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A final da Copa Sulamericana, o Morumbi e o estado da arte do futebol brasileiro

Tiago Rosa Machado

O que se viu na final da Copa Sulamericana, no Morumbi, dia 12/12/12, como o argentino Tigre fugindo de campo e o São Paulo FC declarado campeão, foi um retrato um tanto desfocado um tanto fidedigno do que se pode entender da realidade brasileira a partir do futebol: uma mescla desse nosso passado pré-moderno – que tanto queremos abandonar – com alguns requintes de uma valorizada e galopante pós-modernidade. Conjunção entre o que há de mais avançado em vendas de ingressos pela internet e problemas basilares de comunicação, planejamento e acesso ao site que comercializou os tickets. Obras de metrô, monotrilho e promessas de corredores de ônibus e trânsito infernal em todas as vias de acesso ao estádio. Um estádio ao mesmo tempo considerado obsoleto, vetado pela FIFA, com pontos cegos e vendas de ingressos que supera o número lugares disponíveis e ainda assim repleto de reformas elitizadoras e “pulsado” pela sua torcida. Dentro de campo, o futebol do mais caro jogador brasileiro da história, vestindo a camisa do clube tido como exemplo de planejamento e investimentos “extra-campo” em meio a catimbas, provocações e táticas anti. Por fim, algo praticamente inimaginável ocorreu em pleno futebol do século XXI no país sede da próxima Copa: o adversário estrangeiro, visitante, não voltou do intervalo e o SPFC comemorou o título de Campeão Sulamericano sem que o segundo tempo fosse disputado.

Lucas chuta para abrir o placar contra o Tigre. Foto: Luiz Pires – VIPCOMM.

Sem recuar muito no tempo, vamos analisar a coisa desde um pouco antes do jogo de domingo, última rodada do Campeonato Brasileiro de 2012. Sim!, abandonemos o jogo de ida na Bombonera, Luís Fabiano ou a pancadaria deliberada do Tigre. Embora a festa promovida pela torcida tricolor no Morumbi tenha sido bastante bela, o SPFC deu um triplo golpe em seus torcedores antes mesmo do jogo: primeiro convocou a massa a comparecer ao Pacaembu na última rodada do Brasileirão de 2012 tentando [sem sucesso] desbancar o rival Corinthians na média de público no campeonato. Depois, tendo relacionado seus jogadores titulares para o jogo, entrou em campo com os reservas, – a vitória sobre os rivais amenizou esse incômodo. Por último, o início da venda (somente pela internet) dos ingressos para a final da Sulamericana começou poucos minutos após o encerramento do jogo de domingo – o que dificultou muito para o torcedor que foi ao Pacaembu comprar o seu ingresso, que se esgotaram em poucas horas. A diretoria do SPFC ao mesmo tempo em que oferece um serviço que pode acabar com as filas e cambistas – reclamações de priscas eras – não privilegia o torcedor que acompanhou o time em mais jogos da temporada e não planeja corretamente a venda. O site da TotalAcesso, atual parceira são-paulina na venda eletrônica de ingressos, apresentou problemas de toda ordem: caia, não logava, os setores do estádio não abriam as opções de compra, não havia informações que orientassem os torcedores e na maior parte do tempo não vendeu meias-entradas. Além disso, a TotalAcesso, que só recentemente entrou no mercado nacional (tomando o lugar da IngressoFácil e da FutebolCard, que já foram parceiros do São Paulo e racharam com a diretoria) não ofereceu qualquer satisfação ao torcedor. Muito embora não se possa fazer acusações levianas, particularmente, sempre tive a convicta impressão (vou com frequência ao Morumbi de 2002 pra cá) que em jogos decisivos são vendidos mais ingressos que o número oficialmente comportado pelas arquibancadas. Já assisti jogos no Morumbi em todos os setores do estádio e sempre que há lotação – ou algo perto disso – torcedores ficam amontoados em áreas próximas às grades, escadas, túneis de acesso e às vezes duas ou até 3 fileiras de torcedores por degrau, sem que haja espaço para acomodação, e na final de quarta-feira isso se repetiu mais uma vez. Então, o cálculo é simples: se determinado setor tem capacidade para 8 mil pessoas (a medição se dá em razão do número de assentos) e na hora do jogo não há espaço para todos que compraram entradas para aquele setor assistirem ao jogo sentados, a conta não está fechando, e alguma grana deve estar sobrando.

Além disso, o acesso ao estádio/bairro do Morumbi sempre foi uma terrível dor de cabeça não só para a maioria dos são-paulinos. Como é bem sabido, bairros nobres – como o Morumbi – não foram planejados para terem vias fáceis de acesso; tampouco há linhas suficientes de transporte público que interconectem os bairros afastados do centro. Assim, chegar ao Morumbi e sair dele, ainda mais no meio de semana, é uma empreitada não muito recomendada, sobretudo, para quem depende de transporte público. Os ônibus com frequência enfrentam trânsito no horário de chegada ao jogo e escassam na hora da volta para a casa. Se você não está naquela faixa de idade que topa qualquer coisa por uma aventura, é bom pensar duas vezes antes sair de casa rumo ao estádio. Ainda, as obras do metrô e do monotrilho, se podem aventar alguma espécie de solução [parcial], já vem acompanhada de uma série de retrações, seja por seu adiamento ou a bizarra proposta de fechamento das estações mais próximas ao estádio em dias de jogo. Isso para não evocar os inúmeros problemas daqueles que vão ao estádio de carro (deixo essa crítica para os nossos comentaristas da grande mídia). Ainda assim, a massa aflui para o estádio invariavelmente em ritmo de festa, esparramando o jogo por onde passa.

