15.5

A claque do Todo-Poderoso – Kinshasa, RDC

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

O Estádio dos Mártires tem capacidade para 80 mil pessoas mas não estão preenchidos mais do que 30 mil lugares. Normalmente o estádio enche nos desafios dos “Leopards”, a selecção nacional, e dos clubes de Kinshasa, Vita Club e Motema Pembe. Mas hoje quem aqui joga é o Tout-Puissant Mazembe que, apesar de ser campeão nacional e africano tem sede a 2000 quilómetros da capital, na cidade de Lubumbashi. O adversário vem Aida de mais longe, do Mali, para disputar os oitavos-de-final da Liga dos Campeões Africanos. Os congoleses venceram a primeira mão, em Bamako, por 1-0.

Foto: João Henriques.

O ambiente em redor do estádio é mais calmo do que pensávamos. Há alguma agitação na entrada e uma grande concentração de miúdos de rua nas cercanias do estádio mas impera o pacifismo. Pagámos 30 euros ao assessor de imprensa da Federação Congolesa de Futebol para nos garantir segurança no recinto mas não sentimos o terror que nos rogaram. Fomos obrigados a tal porque não pudemos pagar os 175 euros exigidos pelo Ministério das Comunicações congolês e andamos a filmar na cidade à revelia.

Foto: João Henriques.

Curioso que os adeptos das equipas de Kinshasa, rivais do Mazembe, concentram-se na zona central do terceiro anel de bancadas a suportar entusiasticamente os seus compatriotas. As equipas entram em campo. A grande ovação é para Trésor Mputu, avançado do Mazembe, a quem são dedicadas mais de metade das tarjas penduradas no estádio. O número 8 dos congoleses, com 24 anos, foi considerado pela CAF como o melhor jogador africano a actuar no continente e Claude Le Roy, ex-seleccionador dos Camarões, chamou-o de “novo Samuel Eto’o”. As propostas dos clubes europeus não param de chegar à caixa postal do Mazembe mas o presidente do clube tem coberto as ofertas com significativos aumentos salariais. Mputu é hoje o jogador mais bem pago em todo o continente.

Foto: João Henriques.

No relvado, o Mazembe não tem muita dificuldade em trucidar o adversário. Marca o primeiro golo de grande penalidade à passagem dos 27 minutos e a partir daí fez desabar sobre os malianos uma avalanche ofensiva. Duas bolas ao poste mais uma mão cheia de boas oportunidades de golo. Mputu coloca os defesas contrários agarrados aos rins. Mas o maior espectáculo desenrola-se nas bancadas. A claque do Tout-Puissant (Todo-Poderoso), acompanhada por sete cornetas e mais uns tantos tambores, não se cala desde o início até ao fim do jogo. “Fizemos 2000 quilómetros de autocarro durante quase uma semana para estar aqui. Temos de apoiar a nossa equipa”, diz um dos adeptos.

Foto: João Henriques.

Apesar de ter sido fundado por uma congregação religiosa em 1939, os cânticos do Mazembe não se baseiam em melodias eclesiásticas. São, sim, uma explosão de ritmo e movimento comandada por três excêntricos animadores. Um deles, de olhos esbugalhados, usa uma bata de médico, barba longa e uma luva de cada nação. Outro, o líder do grupo, ergue uma pele de um felino, do seu escalpe soltam-se algumas tranças longas e tem estrelas negras e pretas tatuadas por todo o tronco despido. O último passa o jogo a girar uma roda de bicicleta na testa. Com tamanho arraial Trésor Mputu e Alain Kaluyitukadioko não podiam deixar de pôr um ponto final no jogo, com dois golos na segunda parte. Resultado final: 3-0. Após a obtenção do segundo golo, o craque do Mazembe dirigiu-se a João Henriques e pousou para a foto. Também prometeu dar-lhe a camisola de jogo mas, infelizmente, não pudemos esperar que saísse do balneário pois tivemos que ir a correr para o bar português onde, minutos depois, começava a decisão do campeonato português. Um dia totalmente dedicado ao futebol com imagens inesquecíveis.

Foto: João Henriques.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes foram de Portugal à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup. Foi mantida a grafia original, de português de Portugal.