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A extrema direita, os Proud Boys e o futebol nos Estados Unidos

Makchwell Coimbra Narcizo

Não é segredo para ninguém que a extrema direita encontra terreno fértil nos Estados Unidos da América (EUA), já o futebol, que eles nem chamam de futebol, não arrebata tantos corações. Apesar disso a extrema direita estadunidense, em especial os Proud Boys, viram no futebol uma ferramenta para propagação de ódio. E não, esse texto não pretende forçar a barra como quem diz que o futebol nos EUA será uma grande potência futebolística, mas para isso, você tem que ler o restante dele.

Primeiramente é pertinente dizer que a extrema direita nos EUA tem diversas vertentes, Guilherme Andrade (2017) explica que no meio acadêmico estadunidense cinco são as formas mais empregadas para tratar as extremas-direitas: Right-wing, Far Right, Extreme Right, Radical Right e Populist. Portanto, há a necessidade de salientar que não se trata apenas de um grupo, mas de grupos distintos, com histórias próprias e intenções diferentes, mas que possuem quesitos em comum que os caracterizam como extrema direita, como o racismo, xenofobia e o ódio para com a democracia. 

Os Proud Boys são um grupo de extrema direita neofascista que atua de forma violenta nos EUA e Canadá, admitindo em seus quadros apenas homens. Oficialmente rejeitam o racismo, mas tem diversos de seus membros filiados a grupos de “supremacia branca”, que nada mais é que uma expressão irresponsável abraçada pela mídia tradicional para tratar racistas de cunho neonazista. O ponto base de sua militância é que “os homens brancos e a cultura ocidental estão sob ameaça”, dando apoio para a teoria da conspiração do genocídio branco.

Sim, mas e o futebol?

A MLS não aceita manifestações políticas nas arquibancadas, a não ser que sejam manifestações de ódio, racistas ou até mesmo neonazistas. Exagero na afirmação? Não, isso infelizmente é um fato.

Em 2015 por ocasião da Guerra Civil na Síria, cartazes estiveram presentes em diversas partes do mundo. A mais emblemática que se tornou célebre foi “Refugiados bem-vindos” que fora ostentada, inclusive, em Toronto no Canadá. Entretanto no caso de Toronto, mais especificamente por parte da torcida do Toronto FC foram proibidas pela MLS sob a alegação de “não serão aceitas mensagens políticas de qualquer espécie”. Jesse Ferreras (2015) que investiga a ação de grupos de extrema direita na liga norte-americana afirma que o caso não ocorreu apenas com o Toronto FC, mas no clube ficou mais explícita por conta da resistência dos torcedores, que entraram com as faixas, retiradas antes das partidas iniciarem.

Torcida do Toronto FC

Torcida do Toronto FC. Foto: Reprodução Twitter

A Major League Soccer (MLS) conta com ramificações violentas em diversos clubes, emulando o estilo dos hooligans europeus. Robert Silverman (2019) destaca que muitas dessas ramificações tem orientação na extrema direita, especialmente por conta da promessa de violência. O autor destaca que a violência nas torcidas estadunidenses teve seu pico em 2006, havendo uma infiltração de elementos de extrema direita nas torcidas. Fazendo com que racismo, homofobia e misoginia sejam marcantes nos estádios da liga.

Christian Araos (2019) afirma que a MLS até tenta diminuir manifestações racistas, mas erra ao equiparar com manifestações antirracistas, dando-lhe um cunho manifestações políticas e assim, as proibindo. Destacando que a mesma que retira cartazes racistas é a que também retirou cartazes de “boas vindas” em apoio aos refugiados. O jornalista defende que as ações antirracismo e contra à homofobia da MLS são inócuas e mensagens como “não ultrapasse a linha” são feitas de forma artificial. Destaca ainda que a MLS participa da Pride Nights ao longo da temporada, inclusive o New York City FC que tem como mandatário vindo de país em que a homossexualidade é crime.    

Em certa medida, a MLS manteve sob controle as ações de grupos de extrema direita, entretanto, nos últimos anos tais grupos tiveram liberdade de ação e saíram às ruas, fazendo com que os ânimos se acirrassem no país e também no futebol.

New York City

Imagem: Wikipédia

O New York City FC como é um clube novo, de 2013, agregou parte significativa de grupos de extrema direita. Antes de tratar o episódio especifico que permite afirmar isso é pertinente destacar que o clube conta com parte dos torcedores de extrema direita de seu rival, aliás, quando seu rival ainda tinha outro nome e outra sede. Isso mesmo! O NYC é o segundo clube de New York, tendo como rival local o New York Red Bulls. Entretanto, antes de ser New York Red Bulls a franquia tinha o nome de New York MetroStars de 1995 à 2005, agregando grupos de extrema direita, estes, foram combatidos no interior do novo clube por torcedores antifascistas, especialmente os Timbers Army e o Empire Supporters Club, grupos que combinam ação social e torcida nos estádios, fazendo com que muitos dos torcedores de extrema-direita migrassem para o NYC com sua criação.

