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A cerimônia do adeus: “o atleta-desertor” (II parte)

José Paulo Florenzano

Em sua prestigiada coluna na Cidade de Santos, o jornalista De Vaney dedicava-se a coligir dados, organizar estatísticas e revirar arquivos em busca de equívocos e de meias verdades, isto é, de elementos necessários para reavaliar a importância histórica de Pelé. E o fazia imprimindo um viés racial às crônicas escritas com as tintas do ressentimento, sentimento despertado pela decisão do atleta de encerrar a carreira na Seleção Brasileira, ato de “deserção” consumado ao longo de 1971. Com efeito, depois de exercer o papel de mitógrafo do Rei do Futebol, De Vaney empenhava-se agora em desconstruir a obra para cuja edificação ele havia contribuído de forma significativa na imprensa praiana.

 

Nesse sentido, ele recordava a primeira convocação para a Copa-Roca, em 1957, do chamado “Negrinho de Bauru”, expressão grifada no texto pelo próprio autor[1]. Pouco depois, voltava à carga, desta feita designando Pelé como o “Saci Pererê” que “despontava” para o futebol[2]. Esta figura folclórica, segundo o jornalista, devia à imprensa a projeção alcançada mundo afora. Desde o começo da carreira ela pôde contar “com a simpatia, com a ajuda, com o incentivo” da crônica esportiva[3]. Na Copa da Suécia, por exemplo, depois de assinalar o gol da vitória contra o País de Gales, os repórteres adentraram o vestiário brasileiro atrás do herói da partida a fim de lhe exaltar a proeza, indagando: “Onde está o menino? Cadê o pretinho?”[4].

O repertório de termos racistas era bastante amplo. A ira do colunista fora despertada a rigor por uma entrevista concedida ao jornal O Globo na qual Pelé aludia ao quinhão de responsabilidade da imprensa em sua decisão de abandonar o selecionado nacional. Além disso, De Vaney se sentia incomodado com as múltiplas atividades desenvolvidas pelo aclamado jogador: no cinema, na televisão e na publicidade, no campo musical, mas, sobretudo, na esfera empresarial. Era como se o “Negrinho de Bauru”, educado na “humildade”, tivesse perdido a noção do lugar que lhe cabia na sociedade brasileira, e, por conseguinte, o foco na única atividade que lhe estava naturalmente reservada:

Pelé, um homem que não bebe, que não fuma, que não joga a dinheiro, que leva vida regrada, que possui excelente formação cristã, teria condições de atingir aos 40 anos como titular da Seleção Brasileira, tendo tempo para estar mais perto da família, não fosse a roda-viva em que se meteu, na ânsia de enriquecer cada vez mais.[5]

Cena de “Os Estranhos”, novela da TV Excelsior que teve Pelé como protagonista, em 1969. Foto: Reprodução/Excelsior.

Sob o aguilhão de uma ambição desmedida – lamentava o ilustre jornalista – o bom moço enveredara pelo território da “rebeldia”, olvidando as obrigações com a torcida, desafiando a crônica, deixando à deriva o time incumbido da missão histórica de representar a pátria. Nem sequer o título da Mini Copa, em 1972, conquistado de forma dramática na final contra Portugal, no Maracanã, mostrava-se suficiente para dissipar as incertezas que rondavam o selecionado nacional. De fato, os temores se confirmaram um ano depois durante a excursão pela Europa, quando sobreveio o primeiro revés desde a conquista do tricampeonato, no amistoso contra a Itália, disputado em Roma, 2 a 0 para os anfitriões. Mais do que a derrota em si, causava preocupação a irregularidade da equipe, generalizando-se a convicção segundo a qual sem Pelé as chances na Copa da Alemanha encontravam-se bastante reduzidas.

Não admira, portanto, que uma nova onda de especulações viesse agitar o noticiário, anunciando como iminente uma reviravolta na decisão tomada por Pelé. De Washington, onde se encontrava para uma visita de negócios, o camisa dez do Santos procurava rebater os boatos, aventando, inclusive, a hipótese extrema de antecipar o final de sua carreira a fim de “evitar uma eventual pressão da CBD” para retornar à Seleção Brasileira[6]. Estava claro que as autoridades militares e esportivas do país não pretendiam desistir do objetivo de tê-lo em campo na Copa do Mundo. Muito ao contrário. À medida que se aproximava a data do evento, fechava-se o cerco em torno do jogador.

