uma agenda voltada aos interesses da categoria profissional que ele de certa forma representava e defendia.

As reuniões realizadas com Ney Braga e Arnaldo Prieto tinham por objetivo a regulamentação do exercício da atividade profissional e o reexame dos critérios adotados para a concessão de aposentaria aos futebolistas. Mas no almoço promovido na casa do ministro do Trabalho também constava do cardápio o último apelo, servido ao ilustre convidado em nome da massa torcedora, do elenco nacional e do novo presidente da República. Sem dúvida alguma, um prato indigesto que a força-tarefa montada pelo governo federal pretendia impor-lhe goela abaixo. Entretanto, conforme a edição do dia seguinte de O Estado de S. Paulo, Pelé mais uma vez disse “não”[8].

Após quase três anos de ameaças veladas, retaliações abertas, manobras e ardis para jogá-lo contra a opinião pública, a contenda chegava ao fim com a derrota incontestável do Palácio do Planalto e da Rua da Alfândega. Perante a resistência tenaz do jogador, o jornalista da Cidade de Santos, De Vaney, sem esconder a perplexidade suscitada pelo gesto, reconhecia a contragosto: “Aos vários recordes” que Pelé possuía em sua carreira, somava-se agora o de ser “o primeiro atleta brasileiro que se nega a fazer parte de um selecionado nacional”[9]. Com efeito, a “rebeldia” do jogador, como o eminente jornalista lhe classificava o comportamento, merece figurar com destaque na história política do futebol brasileiro, tal como delineada por Joel Rufino dos Santos[10].

Embora motivada pela defesa intransigente de um projeto pessoal, a rebeldia de Pelé o situava, ao menos por uma vez, no campo oposto ao dos interesses alimentados pelo regime civil-militar. Isto, obviamente, não significava a existência de ruptura entre os dois lados, tampouco implicava a saída do atleta da órbita de influência do estado autoritário. Mas não devemos subestimar o impacto daquela recusa nas relações envolvendo o atleta e a ditadura. Aos poucos, os abalos foram se propagando pelo conjunto da sociedade, levando diversos setores a reverem a posição assumida diante da contenda. Pois, assim como Pelé não estava isolado, contando com a solidariedade aberta e o apoio explícito de vários órgãos de imprensa, notadamente de O Estado de S. Paulo, o inverso também era verdadeiro, isto é, o Planalto Central empunhava uma bandeira com a qual se identificava boa parte da massa torcedora e setores importantes da crônica esportiva. Assim, por exemplo, na seção reservada aos leitores, o Jornal do Brasil publicava uma carta na qual o epistolário recordava os “poderes” conferidos por lei à CBD para “requisitar” aos clubes os atletas selecionados, indagando “por que” não os exercia em relação a Pelé[11]. Em Goiânia, por sua vez, um advogado impetrava um mandado de segurança com o objetivo de “obrigar a CBD e o MEC a convocarem Pelé para a Seleção Brasileira”[12]. Por fim, uma pesquisa realizada no Rio de Janeiro aferia que mais de 30% dos torcedores reprovavam a resolução do jogador, enquanto quase 10% concordavam com a medida de força das autoridades para obrigá-lo a atuar na Copa do Mundo[13].

O consenso estabelecido ao redor da figura de Pelé começava a esboroar. Um episódio, em particular, verificado durante a Copa da Alemanha reforçaria as impressões negativas criadas em torno do jogador que o país havia se habituado a celebrar e com a qual se achava identificado. Por dois fugazes minutos, suficientes, porém, para cristalizar a reviravolta na imagem pública do jogador, ele entraria em campo para desempenhar um novo papel, inaceitável, porém, da perspectiva dos formadores de opinião:

Desta vez, o uniforme de Pelé é bem diferente. Em seu peito, um escudo que não é o da CBD, mas da Pepsi-Cola.[14]

Um ano antes do início da competição, Pelé havia firmado contrato de publicidade com a Pepsi-Cola[15]. A reação da imprensa brasileira, de maneira geral, foi a mais retrógrada possível. Inconformada com a troca do brasão da brasilidade pela logomarca do refrigerante, ela criticava o atleta com veemência e sarcasmo, publicando matérias e charges não isentas de conotações raciais. A revista Veja, por exemplo, lamentava vê-lo “transformado em caixeiro-viajante de uma bebida” estrangeira[16]. Uma série de charges, do cartunista J. C. Lobo, publicadas na Cidade de Santos, conferia cores vivas a esta personagem derrisória, convocada a servir de suporte à mensagem subliminar endereçada ao negro fora de lugar. Às vésperas da competição, a primeira charge trazia a pergunta de uma jornalista branca: “Rei, ainda pensa na Seleção? ” Seguida da resposta do jogador negro: “Penso sim…Penso na Seleção dos melhores contratos publicitários que me ofereceram…”[17].

