15.1

A emoção do futebol no rádio

Luiza Aguiar dos Anjos

Meio dia de um domingo de setembro. Carlos se apronta para ir ao estádio assistir ao jogo do seu time do coração. Ele faz o check list final para garantir que não se esqueceu de nada. Ingresso: ok. Certeira de identidade: ok. Dinheiro: ok. Ah, claro, o rádio de pilha: ok. Pronto, nada mais lhe falta.

Carlos não é muito diferente dos demais expectadores do evento por complementar o espetáculo imagético com a locução do rádio. Quando perguntamos a ele o porquê do uso quase ritualístico do instrumento, ele diz que é para se informar sobre os detalhes que costumam lhe escapar à vista sob a tensão do jogo, também para saber dos resultados das outras partidas ou ouvir o que os comentaristas tem a dizer. No fundo ele sabe que não é só isso. O rádio possui uma magia própria.

Quando não vai a campo, Carlos também opta pela narração do rádio em detrimento à da televisão. Ainda que antecipadamente informado pelo áudio dos acontecimentos a serem vistos posteriormente na tela, ele põe a TV no mute e aumenta o som do rádio ao lado. Ele entende que assim o jogo parece mais emocionante. Nada de muito surpreendente. Pressupondo que o ouvinte não tem a imagem para tirar suas impressões, o radialista se vê no direito e no dever de emitir emoção em cada passe de dois metros, em cada corner rebatido com a canela, em cada finalização meia-boca. E faz ele muito bem.

 Por vezes, Carlos nem mesmo tenta desmascarar o bem intencionado locutor esportivo com as imagens da TV. Ele se atém única e exclusivamente ao som do rádio de pilhas. Numa grande brincadeira, imagina cada lance narrado. Nessa partida que só ele viu, se dá até mesmo ao direito dos times não inverterem o lado do campo no intervalo.

Depois do jogo, claro, ouvir os comentários. Escuta o que os comentaristas têm a dizer e, como se estivesse conversando com seus amigos na sala de casa, concorda ou retruca seus argumentos. Travam diálogos também nas mesas redondas da hora do almoço, no carro a caminho de casa. Carlos nunca viu o rosto de nenhum deles, mas seria incapaz de confundir suas vozes.

Longe de mim, dizer que as transmissões de rádio não têm valor informativo. Muito pelo contrário. Penso que esse espaço midiático deve ser utilizado como um espaço de informação de qualidade, provocando a reflexão e possibilitando a expressão do ouvinte quanto a assuntos diversos do mundo futebolístico. Sim, claro que todo torcedor quer saber a escalação de seu time e ouvir comentários sobre o arranjo tático da equipe, mas não será isso só uma pequena fatia do que é o futebol? Porque não discutir também sobre o novo estatuto de defesa do torcedor? Ou sobre a formação de jogadores nas categorias de base dos clubes? Ou a realidade do futebol feminino? Mais do que falar aos ouvintes o que eles desejam saber, o rádio – ou qualquer outro meio de comunicação – pode instigá-los a refletir sobre algo que eles nunca pararam para pensar. E, completando, será que para falar racionalmente de futebol precisamos isentá-lo de emoção?

Os programas de futebol em rádio devem considerá-lo enquanto uma prática cultural que afeta a sociedade – e é por ela afetada – em inúmeros aspectos e que esses aspectos perpassam os planos racionais e emocionais. Penso, inclusive, que o futebol se mantém como um forte assunto em diversas estações de rádio em grande parte pela característica emocional que carrega. É isso que faz com que certas pessoas, tendo a opção da TV, com imagens, replays, tira teimas e inúmeros outros recursos, ainda prefiram o rádio. É a emoção que ele é capaz de despertar. Que os idiotas da objetividade me desculpem, mas penso que o futebol se tornará absolutamente sem graça quando nele não houver mais espaço para o sonho e a imaginação. E enquanto isso não acontecer o rádio ainda irá sobreviver. Para a alegria de todos os Carlos.