Pelé é garoto-propaganda das pilhas Rayovac desde a década de 70. Foto: Reprodução/veja.com

As atuações magistrais de Pelé, durante o Campeonato Brasileiro, contribuíam ironicamente para elevar as injunções provenientes da imprensa esportiva, do Palácio do Planalto e da Rua da Alfândega. Em janeiro de 1974, com efeito, ele foi aclamado pelos cronistas como o melhor em campo na vitória sobre o Botafogo, no Maracanã, pelo placar de 3 a 0. Na rodada posterior, na goleada de 5 a 1 contra o Fortaleza, ele alcançava a artilharia da competição com dezessete gols. As partidas exibiam-no com a mesma potência física, habilidade técnica e consciência tática do passado. Vê-lo em plena forma às vésperas da Copa do Mundo soava como uma provocação aos que não aceitavam ter havido um fato consumado. O tempo urgia e era preciso agir rapidamente. Ainda no mês de janeiro, Antônio do Passo, diretor de futebol da CBD, colocava a imprensa a par do mais recente apelo a ser encaminhado “por meio de ofício” ao atleta do Santos. E, magnânimo, explicava que não pretendia convocar Pelé, “mesmo sabendo que tem poderes para tomar essa medida”. Tratava-se apenas de obter “a palavra final e oficial dele”[7]. Ora, desde o instante em que a tornara pública, em meados de 1971, o jogador declarara a quem quisesse ouvir que não iria recuar em hipótese alguma da resolução tomada. Dissera-o inclusive por telefone ao próprio Antônio do Passo, mas, ao que parece, a CBD se portava como se a questão ainda estivesse em aberto.

Sem abandonar a ameaça velada de recorrer à força da lei, a CBD apostava, no entanto, em uma linha de ação que incluía como instrumento privilegiado de pressão a massa torcedora. Antecipando-se à manobra, Pelé enviara ao editor de Esportes de O Estado de S. Paulo, Luís Carlos Ramos, uma carta datada de 5 de fevereiro na qual reiterava a “consciente decisão de não mais jogar pela Seleção Brasileira”, denunciando o plano dos que procuravam “através de motivações absurdas jogar a opinião pública contra minha pessoa”[8]. A missiva foi publicada na íntegra na edição da sexta-feira, 8 de fevereiro. Dois dias depois, no domingo, pouco antes do início da partida contra o Cruzeiro, no Morumbi, Pelé recebia o referido ofício das mãos de Antônio do Passo. Pedimos escusas por citá-lo na íntegra, mas tal se faz necessário para apreendermos a estratégia acionada pela CBD:

Estimado patrício Edson Arantes do Nascimento: Estamos na vizinhança de um novo Campeonato Mundial de Futebol; a seleção do nosso país disputá-lo-á com uma responsabilidade ímpar, em face da hegemonia por ela conquistada. Em parte, saliente, essa hegemonia é devida ao marcante concurso do estimado patrício, cujo virtuosismo, como jogador de futebol, não há quem desconheça. A Confederação Brasileira de Desportos apresta-se na adoção e execução de providências necessárias ao preparo da seleção que concorrerá ao aludido Campeonato Mundial. É do seu empenho reunir na referida seleção os valores mais afirmativos da pujança do nosso futebol, dentre os quais seu nome adquiriu extraordinárias ressonâncias. Explica-se o afã do povo brasileiro desejoso de vê-lo na abertura da relação de jogadores de escola a serem convocados; a confiança do povo brasileiro quanto à classe da nossa representação, haverá de crescer muito. A imprensa escrita, falada e televisada do nosso país, segundo as aspirações do nosso povo, não se cansa de movimentar o noticiário, desejoso de levá-lo à revisão do propósito de não mais vestir o uniforme da nossa seleção. Alarga-se uma expectativa de esperança em decorrência da generalização dos apelos. A Confederação Brasileira de Desportos, na persuasão de poder sintetizá-los, como entidade responsável pela direção nacional do futebol, formaliza neste ofício a soma dos invocados apelos e roga-lhe, de ânimo fervente, que aquiesça em voltar à seleção. Tenho a esperança de merecer-lhe uma palavra de acolhimento; ela abrirá sinais ainda mais verdes ao longo das distâncias cultivadas pelo fervor do povo brasileiro devotado ao desporto em que o festejado patrício se fez ídolo. Minha esperança cresce ao recordar suas provas de amor, como cidadão e tricampeão mundial de futebol, aos anseios em que palpita a presença do Brasil.

