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A etnogênese do torcer: uma perspectiva social e afetiva

Emiliano Peggion de Carvalho

Uma pergunta recorrente que mobiliza as paixões futebolísticas é como nasce o desejo (ou a escolha) de torcer por um time específico? Este pequeno ensaio não tem por propósito abordar questão tão geral, mas trazê-la de um ponto de vista ou percepção individual e intimista, querendo despertar no leitor uma reflexão a respeito da sua própria condição de torcedor.

No Brasil, a família constituiu-se como marco sociológico e um lugar central para se pensar questões como identidade. Também se sabe que o futebol está inserido em praticamente todos os lares, e mesmo nos discursos de quem não gosta ou se vê alheio a ele, alguma batalha pessoal e coletiva acaba sendo travada na intimidade de sua própria casa quando o assunto é futebol. Há diversos elementos que contribuem para a construção de possíveis identidades relacionadas ao mundo futebolístico. A projeção e as experiências identitárias não são algo estático no tempo, ou igualitárias em suas escolhas e partilhas, podendo sofrer influências diversas. Numa família numerosa, por exemplo, não é raro acontecer de cada pessoa torcer para um time diferente e, diante disso, as relações sociais se conformarem numa teia mais complexa. Isso porque, mesmo nesse ambiente muitas vezes tomado por natural e tão hierárquico na distribuição de seus valores, ninguém nasce torcendo para um time específico e diversas referências tornarão essas escolhas possíveis.

Norbert Elias (1994), um importante sociólogo alemão, em A Sociedade dos indivíduos, traz duas concepções extremamente importantes para ajudar nesse enigma, quais sejam, a identidade-eu e a identidade-nós. Elas servem para pensar a questão sociológica da pluralidade de relações que enredam os indivíduos, colocando em pauta estes conceitos como parte de todo o meio, que muitas vezes é deixado de lado. Dessa forma, os indivíduos são ligados por meio de tantos laços não concretos, mas que se fazem igualmente presentes nas instituições sociais – e isso se passa também com o fenômeno do torcer.

A atividade do torcer sempre esteve presente no contexto da minha casa, sobretudo pela via da descendência vinda em especial de um dos meus avôs, filho de italianos que se identificava com um time “do coração”, ou por meio do que José Renato Araújo (1996; 2003) chamou de torcer étnico. O seu gosto pessoal (identidade-eu) e o nós (as implicações étnicas de uma identidade-nós) andavam juntas, difícil separá-las. O mesmo se passava com quase todos de minha família.

Lembro-me de que, quando criança no interior do estado de São Paulo, eram mais próximos a mim aqueles que também torciam para o Palmeiras e que, para além do círculo familiar, se desenrolava uma forma específica de sociabilidade, que no entendimento de Marcel Mauss (2018), estabelecia uma dinâmica que nos obrigávamos mutuamente a dar e receber pilhérias e brincadeiras entre torcedores contrários. Naquele caso retribuir também se dava com o dobro de zelo, fazendo das relações um constante processo inacabado, isso porque vitórias e derrotas se alternavam continuadamente. Nos aproximávamos um dos outros na esperança de torcermos juntos e afastávamos para não escutarmos os outros (torcedores adversários) quando perdíamos. A dádiva futebolística nos tornava torcedores aparentados, mesmo torcendo para times contrários, mesmo não sendo parentes “de sangue”.

Portanto, o que quero aqui destacar é que existem relações de afetividade no interior do torcer e de se tornar torcedor, tanto no âmbito das relações familiares, quanto nas relações de amizade, o que resulta em uma sociabilidade muito específica produzida no contexto do torcer.

Foto: Reprodução / Twitter

O torcer afetivo

Além da influência de familiares, como avô e primos, que também convergiam nesta empreitada de torcer, havia, como mencionei, diversos amigos (os mais próximos), os quais, claro, eram palmeirenses. E isso fazia toda a diferença!

Obviamente que alguns acontecimentos foram mais marcantes, e talvez o maior deles tenha sido a Copa Libertadores, de 1999. Eu estava com 13 anos de idade, assistindo ao jogo na sala da minha casa e em companhia do meu avô. Quando um desespero bateu em mim na situação das penalidades máximas, e eu, inadvertidamente, comecei a expulsar todos da sala que dissessem qualquer palavra contra meu time.

Lembro-me, como se fosse ontem, das emoções do torcer por meu time do coração, o Palmeiras, certo de que a influência foi grande pelas relações que vivenciei dentro de casa, em especial com meu avô, que aliás se chamava Edmundo, nome de um dos maiores jogadores que pude ver jogar e que vestiram a camisa do time alviverde.

Apesar de toda sua personalidade tida por controversa, incisiva e até mesmo violenta, o que lhe valeu o apelido de “animal”, para mim ele foi um jogador inigualável. Claro que muitos craques, antes e depois dele, ostentam a fama de serem melhores, mas o que importa nessa apreciação é justamente como se formam esses contextos de pertença definidos pelo embate entre identidade-eu e identidade-nós ao borrarem essas escolhas que não necessariamente são partilhadas por todos – aliás, são negadas justamente para que a reciprocidade se mantenha ativa, viva e emocionante. Para além das opiniões balizadas na mídia esportiva, todo mundo produz suas próprias preferências, que são contextuais, íntimas, biográficas, afetivas, portanto.

Apesar do futebol ter se tornado mais uma indústria espetacular ligada ao capitalismo global, quantificável em seus métodos de produção e gerenciamento de espetáculos, o torcer permanece como poderoso elo de produção de reciprocidades, seja na esfera privada ou pública, no sentido de contribuir para as diversas relações sociais e afetivas num mundo de calculismos e pragmatismos.

Se o sentimento de torcedor nos traz nostalgia é justamente porque jamais abandona as relações co-extensivas entre identidades-eu e identidades-nós, construindo elos que marcam nossas biografias de torcedores.

Referências

ARAÚJO, José Renato de Campos. Migna terra: migrantes italianos e fascismo na Cidade de São Paulo (1922-1935). Tese de Doutorado – Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, 2003.

________.  Imigração e futebol: o caso Palestra Itália. 1996. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Campinas, 1996.

ELIAS, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.

MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Ubu Editora, 2018.


Sobre o LELuS

Aqui é o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade. Mas pode nos chamar só de LELuS mesmo. Neste espaço, vamos refletir sobre torcidas, corporalidades, danças, performances, esportes. Sobre múltiplas formas de se torSER, porque olhar é também jogar.


 

Como citar

CARVALHO, Emiliano Peggion de. A etnogênese do torcer: uma perspectiva social e afetiva.