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A Copa do Mundo de 1978 sob o olhar da revista Placar

Eric Moreira Profitti

Pretendemos neste texto apontar, mesmo que brevemente, a forma como a revista Placar, da editora Abril, noticiou e discutiu as principais questões envolvendo a participação da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1978, realizada na Argentina.

A cobertura esportiva da Copa na Argentina começou a ser realizada com mais intensidade a partir de maio de 1978. Na edição 422 a revista de esportes da editora Abril dedicou grande espaço para mostrar a preparação da seleção brasileira. Nesta edição encontramos um dos poucos elogios da Placar ao treinador da seleção, Claudio Coutinho, que teve paciência ao esperar a recuperação do artilheiro Reinaldo. Ao divulgar a “seleção do povo”, uma pesquisa que elegeu os jogadores preferidos dos brasileiros, a Placar apontou fortes semelhanças entre os convocados de Coutinho e os mais votados pelos leitores da revista.

Na edição 423, ainda antes da estreia da seleção brasileira na Copa, a Placar procurou destacar o forte planejamento da equipe comandada por Coutinho:

Tudo o que tinha de ser feito, do mais complicado problema técnico à listagem de material esportivo, foi pensado, planejado, discutido e executado com a seriedade de um plano de guerra (Placar, 1978, 423: 05).

Ainda na mesma matéria que tratou do planejamento e preparação da seleção para o mundial a Placar acusou o uso da imagem da seleção brasileira por parte do governo Geisel. Lembrando a relação entre Médici e o time tricampeão no México, a revista indicou que a vitória da seleção nacional seria muito importante para a popularidade da ARENA.

Capa da revista Placar n. 423 (reprodução).

Já na edição 424, a Placar trata dos dois jogos iniciais da seleção brasileira na Copa do Mundo. A equipe brasileira empatou contra a Suécia e Espanha, e por esta razão foi muito criticada pelos articulistas da Placar. Divino Fonseca, por exemplo, ao falar que a torcida começou torcendo pelo Brasil, mas logo desistiu e passou a gritar “Argentina” afirmou que:

Era o protesto contra o futebol defensivo, que não chega a ser surpresa quando praticado por europeus, mas que decepciona se o praticante é sul-americano, especialmente brasileiro (Placar, 1978, 424: 07).

O estilo de jogo da seleção pareceu ser um dos principais temas tratados pela revista durante a Copa de 1978. Foram inúmeras reclamações sobre o excesso de defensivismo e covardia da seleção. A Placar, como indica a citação mencionada anteriormente, ressaltou em diversos momentos que o futebol sul-americano e principalmente o brasileiro, possuíam um estilo completamente diferente do que foi apresentado na Argentina.

Capa da revista Placar n. 424 (reprodução).

Desta forma, o estilo de jogo nacional baseado na arte, na ginga, na malandragem e individualidade dos jogadores, constantemente relacionado com a própria identidade do país, foi muitas vezes exaltado e os articulistas da Placar pareciam exigir que estas características estivessem em campo na Argentina. Placar chega a citar até o Cardeal Arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns que teria também reivindicado a volta do futebol “à brasileira”:

O que queremos, nesta Copa do Mundo, é que o selecionado Nacional jogue à maneira brasileira. Com arte e alegria, a favor de todos nós. E com respeito diante do adversário. Sem guerras de nervos, nem mesmo de prestígio. A bola que está em campo é a bola de todos os brasileiros e não só de uma equipe ou de uma vontade alheia ao povo (Placar, 1978, 425:74).

O treinador Coutinho foi acusado pela revista como o principal responsável por este estilo de jogo “exógeno” às características nacionais. O modo defensivo como escalou sua equipe, as muitas “teorias” e a pouca experiência foram as principais criticas ao comandante da seleção. Na edição 427, por exemplo, sobre o jogo que proporcionou ao Brasil a terceira colocação no mundial, o articulista da Placar José Maria de Aquino afirmou: “Custou. Mas, finalmente nossa seleção resolveu deixar as teorias de lado e jogar a maneira que se sabe – à brasileira” (Placar, 1978, 427:05).

De acordo com a Placar, o fraco desempenho da seleção no início da competição passou a incomodar diversos setores da sociedade, indicando, assim, a importância que tinha a Copa do Mundo daquele ano:

Os protestos da torcida ganharam as ruas, também, da maioria das cidades brasileiras. No bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, outro enterro simbólico e faixas pouco estimulantes para o técnico da seleção[…] (Placar,1978, 425: 74).

Na edição 427, a Placar em seu editorial critica fortemente o terceiro lugar conquistado pela seleção brasileira na Argentina. O texto afirma que o terceiro lugar não foi uma má colocação, porém o que mais incomodou os brasileiros foi que “o futebol da marca brasileira não esteve na Argentina” (Placar, 1978, 427:03). Novamente Coutinho foi apontado como o grande culpado pelo futebol apresentado e principalmente pela projeção de uma imagem negativa do Brasil para o mundo inteiro.

Capa da revista Placar n. 427 (reprodução).

Além das fortes criticas ao modo de jogar da seleção, na edição 427 podemos encontrar novamente acusações sobre o uso que o governo brasileiro pretendia fazer da seleção. Placar traz um balanço de toda a preparação da equipe brasileira para a Copa de 1978 e em diversos momentos cita a tentativa de usar a seleção para uma “política de pão e circo”.

Outra questão abordada na edição 427 é a do regionalismo. Ao falar da indecisão sobre a troca de técnico logo no começo da preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 1978, Placar afirma que havia uma “guerra regionalista” entre paulistas e cariocas. De um lado, os cariocas que queriam a mudança de treinador, de outro, os paulistas refutavam a ideia.

Sobre esta questão do regionalismo, podemos apontar que apesar da Copa do Mundo ser muitas vezes apontada como um momento de união nacional, notam-se tensões, brigas e acusações entre torcedores e até jornalistas de diversas regiões do país durante a Copa do Mundo de 1978. Nas cartas dos leitores, as discussões e acusações entre torcedores de diferentes estados foram recorrentes, por exemplo, quando um paulista afirma:

A seleção carioca de Coutinho foi apenas fazer turismo na Argentina, pois a brasileira ficou em São Paulo, o único Estado realmente capaz de formar uma seleção para ganhar a Copa (Placar, 1978, 426: 47).

Pretendemos neste breve texto apenas apontar algumas questões presentes na revista Placar durante sua cobertura da Copa do Mundo de 1978. Obviamente, muitas questões e discussões importantes não foram tratadas aqui. No entanto, pudemos indicar que durante esta competição, realizada em um período tão importante para a história do país e também do futebol nacional, as questões da identidade do futebol nacional, do uso político da seleção e o regionalismo tiveram grande destaque na Placar durante a Copa do Mundo de 1978.