Charge de J. C. Lôbo sobre Pelé. Foto: Reprodução/Cidade de Santos, 7 maio 1974.

Uma vez fixada a imagem de mercenário, o passo subsequente consistia em chamar a atenção do leitor para a chave explicativa do comportamento considerado venal. De fato, na nova investida do cartunista, Pelé aparece na arquibancada de um estádio da Copa, na condição de um mascate de bermuda e boné, anunciando aos espectadores no estádio de futebol: “Olha a Pepsi! Tá geladinha! ”[18]

Charge de J. C. Lôbo sobre Pelé. Foto: Reprodução/Cidade de Santos, 11 jun. 1974.

O assim denominado Rei do Futebol, fora do campo de atividade que a sociedade lhe atribuía como exclusivo, voltava a ser apenas o “Negrinho de Bauru”. A caricatura de Pelé, com efeito, evocava o ponto de partida da trajetória do jogador, quando, simples menino, engraxava sapatos no interior de São Paulo. A última charge promovia de forma bem-sucedida a síntese entre o “negrinho” e o mercenário. Veiculada logo após o Mundial, ela mostrava Pelé mais uma vez travestido de vendedor ambulante, sentado sobre a caixa de refrigerantes da Pepsi, do lado de fora do estádio, o dinheiro saindo pelos bolsos, regozijando-se: “Legal! Está Copa até que rendeu bem…”[19]

Charge de J. C. Lôbo sobre Pelé. Foto: Reprodução/Cidade de Santos, 11 jul. 1974.

Enquanto, porém, parte da imprensa esportiva lhe reprovava a resolução de abandonar o selecionado nacional, expondo-o à opinião pública na condição de traidor da pátria; Pelé viajava ao Líbano para inaugurar uma fábrica da Pepsi-Cola, localizada no subúrbio de Beirute. Ali, questionado pela enésima vez sobre a polêmica decisão que, presumia-se, causar tanto desapontamento à torcida brasileira, ele respondia às críticas através de um exercício de reflexão acurada, enunciando uma das frases mais belas e profundas acerca da incerta condição de atleta de futebol:

É preferível partir quando todos querem que permaneçamos, do que permanecer quando todos insistem para que partamos.[20]

O sistema de dominação racial insistia para que Pelé permanecesse no lugar que lhe convinha como negro. Criticado por não corresponder às expectativas normativas instituídas no quadro de um imaginário social que combinava nacionalismo extremo e racismo velado, Pelé, em contrapartida, recebia farpas por não assumir abertamente a luta antirracista levada a cabo pelas organizações do movimento negro. Voltemos à festa de abertura da Copa da Alemanha a fim de projetar luz sobre esta segunda linha de ataque. As dezesseis equipes classificadas para a competição foram representadas por grupos folclóricos que desfilaram no Waldstadion, de Frankfurt, proporcionando um espetáculo “diferente” das edições anteriores. A apresentação do Brasil foi aclamada desde o instante em que, sob o ritmo do samba, os espectadores viram surgir “as mulatas de dentro da meia-bola-preta-e-branca que se abria em gomos”[21]. Uma vez encerrado o desfile de todas as delegações, o Rei do Futebol, de terno e sapatos brancos, ingressava no gramado cercado das moças e rapazes do grupo Brasil Tropical para concluir a cerimônia de abertura. Sendo assim, à luz do espetáculo dos estereótipos, compreende-se o comentário de Abdias do Nascimento, formulado em Lagos, por ocasião do Congresso de Escritores Africanos, em 1977:

Vários delegados vieram me manifestar haver sido aquela a primeira vez que eles ouviram a voz de um afro-brasileiro retratando o Brasil diferente daquele país de mulatas, pelés e carnaval das versões oficiais espalhadas pelo mundo – até mesmo pelo mundo africano – como atração turística.[22]

