120.7

A estética da fome

José Paulo Florenzano

A trajetória do Náutico no Campeonato Nacional de 1972 continuava a ser marcada por uma sucessão de maus resultados. Depois do polêmico empate de 1 a 1 com o Santos, sobreveio a derrota para o Corinthians por 1 a 0 no estádio do Arruda. O ataque formado por Elói, Paraguaio e Galdino encontrava-se em plena estiagem de gols. No banco de reservas, Allan Cole tinha agora a companhia de Vasconcelos, meia armador contratado junto ao Alecrim, de Natal, jovem promessa que em meados da década de setenta iria se transferir ao Palmeiras com a ingrata missão de substituir Ademir da Guia. Ele atuara algumas partidas como titular, no Náutico, mas regressara à condição de regra três, vaivém ilustrativo das tentativas frustradas do treinador de chegar à formação ideal da equipe.

O confronto com o Botafogo, na quarta feira, 11 de outubro, assinalava o reencontro com Marinho Chagas. Uma torcedora do alvirrubro que lhe preparara uma recepção no Aeroporto dos Guararapes, espantara-se com a nova aparência do lateral potiguar, segundo ela, transfigurado em um “jogador hippie”[1]. Mas, a despeito do inesperado visual, no gramado ele continuava o mesmo, projetando-se ao ataque, cultivando o jogo ofensivo, firmando-se como uma das principais revelações do futebol brasileiro. De fato, depois de receber a Bola de Prata como melhor lateral esquerdo do Campeonato Nacional, premiação criada pela revista Placar, Marinho Chagas ver-se-ia catapultado, já no ano seguinte, para a Seleção Brasileira.

Em contraste com a ascensão meteórica do antigo ídolo, a equipe que o projetara descia até o fundo do poço após a derrota de 2 a 1 para o Botafogo. As coisas iam de mal a pior em todos os sentidos. Fora das quatro linhas, os salários dos atletas continuavam atrasados. Como se não bastasse, no casarão da Rua Santo Elias, onde o Náutico se concentrava, o fornecimento de água havia sido cortado por falta de pagamento[2]. Dentro de campo, as críticas ao trabalho de Gradim tornavam-se mais acerbas. Uma matéria publicada na revista Placar atribuía parte do insucesso da equipe à “retranca” montada pelo treinador, cuja opção tática, segundo o semanário esportivo, mantinha o ataque isolado, sem concatenação de jogadas, condenado a sobreviver dos dribles do ponteiro direito Elói, ou, ainda, dos cruzamentos do ponteiro esquerdo Galdino, sempre direcionados para o centroavante Paraguaio[3]. Foi nesse contexto de imensa pressão que Gradim teria “confidenciado” a amigos a intenção de dar um ultimato ao atacante jamaicano:

Ou esse gringo me mostra que sabe jogar, ou mando rescindir seu contrato.[4]

 Convém tomarmos com cautela as declarações imputadas ao treinador. Não devemos excluir a hipótese de que as palavras que lhe foram atribuídas talvez exprimissem muito mais a impaciência da diretoria do que propriamente a sua posição em relação ao astro rastafári. Com dificuldades de pagar em dia os salários dos atletas que suavam a camisa para retirar o alvirrubro das últimas colocações na tabela de classificação, ela se via constrangida a honrar os altos vencimentos do jogador estrangeiro que quase não contribuía com a equipe, mantendo-se na eterna condição de regra três. Sendo assim, podemos conjecturar que, se Gradim efetivamente impôs o ultimato, talvez o tenha feito atendendo a uma determinação da cúpula dirigente, interessada em forçar a saída de Allan Cole. O episódio, de qualquer modo, indica-nos com precisão o momento a partir do qual ele foi considerado carta fora do baralho.

Sem contar com o astro jamaicano, no dia 15 de outubro, em Recife, o Náutico via reacender-se a esperança remota de classificação ao superar o Sergipe por 3 a 0. Na rodada seguinte, em Salvador, mais dois pontos ao derrotar o Vitória por 1 a 0. A maré parecia ter mudado. Nem mesmo o assalto à concentração da Rua Santo Elias, o casarão localizado no “elegante bairro” do Espinheiro, arrefecia o entusiasmo despertado pelos últimos resultados[5]. O renascimento da equipe devia-se, sem dúvida, ao artilheiro Paraguaio, que reencontrara os caminhos das redes, mas se devia, também, ao desabrochar do futebol do meia-armador Vasconcelos, cuja habilidade técnica despertara desde o começo a atenção do treinador Gradim. Conforme pensava o Velho Mestre, o meio de campo se constituía no “coração” de toda equipe bem organizada; se ele pulsasse no ritmo adequado, todo o resto se arranjava[6].  

