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A cerimônia do adeus: “cadê Pelé?” (última parte)

José Paulo Florenzano

Na primeira metade dos anos setenta, já era possível detectar a postura inconformista de uma nova geração de atletas em relação à mitologia nacional. Wladimir, por exemplo, jovem revelação do Corinthians, exprimia em termos contundentes o ponto de vista sobre o problema: “Sabe, esse negócio de dizer que no Brasil não existe preconceito racial é pura bobagem”[1]. Paulo César Lima, já consagrado pela participação na conquista do tricampeonato conquistado na Copa do México, corroborava a asserção do colega, aprofundando a análise:

Não é de hoje que sofro bastante com o preconceito racial. Os torcedores, de um modo geral, principalmente os da classe média baixa, não admitem que eu, negro, vindo do nada, possa ser famoso, ter dinheiro, frequentar os melhores lugares, ser assunto nas colunas sociais. Daí nascem a revolta e a raiva e, consequentemente, as vaias.[2]

O conteúdo racial das vaias dirigidas a jogadores negros constituía, então, um tema tabu, encoberto pela etiqueta do dispositivo de poder que interditava abordar a questão de maneira aberta. Paulo César Lima, à época no Flamengo, rompia o silêncio e desnudava o teor dos apupos que lhe eram amiúde endereçados. Sem entrar no mérito da análise sociológica acerca dos estratos sociais mais diretamente engajados nas vaias, parece-nos importante ressaltar o trabalho de desmascaramento da ideologia dominante levado a cabo pelo expoente da nova geração de atletas negros.

No decorrer da primeira metade dos anos setenta, ele iria se tornar uma referência no futebol em termos de atitude insubmissa, de comportamento transgressor, de questionamento engajado no campo das relações raciais. Não devemos nos surpreender, assim, com o contraste registrado na Folha de S. Paulo em 1974. De acordo com a reportagem do jornal, enquanto Paulo Cesar “representava a imagem do negro rebelde” – conforme palavras atribuídas ao jogador carioca –, Pelé encarnava a “imagem da resignação da raça”[3]. Uma mirada mais desatenta da questão poderia considerar justificada a polarização estabelecida entre os dois atletas. Assíduo na capa da revista Placar, Paulo César comparecia ora erguendo o punho em referência aos Panteras Negras, ora com o cabelo crescido à moda Black Power, quase sempre envolvido em discussões abertas sobre racismo, tema que ele abordava sem receios.

Em sua despedida pelo Santos, em partida contra a Ponte Preta, na Vila Belmiro, em 2 de outubro de 1974, Pelé ajoelhou-se no meio de campo em forma de agradecimento. Foto: Reprodução/SantosFC.

Pelé, em contrapartida, continuava fiel ao corte de cabelo à moda da caserna; aderia cada vez mais ao terno e gravata, figurino apropriado ao homem de negócio no qual procurava se transfigurar; só se manifestando sobre o preconceito e a discriminação em último caso, isto é, quando questionado a respeito pela imprensa. Contudo, como salientado nos artigos anteriores, ao migrar em definitivo do campo esportivo para a esfera empresarial, ele ameaçava a naturalização que revestia a associação estreita forjada entre o jogador de futebol e o segmento afro-brasileiro, despertando, por conseguinte, a reação extremada de amplos setores da massa torcedora e dos formadores de opinião.

Ora, diante das pressões recebidas para se manter no lugar que lhe era atribuído pelo dispositivo racial, ao invés de capitulação passiva, Pelé opôs uma recusa obstinada, travando um combate renhido com as instâncias de poder que, tanto no governo quanto na sociedade, desejavam limitar-lhe o raio de atuação às quatro linhas do gramado. Nesse sentido, em resposta ao comentário de Paulo César, ele afirmava com razão: “A afirmação de que represento a imagem da resignação não é válida”[4]. Com efeito, ao invés de situá-los em polos extremos e opostos da luta pela redefinição da imagem do negro, como propunha a reportagem da Folha de S. Paulo, parece-nos mais apropriado pensar as estratégias simbólicas acionadas pelas duas personagens para fazer face às práticas discriminatórias que os atingiam. Pois, embora não adotasse como Paulo César uma postura combativa, direta e irreverente de enfrentamento do racismo, Pelé possuía uma linha de ação para lidar com o problema, assim delineada na entrevista ao jornal Cidade de Santos:

