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A fábrica do futebol

Matt Donaldson

Um fenômeno inesperado acontece na Inglaterra ao longo dos últimos anos: camisas clássicas de futebol.

Sempre vai haver torcedores vestindo versões retro dos uniformes de seus times com orgulho, aproveitando a nostalgia e o romance que só uma mistura cara de poliéster pode proporcionar, mas ninguém poderia ter previsto o quanto essa tendência capturaria a imaginação da comunidade inglesa de futebol.

Estes uniformes, anteriormente zombados, se libertaram do passado constrangedor e agora são considerados um acessório obrigatório, não só pelos fãs de futebol, mas também por fashionistas e lançadores de tendência que consideram a extravagância dos anos 90 inovadora.

Como alguém que sempre foi passional quanto ao jogo e sua cultura, eu achei fascinante que nos pubs e baladas modernas do leste londrino, eu pudesse identificar alguém vestindo uma camisa de visitante do Queens Park Rangers de 1993, então eu decidi descobrir mais.

Ao pesquisar mais, se tornou claro que haviam duas tribos separadas promovendo essa tendência.

Os garotos e garotas da moda misturam as peças do futebol com outros item clássicos dos anos 90; tênis Reebok, casacos da Kappa e jaquetas jeans baggy. Para eles, os times não tem tanta importância, quanto mais extravagante o design, melhor. Há também um certo status em vestir peças mais obscuras. Camisas da América do Sul e divisões inferiores das ligas do Leste Europeu são as favoritas. Não todas, mas muitas dessas pessoas não saberiam dizer o último campeão da Premier League nem conseguiriam se lembrar quando o Liverpool correu atrás do resultado contra o Milan e venceu nos penâltis, ou quando Zidane deu uma cabeçada em Materazzi. Nesse caso é puramente moda e essas camisas podem ser vendidas por muito dinheiro.

As camisas de futebol como item da moda

Os outros entusiastas das camisas clássicas são os torcedores de futebol, muitos deles atualmente desiludidos com o jogo moderno. Para eles, usar a nova versão de uma camisa da Nike representa as questões de dinheiro que estão arruinando o esporte. Eles não serão encontrados em modernas baladas de Londres, mas em pubs de futebol e em boas arquibancadas de concreto (aonde elas ainda existirem), trocando Nike e Under Armour por Pony e Umbro. Eles se lembram carinhosamente o início da Premier League, o futebol não era tão bom, mas o jogo pertencia as pessoas. Os campos eram cheios de lama e os ingressos eram baratos. Esses torcedores preferem falar sobre Micky Hazard do que Eden Hazard.

Eu conversei com a equipe da famosa loja “Classic Football Shirts”. Com duas filiais, uma em Manchester, e outra em Londres, eles são os maiores comerciantes desse mercado na Inglaterra.

“As pessoas amam revelar suas nostalgias em todos os aspectos e camisas de futebol fazem exatamente isso para os torcedores, você pode reviver momentos da sua infância”, de acordo com Ollie, que trabalha na loja de Londres.

A “Classic Football Shirts” já exibiu sua coleção na Inglaterra, Nova York e Rússia, durante a Copa do Mundo de 2018. Eles organizam eventos frequentados por Ruud Gullit, Juan Mata e até Ina Franzmann, o designer da icônica camisa principal da Alemanha de 1990.

A loja Classic Football Shirts em Londres

Ainda segundo o vendedor, “A tendência não mostra sinais de desaleração. Nossas lojas, eventos e exibições continuam a levar multidões impressionantes. Todos os fãs de camisas de futebol demonstram uma grande paixão quando falam sobre suas peças favoritas e sobre as suas memórias relacionadas a esses itens”.

Pode não ser só a camisa, mas o sentimento de otimismo típico da juventude. Isso pode representar um tempo mais simples na vida dos fãs de futebol e também dos “Fashionistas”. Festas da universidade, Britpop, um governo progressista do Labour**, acid house, roupas esportivas e fitas K7.

ícones do Britpop, os irmão Liam e Noel Gallagher, do Oasis, com suas camisas do Manchester City / Imagem: divulgação (1995)

Torcedores e torcedoras de futebol muitas vezes elogiam a forma com que o jogo pode unir as pessoas e agora parece, ao menos na Inglaterra, que as camisas de futebol clássicas estão fazendo exatamente o mesmo.

**Partido progressista britânico, que na época tinha Tony Blair como primeiro ministro, e atualmente tem em Jeremy Corbyn sua figura mais importante.


Revista Pelota em parceria com o Ludopédio publica nesse espaço os textos originalmente divulgados em sua página do Medium.