No anel superior, torcedores do São Paulo prestam homenagem ao jogador Lucas. Foto: Luiz Pires – VIPCOMM.

Dentro do estádio do Morumbi, cada setor tem o seu charme, mas apresenta também sua carta de problemas: o anel superior, mesmo mais distante do campo, tem uma visão completa do espetáculo e recebe a maioria dos torcedores – que esgotam seus ingressos sempre antes. É o mais enfeitado (faixas, bandeiras) que mais coreografa, canta e grita – embora essas não sejam as principais virtudes dos são-paulinos. Entretanto, a “bancada” peca por problemas de estrutura, como banheiros (sempre zuados e insuficientes), acesso (a revista policial é demorada e com frequência atrasa os torcedores), escoamento pós jogo. Nas numeradas, setor tradicionalmente mais caro por apresentar mais conforto, além dos pontos cegos próximos às colunas às zonas de privilégio absoluto (camarotes, áreas VIPS) há o pior de todos os problemas, que atende pela gritaria do “senta!” evocada dos torcedores que gostam de mais acomodação. Uma inclinação mais favoráveis e assentos retráteis resolveriam facilmente esse problema. A antiga geral – o setor antes mais popular e barato por dispor daquele que era considerado o pior ponto de vista do estádio, na altura do campo – foi proibida pela FIFA e vem passando por constantemente por reformas que sufocaram o mais folclórico setor torcedor. Boa parte já se transformou em camarote, restaurante, bar e setores mais caros que a numerada (isso vale para muitos estádios nacionais). A compensação por uma visão menos privilegiada é dada por enormes telas de LED em alta definição e tratamento digno dos melhores bitrôs; ganha-se também pela proximidade do jogo e do calor da disputa. A lógica de cota social da geral foi subvertida e o destratado lugar do “geraldino” foi transformado num espaço para o ostentador consumidor de classe distinta. Por fim, mais uma vez, vale dizer que a torcida do SPFC vem enchendo o estádio com mais frequência e a final da Sulamericana, recorde de público do ano em competições organizadas pela Conmebol, levanta ainda mais a média de torcedores são-paulinos no estádio e combate alguns estigmas em relação à assiduidade torcedora são-paulina (torcedor de finais), principalmente se considerarmos que a percentagem de tricolores é menor que a de outros times nacionais e que boa parte de sua média vem do campeonato nacional, que não tem os famigerados mata-matas.

Por último, o jogo, ou parte dele. O São Paulo praticamente dominou todas as ações. Do início ao fim do único tempo, uma só bola foi chutada ao gol de Rogério, e um verdadeiro traque – sem força e sem perigo. A ausência de Luís Fabiano não foi determinante e os volantes tricolores, embora não sejam bons armadores, chegavam ao ataque com tranquilidade. Lucas, em noite de despedida, deitou e rolou abriu o placar, armou a jogada do segundo gol, apanhou, provocou, chamou a responsabilidade. O Tigre, que por seus méritos chegou à decisão, demonstrou que não tinha forças nem dignidade de ocupar tal espaço e não será surpresa se for desclassificado e sequer coroado com o vice-campeonato. O episódio do refugo argentino é um capítulo a parte.

Rogério Ceni e Lucas comemoram a conquista inédita da Copa Sul-Americana. Foto: Wagner Carmo – VIPCOMM.

Os jornalistas insistem em querer buscar a verdade dos fatos e apurar o que realmente ocorreu. Será que eles creem mesmo nisso? Mil versões irão aparecer; fotos de machucados, vídeos de circuito interno, imagens de celulares, depoimentos… A imprensa argentina, demasiadamente bairrista, fala em vexame, vergonha, armação, perseguição. Pior que isso, somente os próprios brasileiros repercutindo essas versões! A cegueira clubística de alguns, baseada em conjecturas, endossa o coro dos covardes. Falou-se em “conquista manchada” e até mesmo em apoio da Polícia Militar ao truculento SPFC. O futebol só é um fenômeno mundial pois congrega uma ampla gama de elementos modernos e tradicionais de modo fácil, inteligível. Seguramente não é o único, mas dos esportes modernos o futebol é aquele possibilita aos seus admiradores/praticantes, mesmo que haja um desequilíbrio brutal de forças, a possibilidade da vitória em qualquer das condições, já que sempre parte de uma situação de igualdade (o jogo sempre começa 0×0) para chegar a um resultado final. O SPFC estava dando um chocolate no Tigre, mas… e se sai um golzinho argentino nos primeiros minutos do 2º tempo?! O que ocorreria? Impossível saber.

A organização sulamericana tenta emular o modelo contemporâneo da UEFA (aqui Libertadores e Sulamericana, lá Liga dos Campeões e Copa UEFA) e promover cruzamento entre seus campeões locais e intercontinentais. Se esse é o caso, então, nos resta reconhecer aquilo que nos difere dos modelos centrais (europeus) e reconhecer nisso nossa força. Se os campeonatos sulamericanos impõe a lógica do choque entre suas escolas e culturas futebolísticas, seja pela catimba, altitude, arbitragem, pressão de torcida ou mesmo pela violência dentro de campo – e vejam não estou reivindicando mais organização nem poder à Conmebol – isso é sadio, e a forma como lidamos com esses meandros reflete o “estado da arte” de nosso futebol. O Tigre, com medo de tomar uma goleada história, achou que poderia brochar a festa São Paulina fugindo de campo: evocou um passado até mesmo saudoso onde isso ocorria com mais frequência (aqui, ali e acolá), inclusive com a invasão de campo de torcedores ensandecidos, êxtase arquibancadas e alegria torcedora. Pois foi isso que se viu na noite de 12/12/12.