Acho que ao invés de tomar posições é necessário dar exemplos. Os meus, devem levar certa confiança e esperança aos negros. Eles verão que são iguais aos outros, e que têm as mesmas chances de lutar e vencer.[5]

A posição assumida por Pelé se assemelhava à estratégia encampada, nos Estados Unidos, pelos atletas negros da geração Jesse Owens, Joe Louis e Jack Robinson[6]. Ela pressupunha a mesma visão idealizada da arena esportiva alimentada por eles e incorria no equívoco semelhante de tomá-la como imune às práticas discriminatórias. De forma análoga ao pensamento dos atletas afro-americanos, Pelé considerava que a “melhor contribuição” que podia dar à luta contra o preconceito e a discriminação era a do exemplo, fosse através da perfomance atlética bem-sucedida; fosse cruzando as fronteiras do espaço social e se afirmando noutras áreas de atividades. Não precisamos insistir nos limites desta estratégia. Malgrado, porém, todas as incongruências, hesitações e cumplicidades com as estruturas de poder, tanto dentro quanto fora do futebol, Pelé estava muito longe de corresponder à “imagem da resignação da raça”.

Após despedir-se, Pelé desceu pela última vez as escadas rumo ao vestiário do Santos. Foto: Reprodução/Twitter.

 

Ao longo da carreira, ele podia contabilizar os enfrentamentos com a violência física dos zagueiros adversários, as reações de inconformismo face à violência simbólica das torcidas hostis, a tenacidade oposta às ações coercitivas deslanchadas para submetê-lo aos desígnios da classe dirigente e da imprensa esportiva com ela associada. Nem sequer os adeptos do alvinegro praiano lhe deram trégua. Em uma noite de quarta-feira, do mês de maio de 1972, o Santos disputava uma partida anódina contra o XV de Piracicaba, na Vila Belmiro, pelo Campeonato Paulista. E vencia o adversário pelo placar mínimo de 1 a 0. A cinco minutos do final, os espectadores “vaiavam, xingavam e tentavam subir no alambrado”. Pelé, interessado em esgotar o tempo que restava para assegurar a vitória, recuara mais uma vez a bola ao goleiro Cláudio. Resultado: “Mais vaias”. Deixemos a descrição do que se passara em seguida com a reportagem de A Tribuna:

Pelé pede a bola outra vez, olha para a torcida, e chuta com toda a força para o lado das sociais do estádio.[7]

À medida que se aproximava a despedida dos gramados, os atritos se multiplicavam com os agentes do campo esportivo. O ícone já não sintetizava mais as virtudes da nacionalidade. Pouco a pouco, desfazia-se a unidade entre o indivíduo e o jogador, tão exaltada pela imprensa nacional. No discurso desta última, impunha-se cada vez mais a disjunção entre o atleta, cujo status heroico obtido no gramado permanecia inabalável, e o cidadão, desqualificado em função de uma conduta classificada de mercenária, demagógica e alienada. A cerimônia do adeus, nesse sentido, implicava um rito de separação. A nação se despedia da imagem idealizada que ela havia cultivado de Pelé. Criticado à direita e à esquerda, mal visto pelos racistas e pelos antirracistas, Pelé se tornara, de certa forma, um Rei Estrangeiro.

Na condição de uma figura ambígua, ao mesmo tempo, familiar e estranha aos brasileiros, no início de outubro de 1974, uma quarta-feira à noite, contra a Ponte Preta, Pelé realizaria a última partida oficial com a camisa do Santos. Depois de atuar por apenas vinte minutos, fez a volta olímpica no gramado da Vila Belmiro, despedindo-se em definitivo. “A festa”, de acordo com a Folha de S. Paulo, “não foi digna do futebol” exibido por Pelé ao longo de quase duas décadas[8]. O Estado de S. Paulo descrevia um quadro melancólico: “O estádio não estava lotado, como se esperava” e a volta olímpica do jogador “foi acompanhada por uma tímida salva de palmas”[9]. Nem sequer o regime militar compareceu para prestar homenagem e agradecer os serviços prestados à propaganda política. O alvinegro praiano venceu o alvinegro campineiro pelo placar de 2 a 0. O primeiro gol foi marcado aos quarenta e três minutos da etapa inicial, por Cláudio Adão, considerado pela crônica esportiva “a mais nova esperança de outro Pelé”[10].