Ok! Mas o que torna a torcida no NYC esse epicentro da extrema direita?

O clube agrega em suas torcidas organizadas, ou o equivalente a isso, um bom número de torcedores de extrema direita, neonazistas e “supremacistas brancos”, a eles, é reservada uma área no Yankee Stadium para os dias de jogos, as seções 235 a 238. Dentre esses torcedores Irvin Antillon fez com que as relações da extrema direita fossem explicitadas. O torcedor que é membro de uma gangue neonazista latina (oi!?) e foi filmado e fotografado entre os extremistas por ocasião da ação nazifascista em Charlottesville, Virgínia, em 2016. O torcedor ostenta tatuagens nazistas, dentre elas uma com o símbolo das SS e outra com a frase “Blood And Honor” – sangue e honra.

O que potencializou a aparição de Antillon é o fato dele ser militante dos Proud Boys, grupo que tem a violência como um de seus ideais e ameaça abertamente a democracia estadunidense.

Antillon foi expulso da torcida, mas não por conta de sua participação nas ações terroristas de Charlottesville, mas porque fez gestos nazistas em um jogo da MLS, sendo o clube notificado pela Liga. Entretanto, mesmo sendo comprovada a participação de diversos torcedores com o referido grupo, nada ocorreu, outros membros da torcida também estavam nas ações da Virgínia e continuam frequentando os estádios. Desde então as relações da torcida do NYC com grupos de extrema direita, em especial os Proud Boys, vieram à tona.

Torcida do NYCFC.

Torcida do NYCFC. Foto: Reprodução Twitter

Christian Araos (2019) defende que o clube não proíbe os torcedores com base em suas convicções políticas, mesmo estes sendo de extrema direita e neonazistas, mas sim por transgressões diretamente ligadas ao clube que acontecem dentro ou fora dos estádios. O jornalista usa como exemplo o fato de outro homem que compareceu ao evento Proud Boys com Antillon não ter sido banido. Como não possui histórico de ofensas e agressões, ele ainda pode comparecer aos jogos e eventos do clube.

O jornalista investigou durante 5 anos as relações da direção do clube e grupos de extrema direita, tal como os Proud Boys. Mostrou troca de e-mails entre diretores do clube e de alas organizadas da torcida. Em mais de uma reportagem, o jornalista desvelou que extremistas compareciam regularmente aos jogos do time, sejam eles dentro ou fora de casa, nas últimas temporadas e estavam se infiltrando em grupos oficiais de torcedores. Em uma das respostas, o CEO do NYC, Brad Sims, rejeitou as ligações, mas não se comprometeu em criar ações contra o ódio e a violência.

No início de 2021, em fevereiro, o governo canadense classificou os Proud Boys como uma organização terrorista, em especial por conta de sua atuação na ação terrorista de 6 de janeiro de 2021 no Capitólio dos EUA em Washington, DC.

Com a saída de um presidente de extrema direita, como classifica Madeleine Albright (2018), do poder nos EUA, grupos extremistas estarão sob vigilância mais minuciosa, em especial os Proud Boys, ao passo que muitos sairão de cena e outros buscarão se normalizar na sociedade, como já vimos em outros casos – aqui na coluna Futebol na Ponta Direita – nestes momentos o futebol torna-se alvo de grupos extremistas, em parte para se camuflar, para buscar uma normalização frente à sociedade e em parte, para expressar a violência e discurso de ódio que são naturalizadas no futebol.

Se você chegou até aqui, reiteramos uma afirmação que já tem sido recorrente por estes lados: o futebol para ser usado politicamente não precisa ser necessariamente por amantes do esporte, não que também não o seja. Os EUA por exemplo, não tem uma cultura futebolística que salta aos olhos, mas ele, nosso futebol, não soccer, mas futebol, foi utilizado pela extrema direita e que possivelmente, o futebol crescendo ou não nos EUA, ele continuará sendo usado pela extrema direita, inclusive as mais baixas como os Proud Boys, racistas e neonazistas.

 

Referências

ALBRIGHT, Madeleine. Fascismo: um alerta. Trad. Jaime Biaggio. São Paulo: Crítica, 2018.

ANDRADE, Guilherme Ignácio Franco de. Uma nova Frente Nacional? O projeto político de Marine Le Pen. Porto Alegre: EDPUCRS, 2017.

ARAOS, Christian. Proud Boys and skinheads: MLS faces an incursion from the far-right. The Guardian, Londres, 06 mar 2019. Acesso em: 08 de fev. de 2021.

FERRERAS, Jesse. Toronto FC Fans’ ‘Refugees Welcome’ Banner Ordered Removed. The Huffington Post, Canada, 14 set 2015. Acesso em: 08 de fev. de 2021.

SILVERMAN, Robert. How New York City Soccer Fans Are Fighting Fascism In The Stands. The Huffington Post, Canada, 03 jan 2019. Acesso em: 08 de fev. de 2021.


Como citar

NARCIZO, Makchwell Coimbra. A extrema direita, os Proud Boys e o futebol nos Estados Unidos. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 40, 2021.