Confiantemente, João Havelange.[9] 

Pelé gravou o compacto “Tabelinha” com a cantora Elis Regina no ano de 1969, que trazia duas composições dele, “Perdão não tem” e “Vexamão”. Foto: Reprodução.

A recorrente menção ao povo brasileiro, que pontuava o texto do princípio ao fim, deixava clara a proposta de lançar a opinião pública contra o atleta. A CBD, com efeito, arvorava-se porta-voz do conjunto da população e transmitia em nome dela o apelo supostamente unânime para que o festejado “patrício” voltasse atrás e vestisse novamente a camisa do time nacional. Podemos, no entanto, imaginar o quanto fora difícil ao aristocrático dirigente escrevê-lo nos termos suplicantes em que o fizera, literalmente rogando para que o jogador aquiescesse ao clamor popular e, obviamente, satisfizesse os interesses da entidade por ele presidida. O artifício, porém, não surtiu o resultado esperado. Em uma nova carta pública Pelé agradeceu o ofício da CBD, argumentando, contudo, que um ciclo havia se encerrado para ele e para os companheiros de viagem que o ajudaram a conquistar em definitivo a Jules Rimet. Cabia agora a atual geração a luta para trazer ao país a nova taça que a FIFA colocava em disputa a partir da Copa da Alemanha. A missiva deixava transparecer a cada linha a sensação do dever cumprido:

Prezados Senhores: recebi com orgulho o ofício de V.Sas. através do qual me é feito o pedido para que volte a defender a nossa querida Seleção Brasileira de Futebol, à qual prestei meu concurso, por espaço de tempo superior à metade de minha existência.

O pedido de V.Sas. representa o maior prêmio de minha vida, pois nele está consubstanciado o reconhecimento da entidade máxima do futebol brasileiro pelos meus 16 anos de trabalho.

Sempre procurei trabalhar com dedicação e honestidade, dando o que de melhor possuía ao meu trabalho e ao Brasil. Recusei todas as vultosas propostas para jogar no Exterior, pensando neste povo que sempre me incentivou.

A decisão por mim tomada em 1971 contou com a concordância de V.Sas. de quem recebi todas as homenagens, inclusive o prêmio dado a todos os jogadores que se despedem, o que jamais se apagará da minha lembrança. O povo, irmanado com a CBD, prestigiou a minha despedida e eu não poderia, agora, iludir esse mesmo povo e meus próprios colegas, que tanto me ajudaram.

Em 1958, vários jogadores, inclusive eu, surgiram para defender a nossa Seleção. Está na hora de unirmos esforços para que surjam outros, nas mesmas condições, que consigam trazer definitivamente a Taça que ora se inicia, como já foi feito com a Jules Rimet.

É chegado o momento de mostrar aos brasileiros que posso ser útil ao País em outros campos de atividades, com a mesma dedicação, honestidade e motivação com que sempre defendi a nossa Seleção. Contando com a compreensão de V.Sas., cordialmente.

Edson Arantes do Nascimento[10]

