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A Champions LiGay e a colonização do futebol

Wagner Xavier de Camargo

O feriado de finados foi marcado, na cidade de São Paulo, pela realização da 3ª Champions LiGay, um campeonato amador de futebol society ou fut7, jogado em grama sintética e organizado para atletas que se autoidentificam com a homossexualidade enquanto orientação sexual. Como ficou registrado na página da LiGay Nacional de Futebol (LGNF), no Facebook: “Sim, passou a Parada, passaram as eleições e nós continuaremos aqui, unidos, fortes e mostrando que, no ‘país do futebol’, gay também joga bola e que esporte é coisa de viado sim, que é coisa de lésbica, de bi, de trans, de travesti, de queer, de quem mais quiser!” (sic).

Desta vez, decidi ir a São Paulo a fim de prestigiar o evento. Não sei se quero aqui escrever como antropólogo ou pesquisador, como esportista, gay ou apenas como expectador. Talvez tudo isso junto e misturado, pois acredito ser interessante minha visão multissituada acerca do fenômeno, sem uma análise acadêmica ou com roteiro de pré-estabelecido. Trago impressões e questões.

De imediato, ao chegar, percebi a empolgação impregnada no ar, nas conversas e deslocamentos no espaço. Havia um clima de fraternidade, complementado com a festividade em voga de grupos e pessoas, que se sentiam parte daquilo que acontecia. Conversei com organizadores, staffs, jogadores, com gente que tinha estado em todas as edições e também com novatos que apenas vieram a São Paulo. Não posso, nem quero, generalizar tais conversas, pois isso seria demasiado leviano. Numa delas, por exemplo, um jogador me contou o quanto foi importante sua “saída do armário” junto à família, para então começar a jogar futebol “como gay”. Ainda me disse que estar ali “era algo nunca pensado”, seja pela criação familiar conservadora, seja porque nem imaginava que “gays jogavam futebol” (sic).

André Machado, membro dos Beescats/RJ e da LiGay, comentou que a demanda pela prática do “futebol society gay” tem aumentado em todo o Brasil. A edição paulista comportou o máximo de grupos participantes para o formato que está estruturada a liga no momento, isto é, para 16 equipes. Estavam presentes, de São Paulo, “Futeboys Futebol Clube” e “Unicorns Brazil” (times anfitriões), “Afronte F.C”, “Bulls Football SP” e “Diversus F.C.”; do Rio de Janeiro, vieram “Beescats”, “Alligaytors” e “Karyocas”; de Belo Horizonte (MG), participaram os “Bharbixas F.C.” e “ManoTauros F.C.”; de Brasília (DF), o “Bravus”; de Goiânia (GO), as “Barbies F.C.”; de Curitiba (PR), os “Capivaras Esporte Clube”; de Porto Alegre (RS), o “Magia Sport Club” e “Pampacats”; e de Florianópolis (SC), os “Sereyos Sport Club”.

Como já comentei no texto “A era dos invisíveis no esporte”, tais competições de futebol se inserem dentro da expressão esportiva das pessoas LGBT+ (gays, lésbicas, bissexuais, pessoas transgênero e demais), que regularmente se materializa em eventos globais como o Gay Games, um megaevento semelhante às Olimpíadas, com periodicidade quadrienal. E a Champions LiGay no Brasil, e em escala bem menor, reproduz o que é encontrado no Gay Games em termos de população: maioria dos atletas são homens brancos, aparentemente com educação formal consolidada e com certo poder aquisitivo, o que os possibilita pagar os gastos oriundos da prática esportiva e da viagem de deslocamento para o local de competição.

