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A dimensão trágica do futebol e a violência contra a mulher

Danilo Barcelos, Naana Silva

Há no futebol uma dimensão trágica. Entendemos essa dimensão trágica a partir dos elementos constitutivos do jogo, pensado numa relação próxima àquela do teatro grego clássico[1]. A primeira relação possível de ser destacada está na dinâmica que ali se processa. Assim como a tragédia, o jogo tem curta duração de tempo, atores o tempo todo em cena, uma plateia e tensões sociais que estão mimetizadas em algum nível. Podemos pensar essa mimesis no futebol na medida em que ali se representa um confronto entre grupos, reduzindo o jogo ao embate representado do domínio e da luta por um território. Seja no embate entre dois clubes ou no confronto entre as seleções das nações, o jogo de futebol mimetiza um confronto político e bélico entre dois grupos de igual tamanho, e a vitória, a derrota ou o empate nesse embate se dá na dinâmica imprevisível da partida. Nesse sentido, naquele embate mimético, plateia e atores acompanham o factum trágico: as tensões de uma luta simbólica por poder, vitória e glória.

Nesse espetáculo-jogo, como em qualquer espetáculo trágico, uma violência apresenta-se latente. Lembremos a tragédia Édipo Rei, de Sófocles. Nela, o destino trágico de Édipo é marcado por uma violência: o assassinato de Laio, seu pai, cometido por Édipo no seu retorno a Tebas. No destino de Épido, a dor da verdade de saber-se assassino de seu pai e casado com sua mãe Jocasta obrigam-no, por vergonha, a cegar-se e a vagar. Mesmo que no futebol uma das partes do espetáculo alcance a glória e a alegria da vitória, ou mesmo que o empate se dê, na dinâmica do jogo, que tem por base a mímesis do confronto, está nela presente a marca latente dessa violência: toda guerra é, em sua essência, violenta. 

Isso quer dizer então que a violência latente que está presente na dinâmica simbólica do jogo de futebol é sublimada graças à força mimética que transforma guerra em disputa, e que, ao fim do confronto, tudo volta ao equilíbrio sem que ninguém morra. A violência latente ali vivenciada é constantemente vigiada e controlada pela arbitragem, responsável por contê-la entre os jogadores. Há uma lei, uma ordem presente que tudo controla e as regras do jogo permitem, de forma decisiva, que um jogo excessivamente tenso não acabe, por fim, num grande ato de violência. O elemento limitador da violência do futebol, no sentido de manter as tensões dentro de uma ordem de conduta – e não de valores morais propriamente dita – está presente no trio de arbitragem em nível similar ao que o coro ocupava na tragédia[2]

Nessa dinâmica do jogo, essa violência latente acaba se espalhando e envolvendo os participantes do teatrum que é a partida de futebol. Se entendermos o jogo a partir da lógica da representação mimética do espetáculo cênico, o pathos da partida – as tensões em busca da vitória, as narrativas que se constroem nos embates entre os atores-jogadores, a representação do ser humano em luta ali diante dos olhos no teatro-estádio-arena, como no teatro grego clássico – aproxima a plateia-torcida do que ali se processa, experimentando, por fim, a catarse trágica de que fala Aristóteles na Poética: uma vez aproximado das dores dos heróis, os espectadores se libertam de suas próprias dores.

Porém, nessa lógica de violência latente que contagia a plateia-torcida, outras violências se desdobram e muitas delas saem da ligação direta com o espetáculo. Seja a violência das torcidas, que reproduzem o embate em campo e tiram-no da representação do confronto, trazendo-o para o confronto de fato; seja nas violências verbais dos adversários futebolísticos, entrando na esfera das violências sociais e históricas que precisam ser veementemente combatidas e rechaçadas: a homofobia, o racismo e o machismo presentes nas violências verbais dos torcedores.

