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A geração belga

Guilherme Eler

A vitória sobre o Brasil nesta sexta-feira (6) confirmou a Bélgica como semifinalista da Copa da Rússia. Construindo o placar de 2 a 1 com dois gols ainda no primeiro tempo, a equipe europeia teve sua primeira grande exibição. Após uma fase de grupos sem grandes adversários e o sufoco para superar a pouco tradicional seleção japonesa nas oitavas-de-final, os belgas já igualaram seu melhor desempenho em Copas: um quarto lugar no mundial de 1986, realizado no México.

Mesmo sem nunca ter conquistado uma Copa do Mundo ou um título europeu – o maior triunfo é uma medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de 1920 – a equipe aparece na terceira colocação do último ranking de seleções divulgado pela Fifa, atrás apenas de Alemanha e Brasil. É também a terceira melhor do mundo, empatada com a Espanha, segundo o ranking Elo. O site FiveThirtyEight, focado em previsões e dados estatísticos, avalia que os belgas tenham, atualmente, 31% de chances de conquistar o mundial de 2018.

Não é apenas o desempenho como melhor ataque da competição, com 14 gols em cinco partidas, ou o fato de ser a única campanha com 100% de aproveitamento que credencia a Bélgica na Copa de 2018. Esse rótulo, na verdade, existe desde que o país voltou a disputar o torneio, em 2014, e pode ser explicado pela qualidade individual de seus jogadores.

Destacando-se há anos por clubes na Europa, o desafio de nomes como Eden Hazard, Kevin de Bruyne e Romelu Lukaku é, agora, fazer história com sua seleção em uma grande competição internacional. E o mundial de 2018, na Rússia, pode ser uma das últimas oportunidades para isso.

O surgimento da atual “ótima geração belga”

durante a partida da Copa do Mundo 2018 entre Brasil x Suica na arena Rostov na Russia

Neymar fica entre os jogadores da “geração belga”. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

O discurso da Bélgica como força emergente no futebol começou a ganhar corpo na mídia esportiva a partir de 2011. À época, jovens promessas ainda davam seus primeiros passos em ligas mais disputadas da Europa, ao passo que nomes importantes da geração do início dos anos 2000 ensaiavam deixar os gramados.

A elevação de patamar foi reflexo de uma série de mudanças nas categorias de base implementadas por Michel Sablon, ex-diretor técnico da Federação Belga de Futebol, a partir de 2006. A ideia era que o país, que tem população estimada em 11 milhões de pessoas, fosse capaz de trabalhar melhor o potencial de seus jovens atletas.

Antes do mundial do Brasil, em 2014, a última participação da Bélgica em Copas havia sido em 2002, quando foi eliminada pela seleção brasileira nas quartas-de-final. A partir de então, o país entrou em um hiato de competições internacionais, deixando de participar das Copas de 2006 e 2010 e das edições da Eurocopa disputadas entre 2004 e 2012.

DESEMPENHO DA BÉLGICA EM EUROCOPAS

1972: Terceiro lugar
1980: Vice-campeã
1984: 1ª fase
2000: 1ª fase
2016: Quartas-de-final

A Bélgica, que por pouco não se classificou para a Eurocopa de 2012, já contava com nomes importantes do time atual, como os zagueiros Jan Vertonghen e Vincent Kompany e os meio-campistas Axel Witsel, Nacer Chadli e Marouane Fellaini.

Os jovens Eden Hazard, principal referência técnica da equipe atual, e Romelu Lukaku também faziam seus primeiros jogos pela seleção nas eliminatórias do torneio.

“Lukaku, um dos muitos ‘novos Drogbas’ [atacante marfinense] eleitos pela imprensa nos últimos anos, provavelmente tem talento suficiente para justificar a comparação. Completando 10 aparições pela seleção nacional antes mesmo de fazer 18 anos, ele marcou 252 gols em 161 partidas pelas categorias de base”, publicou a revista americana World Soccer em setembro de 2011. Aos 25 anos, Lukaku já é o maior artilheiro da história da Bélgica.

“Hazard foi o primeiro jogador não-francês a vencer o prêmio de jogador jovem da Ligue 1 (principal competição nacional francesa) em 2009. Em 2010, ele se tornou o primeiro atleta a vencer a categoria duas vezes, melhorando a marca ao ser eleito como jogador do ano da temporada 2010/2011 do campeonato francês. Uma vez que Zinedine Zidane já disse que ‘Hazard seria uma grande estrela’, não se pode deixar de acompanhá-lo”, destacava, ainda, a publicação.

“Essa é melhor ‘geração de ouro’ que a Bélgica tem em anos. Ao longo da última temporada, pareceu surgir, do nada, uma geração de jovens jogadores poderosos, habilidosos e inteligentes, que vêm chamando a atenção. Isso já reverbera no fato de grandes clubes da Europa enxergarem cada vez mais a Liga do país como berço para talentos em desenvolvimento, emprestando seus jovens por leilão a equipes como o Anderlecht, Standard Liège e Genk”.
Trecho de artigo de 2011 da agência alemã Deutsche Welle, sobre o potencial da nova geração belga de jogadores

O protagonismo em ligas de maior expressão e times menos tradicionais da Europa logo chamou a atenção dos grandes clubes. Como destacou a Folha de S.Paulo, se somadas, as últimas transações envolvendo quatro dos principais destaques belgas movimentaram, nos últimos anos, quase R$ 300 milhões.

