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A desintegração iugoslava dentro das quatro linhas

Guadalupe Carniel, Thiago Cassis

Após uma boa Copa do Mundo em 1990, em que chegou até as quartas de final, e que caiu nos pênaltis frente a Argentina de Maradona e Goycochea, a seleção iugoslava despontava com uma geração repleta de bons jogadores, que prometiam muito para a última década do século XX. O primeiro grande torneio pela frente era a Eurocopa de 1992, sediada pela Suécia, mas, ao mesmo tempo, um conflito armado ocorria envolvendo diferentes repúblicas que compunham a Iugoslávia. O país se desintegrava de forma extremamente violenta e, em meio a isso, começa a nossa história, com a participação dos iugoslavos nas eliminatórias do certame continental.

O grupo da Iugoslávia contava com a Dinamarca, que embora tenha ficado fora da Copa de 90, ainda tinha em sua equipe remanescentes da lendária “Dinamáquina” de 1986, a Áustria, que tinha disputado o último mundial, a Irlanda do Norte, e a fraca seleção de Ilhas Faroe (região autônoma da Dinamarca).

As qualificatórias para a Eurocopa de 1992 começaram no dia 12 de setembro de 1990. Pelo regulamento, todos deveriam se enfrentar em jogos de ida e volta, e apenas o melhor colocado garantiria vaga no torneio continental. A Iugoslávia venceu na primeira partida a seleção da Irlanda do Norte fora de casa, na cidade de Belfast, por 2 a 0, e o macedônio Pancev, marcou um dos dez gols que viria a fazer para se tornar o artilheiro das eliminatórias. Naquele jogo, entraram em campo pelo lado iugoslavo, três atletas sérvios, três croatas, três macedônios, um montenegrino e um bósnio, Hadžibegić, o capitão.

O Estrela Vermelha brilha na Europa

Uma semana depois, no dia 19 de setembro, o principal time do país, o Estrela Vermelha, clube de Belgrado, então capital da Iugoslávia, fazia sua estreia na Copa dos Campeões (hoje conhecida como Champions League). O empate em casa contra os suíços do Grasshoppers não foi dos mais animadores para a sequência da equipe no torneio, afinal em uma época onde a competição era disputada em confrontos eliminatórios desde o princípio, os suíços poderiam empatar por zero a zero jogando em seus domínios para avançar. Dos atletas que entraram em campo pela seleção, uma semana antes, na estreia iugoslava, três estiveram em campo também na partida da Copa dos Campeões, entre eles o artilheiro Pancev.

Mas os resultados para os iugoslavos, dentro do campo, foram os melhores possíveis no restante de 1990. A seleção terminou o ano com uma vitória crucial frente a Dinamarca, em Copenhagen, por dois a zero. Gols do bósnio Baždarević e do croata Jarni. Quanto ao Estrela Vermelha, a equipe alcançou às quartas de final após eliminar os escoceses do Rangers.

No ano de 1991, a seleção nacional obteve a classificação para a Eurocopa de 1992, com diversas etnias, como era constituída em boa parte do século XX, tendo sérvios, croatas, bósnios, eslovenos, macedônios e montenegrinos.

Enquanto isso, o Estrela Vermelha conquistou a Copa dos Campeões e, no final do ano, o torneio Intercontinental, frente ao Colo-Colo, confirmando a força daquela brilhante geração, que seria separada em questão de meses…

Estrela Vermelha campeão da Champions League de 1991 com a brilhante geração iugoslava. Arte de Marija Markovic.

O verão de 92

A Iugoslávia carimbou o passaporte para a Eurocopa da Suécia jogando contra os austríacos, no dia 13 de novembro de 1991, em Viena. Uma convincente vitória por dois a zero. Gols do sérvio Lukić e do montenegrino, e genial, Savićević. A equipe que entrou em campo era formada por três atletas bósnios, dois montenegrinos, dois eslovenos, três sérvios e um macedônio. O treinador, Ivan Osim, era de origem bósnia.

Na escalação, que trouxe o bom resultado dos gramados austríacos, é notável a ausência de jogadores croatas. Os atletas oriundos da Croácia fizeram sua última participação defendendo a Iugoslávia no dia 16 de maio de 1991, frente a equipe de Ilhas Faroe. No dia 25 de junho de 1991 a Croácia declara sua independência, aprofundando o conflito na região, e os atletas do país não voltaram a vestir a camisa iugoslava. O último croata a marcar um gol pela seleção da Iugoslávia foi Davor Šuker na partida contra os feroeses. A Federação Croata de Futebol só conseguiria filiar-se à FIFA em 1992, mas já vetava que seus jogadores defendessem a Iugoslávia. A Eslovênia também já vivia um processo de separação avançado, porém, os atletas ainda disputaram aquela derradeira partida de 91.

Atletas de cada república que compunha a Iugoslávia que foram convocados nas eliminatórias para a Eurocopa de 1992.