A violência latente que se desdobra está na relação entre o futebol e o torcer, pois nela existe uma ligação do sofrimento do torcedor oriunda do pathos trágico, ou seja, do sofrimento do que ali se processa no espetáculo-jogo. Por ser essa uma aproximação entre o sofrer do jogo e o sofrer do torcedor (todos presos no sentido grego da palavra pathos, que significa “sofrimento”), a relação do torcer é, em alguma medida, essencialmente passional. E nessa relação não entra nenhum juízo de valor, como se a paixão fosse boa ou ruim. Apenas de que a paixão do torcer é um modo catártico de sofrimento que vivenciamos de forma similar àquela que vivenciamos no trágico clássico (resguardadas as devidas proporções e contextos históricos), podendo, dessa forma, pensarmos a dimensão trágica do futebol como uma dimensão que, em latência, é uma relação violenta e de violência com o sofrer. Isso não quer dizer, de saída, que o futebol é uma prática esportiva que patrocina a violência ou que o torcer seja violento em sua essência. Quer dizer que há na relação uma violência latente oriunda do que ali se mimetiza, que pode, uma vez ou outra, sair do controle devido à relação catártica que o espectador-torcedor desenvolve no seu contato com o futebol.

Entendendo então que essa violência como latência (e não como causa) da relação do sujeito com o jogo e de como ele age no torcer, podemos problematizar os seus desdobramentos. E para tanto, vamos a outra manifestação humana de arte que não o teatro, usado acima para a relação que propusemos para entender a dimensão trágica do futebol. Poderíamos usar um exemplo estatístico, mas recorremos à arte por entender que, se nela isso está posto, o que se dá socialmente é muito mais profundo e grave. Perceberemos como essa violência pode figurar na música brasileira e em que medida é preciso problematizá-la para pensarmos não só numa relação menos sofrida com o futebol como também as consequências que isso engendra se não trazidas à luz.

O futebol e a música brasileira estão intimamente ligados. Os exemplos da música popular são vários e vão desde a menção aos jogadores e seus lances, a épocas áureas do futebol, passando pelas marchas de carnaval para determinados atletas, chegando a pontos nevrálgicos, em que tensões, violências e problemas sociais relacionados ao futebol surgem na música. Dentre essas violências, gostaríamos de dar destaque a uma, em especial, porque traz em si um volume considerável de elementos que nos permite uma análise um pouco mais detida.

Torcida mista no GreNal 404. Foto: Divulgação/SC Internacional/Grêmio FBPA.

A música da qual aqui tratamos é “Gol anulado” de Aldir Blanc e João Bosco, lançada pela primeira vez no disco Galos de Briga, de 1976, gravado pela RCA – Rio de Janeiro. Do disco, poucas músicas fizeram efetivo sucesso, com destaque para “Incompatibilidade de gênios”, que traz a história de um casal que propõe, para fugir da monotonia do casamento, um “troca troca”; “Ronco da cuíca”, música metalinguística que critica o mando de se parar o toque do instrumento, que os “home” mandaram calar, fazendo alusão, entre outros temas, ao silêncio imposto à música pela censura da Ditadura; e “O Rancho da Goiabada”, imortalizado posteriormente pela voz de Elis Regina, que conta a rotina dos trabalhadores e seus sonhos humildes de comida quando espantam a tristeza num bar, onde são todos efetivamente iguais.

O que chama atenção em “Gol anulado” é como ela destoa, pela naturalização da violência, dos temas das demais músicas de cunho político ou crítico. A letra da canção conta a desilusão amorosa de um homem que descobre que sua esposa não era, como ele imaginava, vascaína. Se a letra dessa música fosse só sobre a desilusão amorosa em torno da descoberta de ela ser flamenguista, não entraríamos no tema. Porém, há na letra da canção, já nos primeiros versos, uma brutal referência à violência doméstica: “Quando você gritou mengo / no segundo gol do Zico / tirei sem pensar o cinto / e bati até cansar”.

Num primeiro momento seria possível pensar que a música critica a violência ali colocada ao denunciá-la na canção. Mas, depois do ato, a voz que se enuncia na música, esse “eu” da canção, a todo momento reafirma, na verdade, a tristeza de se desiludir e que “a alegria / de quem está apaixonado” é “a falsa euforia / de um gol anulado”.