O renascimento do Náutico, contudo, evidenciava o ostracismo em que havia caído Allan Cole. O Diário de Pernambuco quase não o mencionava mais em sua cobertura jornalística. Somente por ocasião da partida contra o Bahia ser-lhe-ia concedida novamente alguma menção, mesmo assim, sob a forma de uma nota de rodapé. Às vésperas do clássico nordestino, marcado para o domingo, 22 de outubro, os integrantes do tricolor baiano dirigiram-se ao estádio dos Aflitos para a realização do derradeiro apronto. No entanto, foram surpreendidos pela presença no gramado dos atletas do alvirrubro que ainda não haviam concluído o treinamento. O técnico do Bahia, Silvio Pirilo, que aguardava atrás do gol o final do coletivo, não conteve o espanto face à presença em campo do jamaicano, indagando ao repórter quem era “aquele jogador com uma juba tão grande”[7]. A resposta já estava de certa forma implícita no teor da matéria.

A figura excêntrica de Allan Cole só atraía agora a atenção dos visitantes desavisados. Mas o “mundão” do futebol, como recorda-nos o adágio popular, costuma dar muitas voltas. Reanimado pelas duas vitórias consecutivas, o Náutico contava dar sequência à série positiva no Campeonato Nacional, vencendo o Bahia. Todavia, para decepção geral dos timbus, os tricolores da Boa Terra interromperam-na armando uma retranca intransponível, responsável principal pelo 0 a 0. Inconformados com o desempenho estéril do ataque, os quase doze mil pagantes que acorreram ao estádio do Arruda protestaram durante boa parte da peleja, elegendo o centroavante Paraguaio o alvo preferencial da frustração. Conforme o registro feito pela cobertura do jornalista Lenivaldo Aragão:

Torcedores do Náutico começaram a pedir a entrada de Allan Cole…[8]

Gradim, no entanto, não atenderia a voz das arquibancadas. Ao invés disso, sairia em defesa do centroavante do time, discutindo com os torcedores mais exaltados. A roda viva do futebol transformava o herói de ontem no vilão de hoje. Paraguaio havia assinalado dez gols em nove jogos durante o Torneio Eraldo Gueiros, emergindo como o novo ponto de referência da equipe após a saída de Marinho Chagas. No Campeonato Brasileiro, porém, somava apenas dois gols. Os timbus não o perdoavam pela queda de rendimento, nem a ele nem ao treinador que o escalava, execrado pelos adeptos como o principal responsável pela péssima colocação do Náutico na competição. Enquanto os dirigentes ponderavam que se tratava de uma campanha “razoável”, dentro das “possibilidades” do elenco, os torcedores cobravam a imediata demissão de Gradim. O Diário de Pernambuco, por sua vez, abria espaço a um leitor cuja carta pretendia traduzir a insatisfação que emanava das arquibancadas. As críticas, explicava o missivista, estavam canalizadas à cúpula do clube que persistia no erro de prestigiar um “treinador sem qualidades” para “dirigir, orientar e escalar” a equipe do Náutico. Acompanhemos o desenrolar da argumentação:

É sabido, também, que existem jogadores que não justificam se gastar dinheiro com eles e cuja permanência é mantida insistentemente pelo técnico, num protecionismo incompreensível. Assim é que lá estão: Varlindo, Zezinho, Pereira, Allan Cole e Galdino, tomando o lugar de outros, gente da terra com melhores condições.[9]

O excerto acima, cuidadosamente selecionado, expressava o pensamento da seção de esportes do jornal, e, muito provavelmente, de parcela importante da própria diretoria do Náutico. A crítica aos altos custos da contratação de forasteiros em detrimento da “gente da terra” já tinha sido registrada pelo periódico logo no início da temporada, por ocasião da reestreia de Allan Cole no mês de fevereiro. Mas o que se afigurava, então, uma opinião isolada, agora se revelava quase um consenso, obtido com o argumento adicional do dinheiro necessário para mantê-lo no elenco, sacrifício injustificável à luz das dificuldades financeiras enfrentadas pela agremiação da Rosa e Silva. Não constitui tarefa fácil determinar o papel desempenhado por Gradim na trama que se armava em torno do atacante jamaicano. A sequência da competição, contudo, talvez nos forneça uma pista importante para elucidar a visão de jogo cultivada pelo treinador e como Allan Cole se inseria, ou não, dentro dela. Senão, vejamos.