As críticas à Pelé, assim, partiam de todas as vertentes ideológicas. Fosse por se prestar à representação caricata do país do samba, do futebol e da democracia racial; fosse por se constituir no protótipo do alienado político, ou, ainda, por se recusar a servir a pátria de chuteiras, ele se via, à esquerda e à direita, e do ponto de vista do movimento negro, cada vez mais questionado. Mesmo nas camadas populares apareciam fissuras provocadas pelo sentimento de frustração com os resultados colhidos pelo selecionado nacional dentro de campo. A rigor, ainda antes da eliminação no torneio, ouviam-se “comentários” pelas “ruas de Santos” de que, na hipótese de o Brasil cair diante da Holanda, a casa de Pelé pudesse ser “apedrejada por torcedores inconformados com a sua ausência”[23].

A campanha para lançar a opinião pública contra o atleta demonstrava, afinal, ter surtido efeito, não a tempo de obrigá-lo a vestir a camisa verde e amarela, mas de expô-lo como bode expiatório da derrota. No legislativo municipal de Salvador, vereadores imbuídos do dever para com a pátria de chuteiras, acusavam-no de ter incorrido no crime de abjuração. Os mais exaltados propunham ao governador do estado, o oligarca local, Antônio Carlos Magalhães, a retirada da estátua do atleta construída em 1971 diante da Fonte Nova[24]. Conforme alegava Arquimedes Pedreira Franco, político do Movimento Democrático Brasileiro, e conselheiro do Bahia, “enquanto a Seleção Brasileira era estraçalhada nos campos da Alemanha, Pelé desfilava de macacão colorido, fazendo propaganda comercial”[25].

Esta última frase, difundida em matérias de jornais, artigos e charges, penetrara fundo no imaginário social, sedimentando uma nova percepção a respeito de Pelé. Três anos depois da realização da Copa, com efeito, ela ecoava com igual carga emotiva no Vox Populi, da TV Cultura[26]. Exibido aos domingos, no horário das 21 horas, o novo programa registrava perguntas formuladas por cidadãos comuns. No dia 20 de novembro, o entrevistado da vez era Pelé. Um representante do “povo”, instado pelo repórter da emissora a encaminhar uma questão ao célebre atleta, não se conteve, transbordando como um copo cheio de mágoa: “Primeiro, eu considero Pelé alemão. Porque na Copa do Mundo de 74 ele estava dando risada enquanto o Brasil perdia”. As perguntas se sucediam em um acerto de contas que desvelava um grau bastante elevado de ressentimento. Um novo telespectador não deixava por menos e cobrava explicações do ilustre convidado: por que, ao invés de atuar pelo Brasil, esteve na Alemanha “defendendo seus dólares”? Também lhe era questionado o retorno ao futebol nos Estados Unidos após haver anunciado a sua despedida dos gramados. E assim por diante. Pelé, por sua vez, retorquia às perguntas invocando o direito que lhe cabia de ampliar os horizontes culturais, inserir nele novas aspirações profissionais, aprender o inglês, adquirir uma mentalidade empresarial, buscar, inclusive, os interesses financeiros.

O Vox Populi, com efeito, emerge como um documento impressionante do estranhamento recíproco entre Pelé e os representantes do “povo”, do fosso que os separava e opunha, do quanto o primeiro procurava guiar o comportamento com base em um código moderno, capitalista e burguês, ao passo que os segundos irrompiam na tela para defender o código tradicional, pré-capitalista, mais congruente com uma situação de “castas” que, para além do período previsto por Florestan Fernandes, sobrevivia no país da democracia racial, “sob o manto da sociedade aberta”[27]. O clima moral não poderia se mostrar mais adverso à resolução de Pelé em não atuar mais pela Seleção Brasileira. Em nome de um sistema de valores informado pelo ideal do amadorismo, execravam-no como mercenário; graças aos sentimentos exacerbados pelo nacionalismo estatal, rotulavam-no de traidor[28]. Os preconceitos atávicos, por sua vez, tolhiam os esforços de redefinição da imagem do negro que o salto histórico de Pelé implicava, saindo em definitivo da esfera lúdica para adentrar de corpo e alma na atividade empresarial.

Charge de J.C. Lôbo sobre Pelé. Foto: Reprodução/Cidade de Santos, 20 ago. 1974.