À medida que se aproximava o encerramento de sua carreira, os profissionais da imprensa, olheiros de clubes e simples observadores passaram a aguardar o surgimento do sucessor do Rei do Futebol. Enxergavam-no nos jovens atletas que vestiam a camisa do Santos, ou, de modo geral, nas revelações negras que ingressavam no campo de jogo, uma após a outra, criando falsas esperanças. Talvez o primeiro a suscitar tais ilusões tenha sido o centroavante do Guarani, Washington, campeão com a Seleção Brasileira de juvenis no Torneio de Cannes, na França, em 1972. Cercado de expectativa, o jogador acabaria sucumbindo sob o peso de uma comparação desumana, refletida, de resto, na indagação formulada pela crônica esportiva, após uma atuação considerada decepcionante na partida entre Guarani e São Paulo:  “O que pode fazer um negrinho [sic], a quem muitos já querem atribuir a responsabilidade de substituir Pelé? ” Frustrada com a performance de Washington, a torcida bugrina protestava nas arquibancadas do Brinco de Ouro, em Campinas, com os gritos endereçados ao gramado: “Cadê Pelé?”[11].

Consultavam-se oráculos, jogavam-se búzios, pregavam-se a todos os santos em busca de indícios e certezas de que, a qualquer momento, não importa onde, ele reapareceria para redimir o País do Futebol. Certa feita, numa manhã de meio de semana, no centro de São Paulo, corria solta uma pelada, disputada por simples garotos, no parque infantil instalado na Praça da República. Ali, registrava o repórter da Folha de S. Paulo, “um crioulinho de 10 anos parecido com Pelé” exibia sua “categoria”, atraindo a atenção dos transeuntes que lhe prognosticavam tornar-se um “verdadeiro Pelé”[12].

Não temos informações a respeito do destino que a vida reservara ao menino pobre e negro da Praça da República, cuja foto o referido jornal havia estampando, com destaque, vaticinando o surgimento de um novo Pelé. Sabemos apenas que se tratava de mais uma miragem. De fato, levaria algum tempo até que olheiros, especialistas e torcedores compreendessem o que o silêncio das divindades significava.


Notas

[1] Cf. “O menino do Parque”, revista Placar, nº 201, 25 de janeiro de 1974.

[2] Cf. “O futebol é minha arma”, revista Placar, nº 215, 3 de maio de 1974.

[3] Cf. “O Pelé que você não conhece”, caderno especial, Folha de S. Paulo, 29 de setembro de 1974.

[4] Cf. “O Pelé que você não conhece”, caderno especial, Folha de S. Paulo, 29 de setembro de 1974.

[5] Cf. “Senhores, eis aqui um negro”, Cidade de Santos, 23 de abril de 1972.

[6] Sobre a geração Jesse Owens e o posicionamento que ela teve diante do racismo, na sociedade estadunidense, ver Roos, Alexandre (2006) Les athlètes africains-américans et les mouvements pour l`égalité raciale. Paris, L´Harmattan.

[7] Cf. “Um chute na torcida: a imagem está ameaçada? ”, O Estado de S. Paulo, 19 de maio de 1972. Ver também “Diretores culpam Pelé e a torcida”, Folha de S. Paulo, 19 de maio de 1972.

[8] Cf. “Pelé: fim”, Folha de S. Paulo, 3 de outubro de 1974.

[9] Cf. “De joelhos, braços abertos, Pelé para”, O Estado de S. Paulo, 3 de outubro de 1974.

[10] Cf. “O menino desta foto é Cláudio Adão, a mais nova esperança de outro Pelé”, Folha de S. Paulo, 30 de janeiro de 1974.

[11] Cf. “Foi o primeiro desencanto de Washington?” Folha de S. Paulo, 19 de maio de 1972. Ver, também, “Washington não perdeu sozinho”, revista Placar, nº 130, 8 de setembro de 1972. Nessa reportagem, o jovem centroavante expressava o caráter cruel da comparação: “Como é que podem fazer isso comigo? (…) Não posso ficar carregando esse peso nas costas (…) Eu não aguento mais, estou entrando em desespero”.

[12] Cf. ”A Praça da República iniciou os treinos para futuras Copas”, Folha de S. Paulo, 12 de janeiro de 1971.


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