Toda essa canção, então, traz como tema central não a violência em si, mas a desilusão amorosa; essa falsa alegria que traz a paixão quando, ao idealizarmos o outro, perdêmo-lo de vista e cremos no que a paixão nos faz crer, sendo, pois, “falsa euforia”. Mas, não é possível passar sem críticas pelos versos iniciais da canção. E, claro, é impossível não problematizá-los.

É claro que a canção não diz a quem a ouve que por frustração deve-se bater na mulher, em especial por uma justificativa qualquer. Mas de que, em momentos de extrema ligação com o torcer, a violência contra a mulher se naturaliza. O que a música nos coloca como ponto central é de que há, na relação do torcedor com o futebol, uma ligação que se sobrepõe a devidas atividades éticas de conduta. Como se o torcer, por si, desligado de seus contextos, contingências e processos, justificasse qualquer situação social. Nesse sentido, nos versos da música, a naturalização da violência contra a mulher que, por ser flamenguista, apanha de cinto do marido vascaíno, não só reforça estereótipos como também põe evidentemente em questão a problematização e a necessidade de se estabelecer na relação dos homens com o torcer uma atividade anti-machista.

A música é, no fim, um retrato do libelo machista em muitos níveis. A relação do casal na música é também desigual: a mulher é uma rainha porque não teme o batente, “se garante na cozinha” e precisa ser “Vasco doente” para ser motivo de exaltação contente do marido. E que o gol do Zico é o motivo do fim do amor, que faz com que o rádio siga, até o momento em que ele canta, desligado.

Num país onde mulheres sofrem violência doméstica cotidianamente, justificadas das mais variadas formas, o futebol e o torcer não se afastam desse problema. Mesmo que haja no futebol uma violência latente oriunda da sua dimensão trágica, essa não pode, em nenhum nível, ser materializada. E a materialização da violência latente é reflexo de uma sociedade que, profundamente violentada por sistemas desiguais, vê na relação com o futebol um lugar de vazão. Porém, esse lugar de vazão precisa ser também um lugar de contenção para que a violência latente não se materialize e não saia da esfera da representação mimética. Assim, um dos caminhos para a contenção da violência latente na relação com o torcer é a não naturalização da violência, em nenhum nível, e no caso específico da violência doméstica, a construção política e urgente de uma educação não só feminista, mas antimachista, que passe a respeitar e a entender a mulher como igual e dona de seus desejos, sejam eles o de torcer, e o direito de poder gritar o nome de seu clube em qualquer gol.

Nesse caso em específico, a naturalização da violência contra a mulher em todos os níveis, em especial no que diz de sua relação com o futebol deve ser, sempre, combatida. Não basta só criticar a música ou relativizar o que está nela colocado. É preciso lembrar que a letra naturaliza uma violência comum: mulheres que apanham por causa de futebol por não torcerem pelos clubes dos maridos, por não se submeterem. Da mesma maneira, é necessário o combate a qualquer valorização ou associação do futebol com a violência. Isso porque é preciso terminar o que o propósito do jogo simboliza: a sublimação da violência transformada em espetáculo e em alegria, em lugar de libertação das dores. Enquanto não tratarmos do combate à essas relações e problematizações, não conseguiremos vencer, de forma eficaz, nem a violência que sai do controle nos estádios, nem a violência que é consequente da relação com a tensão de uma partida, como é a violência doméstica contra a mulher, como na música, muitas vezes resultado dessa relação torcedor-torcida. Entender a violência latente do futebol a partir de sua dimensão trágica pode ser uma saída para conter a violência que sai do controle. 


[1] Sobre o trágico grego, cf.  VERNANT, Jean-Pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e tragédia na Grécia. Vários tradutores. São Paulo: Perspectiva, 2014.

[2] Não há, entre os pesquisadores do tema, um consenso de que lugar o coro ocupava no espetáculo trágico, mas há uma concordância de que a noção moral do espetáculo e o limite que o público deveria acompanhar, ou seja, a lição que deveria ser passada era orientada pelas vozes do coro.