Em abril de 1972, no auge dos Anos de Chumbo, Pelé foi procurado pela Cidade de Santos para tratar da questão relativa ao racismo.  A entrevista, inteiramente dedicada ao delicado tema, fugia ao padrão de respostas construído pelo jogador ao longo dos anos. Ela escancarava, ademais, a questão subjacente ao embate travado por ele não apenas contra o regime civil-militar, mas também contra boa parte da imprensa esportiva e da opinião torcedora. Decerto uma das entrevistas mais marcantes concedidas por Pelé no decorrer da carreira, ela inexplicavelmente passara desapercebida. Sendo assim, atentemos para as considerações do atleta a respeito do tema:

Muita gente não aceita que eu seja famoso e ganhe muito dinheiro; que apareça na televisão; faça filmes; anúncios e telenovelas; receba condecorações e títulos; assine contratos milionários e que tenha sido embaixador do Brasil em Guadalajara, na última Copa do Mundo. Também não admitem que eu agora ocupe uma posição de destaque como homem de negócios. Isto pode ser uma forma de preconceito racial, mas acredito que seja mais inveja do que preconceito.[29]

Embora tenha hesitado no último momento, voltando atrás no raciocínio crítico, atribuindo mais à inveja do que ao racismo a resistência que ele enfrentava para sair dos limites definidos pelas quatro linhas do campo, a declaração de Pelé identificava com precisão o cerne da questão. A luta simbólica subjacente à cerimônia do adeus passava pela questão racial e desvelava toda a ambiguidade que cingia a personagem que a protagonizava. Para mostrá-lo, devemos retornar mais uma vez ao Vox Populi da TV Cultura. Além da acusação de mercenário, Pelé teve de enfrentar também a crítica de alienado. Uma jovem afro-brasileira foi taxativa em sua avaliação do problema: “Eu acho que ele deveria defender um pouco mais a raça que ele tem”, pois, afinal de contas, “ele tem a cor negra”. O desconforto de Pelé ao receber a imputação racial da jovem militante, de ser cobrado publicamente por não assumir e reivindicar a identidade negra -, era captado em close pelas câmeras do programa.

Logo, porém, adveio a reação do entrevistado. Mencionando o título de Cidadão do Mundo que lhe havia sido outorgado pouco antes pela Organização das Nações Unidas, em Nova York, Pelé respondia que para receber a honraria não tinha mudado de cor. “Eu estava lá como negro. ” Em seguida, alinhavava as opiniões que, de tão repetidas ao longo do tempo, converteram-se em verdades axiomáticas para o jogador. Podemos sintetizá-las em três pontos: 1) no Brasil não havia preconceito de raça, mas de classe; 2) ao contrário dos Estados Unidos, inexistia separação entre negros e brancos no país: “Graças a Deus nós não temos isso aqui”; 3) a sociedade nacional era aberta ao talento, isto é, independentemente da cor, “se [você] estiver bem preparado, não vai ter problema”. Estas ideias, por assim dizer, compunham o núcleo do pensamento de Pelé a respeito da questão racial e invariavelmente vinham acompanhadas do testemunho de que ele próprio nunca fora vítima de discriminação no país. Não obstante, por vezes, como revelava a entrevista à Cidade de Santos, ele próprio traía as verdades nas quais parecia acreditar cegamente.

Eis, em suma, as ambiguidades de Pelé, os aspectos incongruentes envolvidos em sua imagem pública, ao mesmo tempo moderna e arcaica, dupla face que o programa da TV Cultura captava e exibia em rede aberta de televisão. De fato, se, no que diz respeito à acusação de mercenário, o Cidadão do Mundo situava-se à frente da sociedade racialmente desigual que o incriminava por ter, segundo ela, sucumbido ao fascínio exercido pelo dinheiro e traído a vocação para a qual a natureza lhe predestinara; em compensação, visto sob a ótica da luta antirracista, era ele quem parecia se situar aquém do movimento social que adentrava a cena histórica a fim de reordenar as relações raciais herdadas do passado, expondo à luz do dia os mecanismos camuflados que perpetuavam a desigualdade entre negros e brancos no país.

