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A era Arteta no Arsenal: fim da querofobia gunner? (Parte I)

Ana Paula Florisbelo da Silva

Foto: Reprodução/Twitter

A querofobia é uma característica presente em muitos fanáticos por futebol. Costuma ser mais recorrente em torcedores de clubes com um passado glorioso, mas que agora estão passando por momentos problemáticos, ou times em ascensão que entregam bons jogos e resultados, mas ainda não conseguem estar entre os melhores. Ou ainda aqueles que não permanecem por muito tempo no topo da tabela de suas ligas e competições, ganham alguns títulos esporádicos, mas têm potencial e capacidade para alcançarem lugares altos. São aqueles times que não são tão ruins para que seu torcedor se resigne e se acomode com as piores colocações da tabela ou o meio dela, mas permanecem em uma odisseia agonizante para galgar os títulos que parece nunca chegar. 

Segundo o dicionário Michaelis, querofobia é o medo da alegria, da felicidade e de se divertir. Quando se tem medo de estar contente porque as experiências traumáticas anteriores te demonstram que, em breve, tudo desmoronará e se tornará frustração, fazendo-o se sentir iludido. Você não quer se alegrar, pois teme que algo catastrófico acontecerá em seguida. Quantas vezes você se empolgou com a performance de seu time, mas depois se lembrou dos fracassos anteriores e preferiu afastar as boas expectativas de títulos? Quis dizer aos quatro cantos que chegou a final de uma competição, mas teve receio de perder e ser zoado pelos amigos? Não festejou nem elogiou adequadamente os bons jogos de seu time porque ficou desconfiado quanto aos resultados posteriores, se lembrando das más performances do passado?

Você tenta confiar que a partida terminará bem, mas olha para atletas do time que costumam falhar e fica na expectativa de que irão perder a bola em uma jogada decisiva, que resultará no gol de empate do adversário. Que posteriormente abrirá o caminho para a virada, aos 45 do segundo tempo. Quer acreditar que tudo ocorrerá da melhor maneira e a presente temporada será melhor que a anterior, mas se lembra de experiências passadas em que venceram partidas importantes, para logo depois emplacar uma sequência de derrotas para times medianos, que impediram seu clube de terminar um campeonato em boa colocação. 

Esse sentimento não é uma novidade dos anos recentes para o torcedor do Arsenal. Em 1992, Nick Hornby descreveu no livro Febre de Bola essa mesma frustração:

“Ficam na frente no placar em Wembley e aí jogam fora o resultado; alcançam o topo da tabela da primeira divisão e param de jogar; empatam naquela partida de ida complicada fora de casa pra, em seguida, perder em casa no jogo de volta; ganham do Liverpool numa semana e, na seguinte, perdem pro Scunthorpe; seduzem a gente, […] e então as coisas tomam o rumo oposto. E sempre, quando o torcedor acha que previu o pior que podia acontecer, o time sai com uma nova.” (p. 128). 

Nas temporadas 2013-14, 2014-15 e 2016-17, Arsenal conquistou a Copa da Inglaterra (FA Cup) e a Supercopa da Inglaterra (Community Shield). Na temporada 2015-2016, um segundo lugar na tabela foi a melhor colocação para um time que, na década em geral, havia se acostumado a terminar sempre em quarto. Os títulos nas Copas e a vaga garantida na Champions League alimentavam a esperança gunner de dias melhores. Até que o que tínhamos como garantido foi perdido. 

Na temporada 2016-17, terminamos a Premier em quinto lugar, com a pior campanha da equipe desde a chegada de Arsène Wenger em 1996. Não ficávamos de fora do top 4 desde a quinta colocação em 1995-96, mas os títulos na Copa e Supercopa foram nosso alento. Na última Champions da década com a presença do Arsenal, estávamos no grupo A, mesmo grupo do PSG de Unai Emery, treinador espanhol com o qual iríamos cruzar em um futuro próximo. Caímos nas oitavas, feito repetido seguidamente desde a temporada 2010-11. Minha maior alegria naquela Champions seria a pintura de Mesut Özil contra o Ludogorets, no jogo de volta. Um gol digno de Puskás que, infelizmente, sequer recebeu a indicação naquela temporada. Como consolação para o gunner, o vencedor da premiação em 2017 seria o gol escorpião de Giroud (que obviamente não chegava aos pés da pintura de Özil).

