62.8

A Expedição: saindo de nós mesmos e retornando…

Fabio Perina

Entendo que em meio a um futebol moderno e globalizado tão violentamente avançado como o que se sucedeu de 2003 para cá, não parecendo ter mais volta a ‘internacionalização’ ampla da seleção da CBF, talvez tenha chegado a hora de se despir dessas identidades e representações anteriores das famosas ‘pátria em chuteiras’ e ‘futebol moleque’ e assumir novas representações. Porém novas que não sejam entreguistas e vira-latas que entrariam no trilho da globalização. Mas olhando para dentro de nós mesmos e revalorizando outros aspectos.

Eu, ainda como grande devoto do pensamento genial de Nelson Rodrigues, que me sinto mergulhado aos anos 50 ou 60 com toda sua emoção lendo sua crônica, entendo que é preciso manter seu principal recurso/dinâmica narrativo: a passionalidade, polissemia e transcendência do futebol. Enquanto não dá mais para se balizar tanto por seu objeto principal: a seleção como formadora de uma nação. A associação tão violentamente direta entre escrete e povo construída por Nelson foi um recurso extremamente válido, e nem um pouco desonesto, que ele encontrou em como sua palavra poderia fazer unificar os regionalismos em nome de um sentimento nacional—através da bola! Tão anacrônico porque a nação mudou demais de 1950 para cá! Tão anacrônico que o futebol mudou demais. Bem ou mal, ainda tentando curar cicatrizes, a nação se unificou de lá para cá. As Copas recentes (após o trauma de 82) mostraram que viver de ufanismos de ‘futebol moleque’ e ‘pátria em chuteiras’ não bastam para ganhar, é preciso incorporar uma boa dose de ‘futebol total’, ocupação de espaços e intensidade de jogo. Ainda que nos doe ver que todo o ufanismo não encontra lugar no estilo de jogo hoje e que tudo o que nos contaram na infância de ‘futebol moleque’ parece ser uma brincadeira de mal gosto diante da realidade de nossos olhos.

Curiosamente foi entre 1950 e 2014 que está justamente a Copa de 1982 a romper a ferro e fogo essa veia aberta em nossa convicção no estilo de jogo como nossa identidade. Essa expedição do país de se reconhecer em seu escrete parece dar mostras de estar chegando ao seu fim justamente no ano de 2014. Talvez o problema não seja que gostamos menos do escrete. Certamente ele ficou bem mais distante de nós com a tão perversa internacionalização. Ou talvez ainda esteja difícil perceber que estamos curados dos fantasmas de 1950 e finalmente prontos para assumirmos a seleção, o futebol e o Brasil como eles nos apresentam. Ou talvez uma boa parte de nós notou que não dependemos mais da seleção para festejarmos nosso futebol e nosso dia a dia. Como nos anos 80, só que agora não da Copa de 1982, mas sim 1988, cantar a ´plenos pulmões: “Brasil, mostra tua cara!”. Sem esperar com revanchismo da seleção, do futebol ou do Brasil vingar a expectativa frustrada que não o foi no passado.

Seleção brasileira que disputou o 3º lugar contra a Holanda na Copa de 2014. Foto: Bruno Domingos – Mowa Press.

Acredito que se Nelson pudesse viver mais uns 30 anos e olhar o futebol de hoje, creio que ele seria ainda fortemente apaixonado, com a novidade de ser um profundo inimigo da modernização e elitização do futebol até o último fio de cabelo. E torceria para essa seleção pensando enxergar seu escrete com todos os extremos de virtudes e defeitos de antes. Talvez bobo, muito louco, mas feliz! Porém, lamentavelmente, creio que ao se deparar com a grande vitoria ou a grande derrota, olharia ao seu redor nas ruas e não encontraria uma emoção tão forte quanto a dele, mas sim uma apatia generalizada. Bem como a impotência de ver brasileiros se desunindo a brasileiros por motivos tão fúteis, o que o deixaria profundamente amargurado e em um vazio pelo resto de seus anos…

Talvez tenha chegado a hora da dolorosa separação a tal referência por demais limitada. Penso que também chega a hora da crônica futebolística cortar seu cordão umbilical com esse ufanismo todo de ‘futebol moleque’ que soa um tanto quanto infantil. Evidente que não poderá deixar de existir em termos de pedagogia do futebol. É no futebol que a criança deve se sentir mais livre e se divertindo mais, para quando adulta possa sempre revisitá-la quando se reencontra com o futebol. Acredito que todos nós amantes do futebol ainda guardamos uma boa dose desses elementos anímicos e lúdicos quando o vivenciamos, sem que isso ofusque nosso senso crítico. Faz bem demais para a criança tal modelo de crônica, é assim que todos nós nos socializamos pela primeira vez com o futebol, flertando com a boa malandragem do dia a dia, de jogar bola pelo prazer desinteressado e, nos termos de DaMatta foi nosso primeiro professor de democracia! No entanto, o mundo já deu muitas voltas e um dia é hora de separar os meninos dos homens.