No final do mês de outubro, uma quinta-feira à noite, o Náutico tinha um compromisso difícil contra o Atlético Mineiro. O retrospecto das duas equipes apontava amplo favoritismo ao Galo. O Timbu, no entanto, possuía “uma grande motivação”. Com o socorro providencial da FPF, o clube prometia no dia do jogo saldar os três meses de salários atrasados[10]. Por certo, um alento. Mas nem o mais otimista dos torcedores poderia imaginar o desenlace do confronto. Impelidos pelo futebol envolvente de Vasconcelos, os alvirrubros realizaram a proeza de vencer o campeão da primeira edição do Nacional pelo eloquente placar de 3 a 0. Consumada a façanha, o arqueiro Lula, o mais eufórico de todos, carregava Gradim sobre os ombros em desfile diante das arquibancadas do Arruda. Aos jornalistas, ele explicava: “Isso foi uma homenagem que nós jogadores combinamos”[11]. Todavia, a homenagem mais significativa da noite viria através do gesto solitário de um atleta singular do time adversário.

Dario vestindo a camisa da seleção brasileira em 1970. Foto: Gerência de Memória e Acervo da CBF.

Uma vez encerrada a partida, o centroavante Dario, campeão brasileiro pelo Atlético Mineiro e tricampeão do mundo pela Seleção Canarinho, foi atrás do Velho Mestre para lhe entregar a camisa em “reconhecimento à oportunidade” recebida no início da carreira, quando atuava pelo Campo Grande, um pequeno time do subúrbio carioca: “Hoje o que sou devo ao senhor”. O reencontro entre Dario e Gradim, no “mundão” do futebol, chamava a atenção da crônica esportiva. Sob os flashes dos fotógrafos e diante dos gravadores dos repórteres, o “Peito de Aço” abria o coração vermelho, agradecendo ao veterano treinador a “chance” concedida no momento em que “a torcida não gostava do meu futebol e me combatia”.

A trajetória de Dada Maravilha – como também era alcunhado – desvelava a obstinação de um jovem suburbano em superar todos os desafios para se afirmar como atleta profissional. Além de transpor os muros do Serviço de Assistência aos Menores, depois renomeado Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, onde estivera internado, ele teve de encontrar uma maneira de compensar o escasso capital futebolístico que possuía para se firmar no exercício da profissão. De fato, quem, diante de um centroavante “desengonçado”, que jogava uma “bola quadrada”, egresso, ademais, do arquipélago carcerário, dispunha-se a lhe estender a mão e conceder uma oportunidade[12]? Depois de entregar ao técnico negro a camisa molhada de suor, na boca do túnel, o centroavante do Atlético concluía o agradecimento, evocando a linhagem na qual ele se reconhecia:

Você teve a coragem de insistir comigo, numa época em que eu treinava por um prato de comida.[13]

Na estrutura simbólica do futebol brasileiro Dario pertencia à linhagem dos que corriam atrás da bola porque tinham fome de alimento. Visto por esse prisma, o contraste com Allan Cole não poderia ser mais acentuado. Eles se situavam em polos extremos e opostos, a começar pelo modo como cada qual manejava o instrumento de trabalho. Enquanto a falta de habilidade do primeiro era compensada por um empenho sobre-humano na disputa da bola; no caso do segundo, a reconhecida habilidade técnica era prejudicada pela ausência quase total de combatividade. Convém, no entanto, matizar a comparação contrastiva entre as duas personagens. Afinal de contas, Gradim não havia apreciado apenas a disposição de Dario em correr e lutar pela vitória dentro de campo, mas também enxergara nele qualidades que, uma vez aprimoradas, tornavam-no um atleta útil para o esquema tático de uma esquadra pragmática. A compleição física do futuro Peito de Aço, alto e magro, o transformava em um tormento potencial para as defesas adversárias, sobretudo, na bola aérea. Em contrapartida, conquanto admirasse a destreza de Allan Cole com a bola, lhe reconhecesse a precisão do passe, bem como os lançamentos matemáticos, nem por isso o treinador deixava de apontar as deficiências que lhe comprometiam o desempenho, notadamente, a carência de um bom arremate.

Dario vestindo a camisa que o consagrou.

