112.23

A falta que o jogo faz às eleições

Arlei Sander Damo

A prosa parece ter perdido sua eficácia, que dirá a poesia. Em vigor estão os xingamentos, as ameaças, as vociferações, a intimidação e as vias de fato. Não estou me referindo ao cenário dos estádios, obviamente. Antes estivesse a beligerância circunscrita a tais espaços e àqueles rotulados pela mídia de irracionais e marginais.

Os estarrecedores episódios de agressões fortuitas por motivações políticas noticiadas nas últimas semanas, como se o despotismo já estivesse vigorando a pleno, pode ser atribuído a um lapso de desrazão, caraterístico da escalada do fanatismo que acompanha os regimes totalitários. Durante toda a minha experiência docente discuti em aula, sempre que tive a oportunidade, o documentário de Peter Cohen chamado Arquitetura da Destruição, cujo argumento principal é mostrar os propósitos estéticos do nazismo. Na versão dos próprios nazistas, seus objetivos eram sublimes: o embelezamento do mundo. As atrocidades, um detalhe, porque cometidas contra os outros, aqueles que antes de serem vítimas foram primeiro classificados como seres abjetos, indignos de respeito, consideração ou comiseração.

O que se passa no Brasil atual lembra muito o contexto de ascensão do nazismo, exceto pelo fato de que o projeto aqui é de ordem exclusivamente moral. Hitler havia sido um pintor medíocre na juventude e um arquiteto frustrado, ainda assim havia flertado com a arte. Tinha ao seu lado médicos e arquitetos, homens com notável saber, que se sentiam efetivamente superiores e seguros da justeza de seus propósitos. Mal comparando ao nosso cotidiano, Hitler pareceria um intelectual refinado.

O totalitarismo talvez não seja um anti-intelectualismo, mas certamente prospera na ausência de reflexividade, à revelia da crítica e impulsionado por dogmas. Ele subjuga e até aniquila qualquer alteridade e, por conta disso, é a antítese do jogo, incluindo-se o de futebol. Para que um jogo se realize o adversário é indispensável. No jogo não existe inimigo, apenas adversário, podendo ser uma pessoa ou um grupo, cujo objetivo é criar obstáculos, impor restrições, exigir destreza, criatividade e resistência. Sem adversidades um jogo não se inscreve como narrativa memorável, ele perde a excitação e até mesmo o sentido.

O historiador John Huizinga, autor de Homo Ludens, chamou a atenção para o fato de que o jogo é um elemento tanto da natureza quanto da cultura. Dizendo de outro modo, ele está posicionado numa fronteira tênue da qual nos aproximamos e também nos afastamos de outras espécies animais. Huizinga não disse isso explicitamente, mas ele provavelmente concordaria que entre nós, humanos, o jogo não tem apenas função, tem também significado – algo mais difícil de se estender às outras espécies. A democracia, isso Huizinga escreveu, tem muito a ver com o jogo, sendo o parlamento ou qualquer outro espaço de debate é onde se esgrimam ideias através de palavras. Eleições são como uma final de campeonato, só que ao invés do consagrado turno e returno temos dois turnos – às vezes um único.

Há qualquer coisa do totalitarismo nos embates futebolísticos, porque este sentimento e esta experiência fazem parte da nossa natureza e da nossa cultura, quiçá de ambas. Há pessoas que fazem um esforço para controlar a aversão à alteridade, evitando sentimentos como a inveja, o ódio e a vingança, temas presentes no espaço esportivo, assim como nos mitos, na literatura e nas artes em geral. Também há instituições, religiosas ou laicas, que trabalham na perspectiva de debelar ou sublimar estes sentimentos.

Os jogos operam num registro distinto, buscando controla-los, mas não elimina-los. Antes pelo contrário, os estádios são espaços onde é legítimo experenciar e mesmo expressar esses sentimentos, o que vem a ser uma forma cultural de dramatiza-los. No entanto, há uma diferença a ser considerada. O jogo é mímesis e, portanto, está num plano distinto da vida real. O desejo de aniquilação do adversário é plenamente aceitável neste plano, razão pela qual os balineses, que apreciam rinhas de galos ao invés do futebol, dizem que elas são uma forma de “brincar com fogo sem se queimar” – pelo menos foi isso que o antropólogo estadudinense Clifford Geertz registrou no célebre texto “Um jogo absorvente”.

Nos estádios brasileiros temos notado uma calmaria rara, mas me antecipo a qualquer insinuação afirmando que isso nada tem a ver com o fato deles terem sido gentrificados. Num texto publicado neste mesmo espaço, lamentei o deplorável episódio no qual a então presidenta Dilma Rousseff foi xingada de forma chula por uma plateia constituída pela elite branca, escolarizada e bem trajada, que fora se divertir na final da Copa 2014. A agressão em uníssimo, que sugeri ter sido a “tragédia de 2014”, à despeito dos 7 a 1, revelou o ódio das frações elitizadas, incomodadas pelos avanços – que nem foram tantos – logrados no Brasil contemporâneo. De mais a mais, antecipou uma cena que se tornaria rotina no nosso cotidiano, incluindo-se as redes sociais, exímias ferramentas na disseminação do ódio e das excentricidades, individuais e coletivas.

Candidatos a presidente no debate do primeiro turno. Debate realizado sem a presença de Jair Bolsonaro. Foto: Ricardo Stuckert.

À propósito de 2014 – ou de 2013, talvez –, gostaria de acrescentar que, a despeito da “modernização” do nosso futebol, os jogadores continuam sendo recrutados entre os estratos menos privilegiados. Passam por um processo extenuante e excludente durante a formação e alguns poucos chegam ao estrelato. Muitos dos bem-aventurados parecem esquecer as origens, pelas quais são invariavelmente lembrados de forma preconceituosa – “o cara sai da favela, mas a favela…”. Que eles tenham baixa escolarização e de que isso é, em boa medida, resultado da profissionalização precoce, é um fato e, por certo, explica muitas das tomadas de posições que vão do simples ao simplório em matéria política. Os que tem dinheiro, em especial os que tem muito, contratam assessores das mais variadas espécies, mas só alguns se dão o trabalho de ousar um pouco mais, investindo na formação intelectual. Pode-se desculpar muitas coisas, menos o fato de que boa parte deles, em especial os que tem passagem pelo futebol europeu, conhecem de perto o racismo, porque foram vítimas ou seus colegas foram. Até a FIFA se mobilizou numa campanha contra o racismo, que é obra de grupos neo-nazistas espelhados pela Europa como um todo. Salvo exceções, como a de Paulo André, que se negou a perfilar como os demais atletas do seu clube, num deplorável episódio às vésperas do primeiro turno, nossos futebolistas andam batendo continência antes mesmo dela se tornar obrigatória.

É triste constatar que o espetáculo está suplantando o jogo. Se não inteiramente dentro dos campos de futebol, ao menos no entorno deles. Que bom seria se nossas eleições fossem como Grêmio e River, Boca e Palmeiras, Cruzeiro e Corinthians ou mesmo como uma singela pelada. Se falta jogo, que dirá fair play!