Não dá mais pra se conformar de uma narrativa tão infantil ad infinitum feita para homens barbados! Limitada a ponto de falar sobre atletas com um talento individualista com a bola e sem ela totalmente frágil ao mundo dos cartolas e empresários e assim exigindo que sempre passemos as mãos em suas cabeças ingenuas.

No meio do caminho entre as derrotas de 1950 e 2014, exatamente a tão discutida derrota de 1982 e a perda da unanimidade da identidade brasileira do estilo de jogo arraigado no futebol-arte, obrigando-o a negociar concessões ao futebol-força para que viessem as vitórias de 1994 e 2002. Ao se falar tanto na perda de identidade e reconhecimento do torcedor com sua seleção brasileira, desconfio que a derrota de 2014 pode finalmente permitir que olhemos para dentro de nós mesmos e encontremos as chaves da resolução do impasse que cambaleávamos desde 1982. Nada impede que ocorra um novo 7×1 se não estiver dispostos a repensar e ressignificar cada elemento do nosso futebol. De que simplesmente não daria mais para olhar para 2014 com a cabeça ainda em 1950 como se o mesmo escrete e o mesmo povo ainda estivessem lá!

Ramires durante jogo do Brasil contra a Alemanha semifinal da copa do mundo, 08 de Julho 2014. Fotot: Bruno Domingos – Mowa Press.

 

Proponho que chegou a hora de uma nova narrativa ao futebol. Que levante a dúvida de talvez estarmos curados da tragédia de 1950 e que é preciso um novo posicionamento que arrebate toda a apatia que flertamos em 2014 justamente nesses descaminhos entre escrete e povo. Que reoxigene a paixão. Que contemple mudanças mais recentes da sociedade das últimas décadas como a crise da categoria patriotismo não mais podendo tudo e a invasão da categoria fragmentação de grupos sociais de identidades. Minha narrativa nova que reivindico é essencialmente voltada ao torcedor e clubista! Reivindico uma narrativa que ordenhe as tetas até a última gota de leite para alcançar em toda a passionalidade daquele torcedor que, dilacerado pelo futebol globalizado, se agarra à defesa de seu clube como o último reduto de defesa de sua paixão cada vez mais fanática. Num futebol moderno com carência de talentos e de personalidade nos atletas, um jornalismo hipócrita e sensacionalista em sua maioria, dirigentes ainda tão arcaicos e com outros atores sociais interferindo tão mal na ética do jogo, é sempre o torcedor que se prejudica ao final de todos os embates. E é somente em relação a camisa de seu clube e dos amigos mais próximos as últimas coisas que pode se agarrar em meio ao turbilhão das ilusões perdidas. Evidente que a categoria ‘nação’ dos grandes clubes também está em crise com bem menos vibração (de estádios vazios já basta como argumento), sendo preciso reconquistá-los dando uma nova visibilidade aos poucos mais apaixonados. A necessidade exige uma narrativa em torno do torcedor, que não veja a si próprio como dócil e romantizado que é como a crônica oficialista tanto insiste em querer ao longo das décadas. Mas como fanático, apaixonado, vibrante, contestador, transgressor. Uma narrativa que negue veementemente que o torcedor seja um alienado que é explorado enquanto grita gol. Entendo que uma boa compreensão do torcedor em específico e do povo como um todo não pode mais se reservar ao direito de negar toda a riqueza de seus rituais exóticos e seu comportamento de vibração que constrói e em cima dela constrói tantos significados. Muito mais danos causa essa miopia de negar e silenciar esses aspectos do que reconhecê-la! Não dá mais para acreditar naquela conversa fiada que uma multidão deva ser dócil como cordeirinhos! E quando digo clubista, é porque no âmbito de clubes que a socialização em pequenos grupos se dá mais intensamente no dia a dia, enquanto a seleção parece ser cada vez mais uma ficção. A arquibancada forma caráter!

E ainda, em termos de encerramento, tenho a dizer para aqueles que não são tão fanáticos pelo futebol e que a partir dessa reflexão toda temos uma boa resposta a dar a eles! Aqueles que vão ao estádio para se divertir com a vitória certa de seu clube, mas não para ajudar a empurrá-lo à vitória. Sem vivê-lo intensamente no dia a dia, mas se divertindo muito em época de Copa do Mundo, estes verão que muitas torcidas, pelo resto do mundo, foram muito mais vibrantes aqui em nossas arenas do que a cantiga de ninar ‘eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor’. E estes, ao fim da Copa, creio que independente de vitória ou derrota, vão descobrir que gostavam muito mais da festa que teve como pretexto o futebol ao invés do interesse pelo futebol. E que realmente no fim das contas ninguém tem que se sentir obrigado a gostar de futebol, mas que se respeite os que o vivem loucamente. Vão descobrir-se libertados de não terem que seguir essa utopia de ‘pátria de chuteiras’ tão automática que lhes era estranha, que os comerciais tanto abusaram de sua inteligência fazendo parecer um sentimento espontâneo do povo como um todo, e podem assumir que gostam mesmo é de festa! Em suma, curados, finalmente, de 1950!