Imagem: Pixabay

Na temporada 2017-18, Arsenal termina o campeonato inglês uma posição abaixo da anterior, em sexto. As discussões sobre a necessidade de renovação no clube atingem o seu ápice e, embora a torcida se sentisse grata por todas as conquistas sob a era Wenger, sabia que já não havia mais maneiras do time continuar sob o comando do técnico francês e, ao mesmo tempo, almejar o topo da tabela. Se antes haviam dúvidas, agora Wenger out parecia unânime. Arsène Wenger esteve à frente do clube por 22 anos, sendo o técnico com mais anos no time do norte de Londres, conquistando três títulos ingleses (com destaque para a temporada 2003-04, ganha de forma invicta), sete FA Cups e sete Community Shields. Nunca havia visto outro técnico à frente do clube, pois minha idade coincidia com os anos do Le Professeur nos gunners. A única vez que estaríamos em uma final em Wembley entre 2012 e 2020 sem conseguir vencê-la seria naquele ano, na Carabao Cup frente ao Manchester City. Não houve títulos para coroar o adeus de Wenger.

Unai Emery chegaria ao Arsenal na temporada 2018-19, ante a desconfiança de uns e o sentimento otimista de outros. Mas prevalecia a certeza de que a renovação havia chegado: após mais de duas décadas com o mesmo técnico, era tempo de mudanças. O ex-técnico do Paris Saint Germain parecia perfeito para a nova era na Europa League do Arsenal, pois ganhara por três anos seguidos a competição quando estava à frente do Sevilha (2013-14, 2014-15 e 2015-16). A dificuldade do técnico espanhol com o idioma inglês e os boatos sobre sua má relação com os jogadores no PSG no vestiário ligavam os alertas para sua capacidade de comunicação e relacionamento com o time. Seu “Good ebenin” cheio de sotaque ao início das entrevistas se tornou bordão na boca dos fãs.

O time de Unai Emery aos poucos ganhou a confiança da torcida, conseguindo uma invencibilidade de 22 jogos que se tornou a mais longa jornada sem perder desde 2007. A querofobia gunner, no entanto, acabaria se mostrando infalível: Arsenal termina a Premier fora do top 4, dependendo do título na Europa League para conseguir ir à próxima Champions. As contratações para a zaga se mostrariam ineficientes, escancarando a precariedade defensiva do time. A final da Europa League, para piorar a situação, seria perdida para o rival local, Chelsea, em um vergonhoso placar de 4 a 1, com direito à confirmação da infalibilidade da lei do ex, através de um gol de Giroud. A única felicidade viria com a conquista da golden boot da Premier através de Aubameyang, que terminou a temporada com 22 gols, junto com Sadio Mané e Mohamed Salah. 

A paciência e esperança com Unai Emery se veriam esgotadas na temporada seguinte (2019-20). O time apresentava um futebol totalmente apático e parecia perdido dentro de campo. Não havia mais prazer por parte da torcida em ver seu clube jogar e não me lembro de uma temporada em que decidi não assistir jogos ou os abandonei na metade, por tantas vezes. Aguardávamos incessantemente que a sequência de empates e derrotas com apresentações de um futebol pobre em qualidade terminasse. Muito de nós desejávamos inclusive que o time fosse eliminado da Europa League, caso isso significasse que a cabeça de Emery fosse finalmente pedida. 

Finalmente, no dia 29 de novembro, Unai foi despedido do clube, para o bem de todos e a felicidade geral da nação gunner. Em seu lugar entrou Ljungberg, que já havia treinado o sub-23 do clube e estava entre os assistentes técnicos do primeiro time. Sob a era Emery-Ljungberg, Arsenal obteve apenas 5 vitórias na temporada, com 5 empates e 8 derrotas. As especulações dos possíveis cotados para o cargo de treinador se arrastaram por todo o mês de dezembro, tendo um final no dia 20, quando o ex-jogador do clube e então assistente de Pepe Guardiola no Manchester City, Mikel Arteta, foi anunciado.


Como citar

SILVA, Ana Paula Florisbelo da. A era Arteta no Arsenal: fim da querofobia gunner? (Parte I). Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 41, 2020.