Porém, tudo é muito custoso e difícil quando não se tem um apoiador externo, no caso, patrocinador(es). Um atleta dos Sereyos de Florianópolis me contou que há muita solidariedade grupal e que todos se empenham muito para que seja possível a participação da equipe em eventos. Dos grupos que estavam presentes, a maioria não tem patrocínio e os jogadores acabam “tirando do bolso” para manterem o esporte e tudo o que ele envolve, como compra de bolas e equipamentos, confecção de uniformes e financiamentos para viagens. Vaquinhas, rifas, leilões e mesmo contribuição mensal são os recursos que garantem a continuidade dos grupos. Isso não é muito diferente do que se encontra na maioria das práticas esportivas amadoras no Brasil. Caberia indagar, talvez, se esse “futebol gay” precisa seguir o mesmo roteiro delas?

Equipe Sereyos, de Florianópolis, confraternizando o terceiro lugar conquistado na competição. Foto: arquivo pessoal.

Assistindo os jogos percebi, claramente, que do campeonato de futebol dos Jogos da Diversidade, realizados junto à Parada Gay de 2017, os mesmos grupos que lá estavam haviam melhorado muito suas performances técnicas. Há mais jogadas casadas, com táticas aprimoradas e, olhando para o atual evento, as equipes estão com um perfil mais homogêneo de jogadores, tanto em termos de habilidades no traquejo com a bola, quanto na composição corporal (maioria jogadores magros e definidos). Conversando com algumas equipes, percebi a preocupação com essa preparação. Os Alligaytors, por exemplo, possuem um técnico formado em Educação Física, o qual emprega treinos sistemáticos e diferenciados para a melhora do grupo. Segundo alguns jogadores, essa é uma estratégia que tem sido utilizada por várias equipes.

Por sua vez, a crítica proferida pela equipe Meninos Bons de Bola (um grupo de homens transgêneros futebolistas) quando por ocasião da 1ª Champions LiGay em 2017, ainda pareceu persistir: o espaço do futebol foi apropriado por “homens gays brancos e definidos”, que se regozijam de encontrar semelhantes ali e não haveria, assim, muita chance para a existência de diferentes, de abjetos/as, ou daqueles/as que não se identificam com a estética dominante do corpo masculino normativo, reprodutor de valores similares aos encontrados na sociedade.

Perfilamento inicial dos times Bharbixas (esq.) e Bulls (dir.) momentos antes da partida final. Foto: arquivo pessoal.

Em que pese considerar válida a crítica à falta de “diversidade representacional” (digamos assim), não se pode demandar presença de representantes de cada uma das siglas LGBT+ no evento, mas se deve exigir respeito com quem participa dele e é “diferente” da massa homogênea. Transfobia (aversão a pessoas transgênero) ou bifobia (preconceito contra bissexuais), ou quaisquer outras manifestações discriminatórias, não podem ser admitidas neste espaço. O “futebol society gay” ainda é um fenômeno recente no Brasil e parece que vai crescer muito, principalmente pela proliferação de grupos em todos os Estados. Há muito espaço e esporte a serem conquistados. Acredito que outras modalidades também serão organizadas por estes coletivos, a ponto de surgirem ligas ou competições delas no futuro.

Não há, entretanto, como não reconhecer que mesmo tendo esse perfil inicial de praticante, o “futebol society gay” é fato, existe e se caracteriza por um espaço que pode(rá) ser apropriado por outros corpos. Talvez, num curto espaço de tempo, a Champions LiGay não será o único campeonato com essa característica.

Dessa edição, a equipe do Bulls Football Club se sagrou campeã, numa final disputada com os Bharbixas, de Belo Horizonte. O terceiro lugar foi conquistado pelos Sereyos, de Florianópolis. O público aumentou, a visibilidade cresceu, algum apoio financeiro entrou. Parte da população que vive nas cidades de origem destes clubes e parte das famílias que possuem um jogador gay de futebol já conhecem a proposta por eles encampada. O mundo heterossexual, portanto, já sabe que a prerrogativa de “bater uma bolinha” não é mais dos “machos” que vieram ao mundo para isso (será?). O futebol já foi colonizado! Resta saber o que virá a seguir…