 

A conversão do jogador habilidoso em um atleta profissional, como nos mostra a etnografia de Arlei Damo, exige a incorporação de um conjunto de capitais futebolísticos que incluem, para além do dom/talento, atributos físicos, psíquicos e morais[14]. O valor reconhecido a cada uma destas qualidades varia de acordo com a própria diversidade das configurações sociais em que se desenrola o jogo. No que tange especificamente a do futebol brasileiro, no contexto da militarização, a redefinição da hierarquia de valores utilizados para avaliar o desempenho dos atletas beneficiava, mais do que o atacante do Náutico, o centroavante do Atlético, cujo déficit de dom/talento era compensado pelo excesso de coragem, virilidade e “raça”, qualidades morais cada vez mais exaltadas na nova ordem axiológica instituída no campo esportivo.

Egresso do subúrbio de Marechal Hermes, Dario engrossava o imenso contingente de jovens nascidos na “barriga da miséria” e que vislumbravam no futebol a única tábua de salvação. Nem todos, obviamente, possuíam talento, dom ou vocação para exercer o ofício. Mesmo assim, muitos perseveravam, desafiando os pareceres contrários emitidos nas peneiras da vida[15]: “Rapaz, pra bola você não dá. Vá procurar um trabalho”[16]. Eis o conselho ministrado a Dario pelo então treinador do Campo Grande, Gentil Cardoso. Por sorte ele foi ignorado. O rapaz “desengonçando” de quem as pessoas “riam” não esmoreceu e retornou à esquadra do subúrbio carioca até alcançar com Gradim a tão ansiada chance. À semelhança da personagem de O velho e o mar, Dario agarrava com voracidade as raras oportunidades que a vida lhe proporcionava, debatendo-se com os escassos recursos que possuía “contra a sina de uma derrota permanente” que nunca o abandonava. Todavia, como o rústico pescador da obra de Ernest Hemingway, ele trazia inscrito no Peito de Aço a divisa segundo a qual “um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”[17].

 

Notas

[1] Cf. “Marinho – a comunicação de um futebol que ganha o país”, Diário de Pernambuco, 11 de outubro de 1972.

[2] Cf. “Náutico agressivo amanhã com Dedeu e Elói”, Diário de Pernambuco, 14 de outubro de 1972.

[3] Cf. “Os Pernambucanos”, revista Placar, nº137, 27 de outubro de 1972.

[4] Cf. “Gradim pode escalar o jamaicano Allan Cole”, Diário de Pernambuco, 15 de outubro de 1972.

[5] Cf. “Náutico roubado não perde a tranquilidade”, Diário de Pernambuco, 22 de outubro de 1972.

[6] Cf. “Gradim explica ascensão do Santa Cruz e diz o que é preciso para conquistar o certame”, Diário de Pernambuco, 7 de março de 1969.

[7] Cf. “Cabeleira de Allan Cole assusta Silvio Pirilo”, Diário de Pernambuco, 22 de outubro de 1972.

[8] Cf. “No pé da conversa”, coluna de Lenivaldo Aragão, Diário de Pernambuco, 23 de outubro de 1972.

[9] Cf. “Náutico inicia atividades visando Atlético”, Diário de Pernambuco, 24 de outubro de 1972.

[10] Cf. “Náutico fala em dinheiro e dá motivação ao seu quadro”, Diário de Pernambuco, 26 de outubro de 1972.

[11] Cf. “Edvaldo quase escalado para jogar de saída”, Diário de Pernambuco, 28 de outubro de 1972.

[12] Cf. “Dario falou”, revista Placar, nº 121, 7 de julho de 1972.

[13] Cf. “No pé da conversa”, coluna de Lenivaldo Aragão, Diário de Pernambuco, 23 de outubro de 1972. Ver, também, “Homenagem do Dadá a Gradim”, revista Placar, nº 139, 10 de novembro de 1972.

[14] Damo, Arlei Sander (2007) Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo, Hucitec. Ver, em especial, o capítulo 3: “O estatuto dos jogadores e os capitais futebolísticos”.

[15] A expressão “barriga da miséria”, como se sabe, pertence à música “Partido Alto”, de Chico Buarque de Hollanda, proibida em março de 1972 pela Censura Federal por “induzir no público sentimentos contrários à tradição do povo brasileiro”. Cf. “Proibida música de Chico”, Diário de Pernambuco, 21 de março de 1972.

[16] Cf. “Dario está à venda”, revista Placar, nº 149, 19 de janeiro de 1973.

[17]  Hemingway, Ernest (2003) O velho e o mar, O Globo, Rio de Janeiro; São Paulo, Folha de S. Paulo, p. 102. A citação anterior, entre aspas, também pertence ao texto citado, p. 16.