A carta de Pelé enfatizava os serviços prestados à Pátria de Chuteiras e destacava, em especial, a conquista definitiva da Jules Rimet. Recordava os sacrifícios que foram feitos ao longo do ciclo que a taça representava, notadamente, a recusa das propostas financeiras que lhe foram apresentadas por clubes europeus. Decerto, o quanto esta recusa traduzia efetivamente a livre vontade do atleta, expressa no quadro da Lei do Passe e no contexto da ditadura militar, permanece uma questão em aberto. Fora de qualquer dúvida era a disputa travada pelos missivistas em torno do “povo”. Enquanto João Havelange o invocava para formular o apelo e constranger o atleta a aceitá-lo; Pelé, em contrapartida, o arrolava como testemunha da veracidade das alegações expostas na carta. Esta, por outro lado, contemporizava, aludindo às homenagens da CBD como se nada houvesse se passado, nenhuma represália tivesse sido adotada[11]. A estratégia de evitar a todo custo o confronto ficava mais clara na entrevista concedida ao jornal A Tribuna, de Santos. Indagado se sentia “mágoa contra o Governo” por causa do cancelamento das homenagens, Pelé argumentava que foi “uma decisão certa”, porque ele mesmo “não queria nenhuma festa”[12]. Por fim, merece atenção especial a justificativa com a qual o jogador concluía o arrazoado, reivindicando a chance de provar aos brasileiros que poderia ser útil, também, “em outros campos de atividades”.

Pelé recebeu o prêmio de Cidadão Global no Fórum Econômico Mundial para América Latina, ocorrido na cidade de São Paulo em 14 de março de 2018. Foto: Beto Barata/PR.

Eis o cerne da questão. Enquanto Pelé acreditava fazer jus à nova posição que ocupava na sociedade como empresário, os círculos mais intransigentes situados no poder central, na imprensa esportiva e na sociedade civil, compeliam-no a permanecer dentro da esfera esportiva exercendo a função para a qual se presumia ter sido talhado pelo destino. As quatro linhas do campo transfiguravam-se nas linhas da especialização racial traçadas para fixar os negros na condição de atletas de futebol[13].

A cerimônia do adeus, nesse sentido, nos conduz a outra cena, ao mesmo tempo surpreendente e reveladora do racismo na sociedade brasileira. Ela nos mostra que o reverso da idolatria a Pelé na esfera do futebol era o ressentimento contra a presença do negro no ramo dos negócios. Compreendamos. Não se reagia somente à ausência de um craque no time nacional ou se desvelava inconformismo com a despedida de um fenômeno do esporte. Em jogo encontrava-se o conjunto das representações, estereótipos e avaliações envolvendo o afrodescendente. Ao reivindicar o direito de atuar no campo empresarial como homem de negócio, Pelé colocava em questão a aura de predestinação que cingia o negro à esfera do futebol. Mas por esta atitude ele pagaria um preço elevado.

Notas

[1] Cf. “Primeiro passo”, De Vaney, Cidade de Santos, 22 de maio de 1971.

[2] Cf. “Quem é ele? ” De Vaney, Cidade de Santos, 30 de maio de 1971.

[3] Cf. “Lenço preto”, De Vaney, Cidade de Santos, 4 de junho de 1971.

[4] Cf. “Quando”, De Vaney, Cidade de Santos, 25 de junho de 1971.

[5] Cf. “Revisão de Pelé”, Cidade de Santos, 25 de julho de 1971.

[6] Cf. “Se insistirem, Pelé para logo”, O Estado de S. Paulo, 14 de março de 1973.

[7] Cf. “Pelé vai rejeitar o apelo da CBD”, O Estado de S. Paulo, 30 de janeiro de 1974.

[8] Cf. “Pelé confirma sua decisão”, O Estado de S. Paulo, 8 de fevereiro de 1974.

[9] Cf. “Apesar do apelo, Pelé não voltará”, O Estado de S. Paulo, 12 de fevereiro de 1974.

[10] Cf. “A resposta de Pelé”, O Estado de S. Paulo, 22 de fevereiro de 1974. Cf. “O último ´Não` de Pelé à CBD”, Folha de S. Paulo, 22 de fevereiro de 1974.

[11] Pelé se referia à medalha de ouro, concedida também ao atleta da Iugoslávia, Dragan Dzajic, e um “cheque de cinco mil cruzeiros”, o prêmio de praxe para os atletas que deixavam a Seleção Brasileira, em suma, “uma homenagem bem discreta”. Cf. “O que restou da festa”, O Estado de S. Paulo, 9 de julho de 1971.

[12] Cf. “As razões reais (de rei) ”, A Tribuna, 19 de julho de 1971.

[13] Fernandes, Florestan (2008). A integração do negro na sociedade de classes. Vol. II São Paulo, Globo, p. 252.


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