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A cultura de assistir o futebol em bares e restaurantes e os direitos de imagem

Ricardo André Richter

O objetivo de trazer este fato à tona é analisar o desdobramento que se deu com a popularização da cultura de assistir a transmissão de jogos em locais públicos durante a Copa do Mundo de 2006. Para exemplificar, trago um episódio ocorrido em 2008 na Europa, referente à transmissão de jogos de futebol pela televisão em bares e restaurantes na Alemanha.

Tanto em alguns países europeus, como no Brasil, já era comum os amantes do futebol se reunirem em estabelecimentos públicos para assistir aos jogos de futebol, sejam jogos dos respectivos campeonatos nacionais, da Copa da UEFA, da Liga dos Campeões ou de torneios de seleções. Esta realidade já recebeu a atenção de estudos nas áreas do esporte, comunicação e publicidade1 . Um dos principais motivos que contribuiu para esta cultura é o fato dos direitos de transmissão estarem principalmente com canais de TV paga. Além disso, ao se reunirem em grupos de espectadores as transmissões se tornam pequenos eventos2 e promovem um prolongamento da sensação de estar assistindo ao jogo “ao vivo” no próprio estádio e compartilhar a experiência com outras pessoas. E no caso específico dos jogos de seleções proporciona um espaço comum e socializador de apoio aos representantes do seu país, ou seja, uma forma de patriotismo esportivo.

Schlossplatz Stuttgart. Foto: schnaidt68 – Flickr (Creative Commons).

No ano de 2008, enquanto milhões de europeus estavam ansiosamente aguardando o início da principal competição europeia de futebol entre seleções, os donos de bares e restaurantes estavam indignados, tentando contornar um “problema” devido às exigências da UEFA – entidade organizadora do Eurocopa 2008 – sobre as reproduções das transmissões das partidas pela TV.

O boom dos “Public Viewing” durante a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha, difundiu ainda mais a cultura de assistir aos jogos em público, quando 21 milhões de torcedores assistiram aos jogos pelos telões nas doze cidades promotoras do “Fan Fest”. A popularização deste hábito estava na mira dos dirigentes da UEFA havia algum tempo, como uma possível captação de recursos através dos direitos de imagem, intenção efetivada em 2008. Conforme estabelecido pela União das Associações Europeias de Futebol – UEFA, seria cobrado um valor de seis euros por jogo, somado a um valor calculado sobre o metro quadrado da tela da TV (telão) – caso tivesse um tamanho diagonal maior do que três metros – em estabelecimentos comerciais como bares e restaurantes que quisessem transmitir os jogos da Eurocopa 2008. Esta decisão deixou os empresários do setor revoltados.

Fan Fest em Munique reuniu cerca de 1 milhão de pessoas. Foto: Ricardo André Richter.

Em Munique, no sul da Alemanha, os donos de locais com transmissão em telão protestavam, se negando a satisfazerem às exigências da UEFA, alegando ser injusto e inviável tal procedimento, pois a transmissão de todos os 31 jogos do torneio somaria um valor de aproximadamente 10 mil euros. Segundo um administrador entrevistado pelo jornal alemão BILD, “a UEFA deveria ser grata por reproduzirem e valorizarem seus eventos e não ainda quererem cobrar para isso”.

Considerando a proximidade da Copa das Confederações e da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, cabe ressaltar, no que se refere à reprodução das transmissões pela TV, que a FIFA possui uma regulamentação própria, no entanto, assim como a UEFA, regulamenta esta situação e cobra pelo fornecimento das licenças. Sendo que, durante a Copa do Mundo da África todo organizador de um encontro de pessoas para assistir aos jogos da Copa com a cobrança de ingresso era obrigado a providenciar uma licença junto à FIFA e o valor das licenças para transmissão variava de acordo com o número de visitantes. Neste caso, os bares e restaurantes ficavam isentos, por não haver a cobrança de ingressos.

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[1] GASTALDO, E. L. O Complô da Torcida: futebol e performance masculina em bares. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 11, p. 107-123, 2005.

[2] Para algumas pessoas “grandes” eventos, ou sub-eventos – considerando que são originados por outro evento, a partir daquele que acontece dentro do estádio de futebol.