Com os conflitos se acirrando no final de 1991, os últimos dois jogos (lhas Faroe 0 a 2 Iugoslávia, em 16/10/1991 e Áustria 0 a 2 Iugoslávia, no dia 13/11/1991) trazem convocações bem diferentes do time que vinha sendo convocado.

A última campanha da antiga Iugoslávia.

O ano de 1992 trazia no calendário da seleção iugoslava de futebol um amistoso contra a Holanda, a ser realizado no dia 25 de março, como parte da preparação para a Euro daquele mesmo ano. Em Amsterdam, a Iugoslávia foi derrotada por dois a zero. A equipe que foi a campo ainda se assemelhava muito com a formação que fez a última partida no ano anterior, exceto pelo fato que dessa vez, trazia entre os titulares quatro atletas bósnios.

No dia 27 de maio, viaja até a Itália para jogar um amistoso contra a Fiorentina, com torcedores protestando contra a presença dos Plavi[1]. No dia seguinte (28), a delegação iugoslava seguiu para a Suécia, sendo a primeira a chegar para disputa da Eurocopa com: oito sérvios (Stojkovic, Stanojkovic, Mihajlovic, Jokanovic, Dubajic, Jugovic, Petric e Jakovljevic), seis montenegrinos (Lekovic, Radinovic, Brnovic, Mijatovic, Vujacic y Savicevic), um bósnio muçulmano (Omerovic), um macedônio (Najdoski) e dois eslovenos (Milanic e Novak).

O genial Dejan Savićević. Arte de Marija Markovic.

Ivan Osim, técnico da seleção até este período, abriu mão do cargo depois que o vilarejo onde sua família viva em Sarajevo foi bombardeado, sendo substituído pelo seu assistente, Ivan Cabrinovic (o único croata da seleção). Além disso, a maior parte dos jogadores bósnios (como Hadzibegic, Bazdarevic e Kodro) decidiram não ir à seleção da Iugoslávia para o Euro devido à guerra em sua república. O macedônio Darko Pancev, que acabara de ser contratado pela Inter de Milão, fez o mesmo e abandonou a equipe, além do fato de sua República da Macedônia estar prestes a proclamar sua independência.

Portanto, apenas jogadores da Sérvia e Montenegro (ou que atuassem em clubes sérvios ou montenegrinos, casos de Fahrudin Omerovic, Dzoni Novak, Vujadin Stanojkovic ou Ilija Najdoski) estavam prontos para jogar nesse torneio.

Imediatamente, a FIFA solicitou a lista dos jogadores convocados, sem explicar os motivos, sendo que os jogadores poderiam ser inscritos para o torneio até o dia 31 de maio.

O presidente da UEFA à época, Lennart Johansson afirmou no mesmo dia para uma rádio sueca que “tudo indicava que as sanções impostas pela Comunidade Europeia não incluíam o esporte e que a Iugoslávia talvez pudesse participar”. Porém, que também dependia da polícia para avaliar a segurança dos atletas.

O primeiro-ministro britânico, John Major, ameaçou proibir que a seleção inglesa viajasse para o torneio, caso os Plavi não fossem excluídos. Lembrando que o primeiro jogo da Inglaterra na competição era contra a Iugoslávia.

A Eurocopa começaria no dia 10 de junho, porém, poucos dias antes da bola rolar na Escandinávia, em 30 de maio, a ONU emite a resolução de número 757 (leia aqui na íntegra), que apresenta em seu conteúdo a seguinte orientação:

“Take the necessary steps to prevent the participation in sporting events on their territory of persons or groups representing the Federal Republic of Yugoslavia (Serbia and Montenegro)”

Neste mesmo dia, reuniram-se FIFA e UEFA para decidir se aprovariam mudanças no regulamento e aproveitaram para decidir o futuro da Iugoslávia, que foi vetada, devido às sanções impostas contra a Sérvia pelos ataques à Bósnia-Herzegovina.

A seleção da Iugoslávia no álbum de figurinhas da Eurocopa de 1992, a seleção que não entrou em campo…

Jogadores e comissão técnica retornam imediatamente para os Balcãs. A brilhante geração iugoslava já se esfacelava, enquanto o sangrento conflito estava em andamento, e ainda se estenderia até 1995 (estima-se que 140 mil pessoas perderam suas vidas nas “guerras iugoslavas”). No lugar da Iugoslávia, a Dinamarca, segunda colocada do grupo das eliminatórias, foi convidada a participar da competição, e, para surpresa geral, conquistou o título. Os atletas iugoslavos brilharam no restante da década e de suas carreiras, ostentando diferentes camisas e defendendo diferentes bandeiras. Mas a pergunta que sempre ficará no ar, ou melhor, nas mentes e nos corações dos apaixonados pelo bom futebol é: até onde Savicevic, Pancev, Boban e companhia teriam chegado jogando lado a lado. Nunca saberemos.


[1] Em sérvio significa “azul”. Forma como era chamada a seleção iugoslava por seus torcedores.


Kalasnjikov de Goran Bregović é a música que acompanha essa história.

Revista Pelota em parceria com o Ludopédio publica nesse espaço os textos originalmente divulgados em sua página do Medium.