De um lado, ao ultrapassar as barreiras morais que pretendiam mantê-lo atado à profissão de atleta, Pelé emergia como agente histórico da democratização das relações raciais, sinalizando para o segmento afro-brasileiro que o campo esportivo deveria ser tomado, não como destino final, mas como lugar de transição na ocupação de espaços na sociedade. De outro lado, porém, ao insistir na tese da inexistência do racismo na sociedade brasileira, e ignorar a importância da ação coletiva para enfrentá-lo com eficácia, ele se revelava prisioneiro de uma visão de mundo ultrapassada, cada vez mais questionada pelos movimentos sociais, presentes inclusive no futebol, onde, com efeito, uma nova geração de atletas negros, dotados de disposições combativas, mostravam-se mais propensos a encarar o adversário de frente e a transfigurar a esfera do jogo em um foco estratégico de luta ativa contra a discriminação.


Notas

[1] Bourdieu, Pierre (2004) Coisas ditas. São Paulo, Editora Brasiliense, p. 170.

[2] Cf. “As razões reais (de rei) ”, A Tribuna, 19 de julho de 1971.

[3] Cf. “Ao assumir, Geisel faz apelo pela unidade”, O Estado de S. Paulo, 16 de março de 1974.

[4] Cf. “Pelé vai receber novo apelo e pode aceitar”, O Estado de S. Paulo, 2 de abril de 1974.

[5] Cf. “Modesto confia no apelo a Pelé”, O Estado de S. Paulo, 5 de abril de 1974.

[6] Cf. “Evitar atritos com o governo, uma hipótese”, O Estado de S. Paulo, 18 de abril de 1974.

[7] Cf. “Pelé mantém ´não` e pode parar este mês”, O Estado de S. Paulo, 17 de abril de 1974.

[8] Cf. “Pelé mantém o `não` e pode parar este mês”, O Estado de S. Paulo, 17 de abril de 1974.

[9] Cf. “Cidade no Esporte”, coluna: De Vaney, Cidade de Santos, 2 de abril de 1971.

[10] Santos, Joel Rufino (1981) História Política do Futebol Brasileiro. São Paulo, Editora Brasiliense.

[11] Cf. “A CBD, o plantel e Pelé”, Augusto de Lemos, seção: “Carta dos Leitores”, Jornal do Brasil, 9 de fevereiro de 1974.

[12] Cf. “Nem segurança faz Pelé voltar”, Cidade de Santos, 26 de abril de 1974.

[13] Cf. ”Pesquisa carioca: Pelé deveria ser convocado para a Copa do Mundo com intervenção do governo”, Folha de S. Paulo, 3 de fevereiro de 1974. O jornal não especifica qual o instituto que realizou a pesquisa. 

[14] Cf. “Pelé em campo, apenas por dois minutos”, O Estado de S. Paulo, 13 de junho de 1974.

[15] Cf. “Pelé: contrato com a Pepsi”, A Tribuna, 28 de março de 1972.

[16] Cf. “Em jogo o ritual do futebol”, revista Veja, 19 de junho de 1974.

[17] Cf. Charge, J. C. Lobo, Cidade de Santos, 7 de maio de 1974.

[18] Cf. Charge, J. C. Lobo, Cidade de Santos, 11 de junho de 1974.

[19] Cf. Charge, J. C. Lobo, Cidade de Santos, 11 de julho de 1974.

[20] Cf. “Pelé no Líbano: futebol e Pepsi”, O Estado de S. Paulo, 25 de junho de 1974.

[21] Cf. “A grande festa do futebol”, Fatos e Fotos, nº670, 24 de junho de 1974.

[22] Nascimento, Abdias do (1982) (Org.). O negro revoltado. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, p.14.

[23] Cf. “Em Santos, as novas ameaças a Pelé”, O Estado de S. Paulo, 22 de junho de 1974.

[24] Cf. “Bahia condena represália a Pelé”, O Estado de S. Paulo, 31 de agosto de 1974.

[25] Cf. “Pelé perde estátua em Salvador”, O Estado de S. Paulo, 30 de agosto de 1974.

[26] O primeiro programa foi ao ar no dia 2 de outubro. E foi logo considerado “o melhor programa jornalístico da televisão”. Cf. “A movimentada semana nas emissoras de TV”. O Estado de S. Paulo, 23 de outubro de 1977.

[27] Fernandes, Florestan (2008) A integração do negro na sociedade de classes. Vol. II No limiar de uma nova era. 5º ed. São Paulo, Globo.

[28] Cf. Charge, J.C. Lobo, Cidade de Santos, 20 de agosto de 1974.

[29] Cf. “Senhores, eis aqui um negro”, Cidade de Santos, 23 de abril de 1972.