Eden Hazard chegou em 2012 ao Chelsea, que, em 2014, comprou também o jovem goleiro belga Thibaut Courtois. De Bruyne saiu do Wolfsburg, da Alemanha, para o Manchester City, em 2015, por € 75 milhões. Lukaku, que jogava no Everton, da Inglaterra, se tornou a 8ª transferência mais cara da história ao ir jogar pelo Manchester United em 2017.

O alto investimento vem trazendo bons frutos às equipes. Ao longo da temporada 2017/2018, Kevin De Bruyne marcou 11 gols e deu 19 assistências. Eden Hazard, principal nome do título de 2014/2015 do Chelsea, soma 69 gols em 208 jogos pela Premier League.

Jogador do Manchester City desde 2008, Vincent Kompany foi um dos pilares da renovação do clube inglês nos últimos anos. Apesar de sofrer com sucessivas lesões no período, estava no elenco que trouxe as maiores conquistas recentes do clube, como os três últimos títulos do Campeonato Inglês (2011/2012, 2013/2014 e 2017/2018) e a Copa da Inglaterra de 2010/2011.

Toby Alderweireld e Jan Vertonghen foram dois dos pilares da defesa do Tottenham, a que levou menos gols na temporada 2016/2017 do Campeonato Inglês e terceira menos vazada em 2017/2018.

€ 754 milhões
É o valor de mercado da seleção belga que disputa a Copa da Rússia, segundo o site Transfermarket

Além dos jogadores da Premier League, outros nomes belgas vêm chamando a atenção no futebol internacional. Dries Mertens, atacante do Napoli, por exemplo, foi eleito para o time do ano no campeonato italiano duas vezes consecutivas. Foram, ao todo, 22 gols na temporada 2017/2018 e 34 na anterior, 2016/2017.

Após se destacar no Zenit, da Rússia, Axel Witsel se tornou o 8º atleta de futebol mais bem pago da atualidade optando por jogar na China. Yannick Carrasco, ex-Atlético de Madrid e com apenas 24 anos, foi outro que chamou a atenção do futebol chinês, movimentando € 30 milhões no início de 2018.

Atualmente, 22 dos 23 jogadores convocados para o mundial da Rússia atuam fora do país – 11 deles na Premier League, a mais importante do planeta. Segundo o site Transfermarkt, a Bélgica tem o quarto elenco mais caro da Copa: somado, o valor estimado dos jogadores alcança os € 754 milhões, atrás apenas de França (€ 1,08 bilhão), Brasil (€ 981 milhões) e Inglaterra (€ 874 milhões).

Os primeiros resultados

Lukaku

Lukaku, da Bélgica, e Miranda, do Brasil travaram uma grande disputa na partida em que a Bélgica eliminou o Brasil da Copa 2018. Foto: André Mourão/Mowa Press.

A nova safra de bons atletas fez a Bélgica, após 12 anos, voltar a ter sucesso em eliminatórias e a figurar em Copas do Mundo. E equipe participou, também, de sua quinta Eurocopa, evento do qual não participava desde o ano 2000, quando foi um dos países-sede.

As expectativas sobre a atual geração, porém, foram frustradas nos dois primeiros grandes desafios internacionais. Foram duas eliminações nas quartas-de-final: para a Argentina, no mundial de 2014, e para a seleção do País de Gales, na Eurocopa de 2016. Isso contribuiu para que o rótulo de “melhor geração belga dos últimos tempos” passasse a adquirir tom irônico e depreciativo.

A tentativa de mudar a imagem da equipe tem como aliado o bom retrospecto. Desde que assumiu o comando da seleção belga, o técnico espanhol Roberto Martinez só perdeu uma partida. A derrota de 2 a 0 para a Espanha em sua estreia como técnico, em setembro de 2016, antecedeu o início das eliminatórias europeias para a Copa da Rússia.

A longa sequência sem derrotas vem desde a fase preliminar. Primeira seleção europeia a garantir sua vaga, conquistando 28 dos 30 pontos possíveis (nove vitórias e um empate), marcando 43 gols e sofrendo apenas seis.

“Este é o momento. É agora ou nunca para que essa geração brilhe. Essa Bélgica é melhor que a de 2014, mais experiente”, disse Hazard, em entrevista coletiva após o jogo contra o Japão.

A primeira “geração de ouro” da Bélgica

“A seleção da Bélgica de 1986 é como se fosse o filme de Natal que as pessoas gostam de relembrar ano após ano”, disse o zagueiro belga Vincent Kompany em entrevista dada em 2014 ao jornal britânico The Telegraph. “Essa Copa do Mundo é algo que a gente vê e escuta falar o tempo todo”.

A Bélgica de Jan Ceulemans, Enzo Scifo, Franky Vercauteren e dos veteranos Jean-Marie Pfaff e Eric Gerets alcançou o quarto lugar no mundial de 1986, disputado no México. A derrota para a Argentina de Diego Maradona, que seria campeã do torneio, nas semifinais, marcou o melhor resultado do país em 12 participações em Copas – já igualado pela atual “ótima geração” em 2018.

DESEMPENHO DA BÉLGICA EM COPAS DO MUNDO, ATÉ 2014

1930: 1ª fase
1934: 1ª fase
1938: 1ª fase
1954: 1ª fase
1970: 1ª fase
1982: 2ª fase
1986: Quarto-lugar
1990: Oitavas-de-final
1994: Oitavas-de-final
1998: 1ª fase
2002: Oitavas-de-final
2014: Quartas-de-final


nexo_jornal_logo-600x152-minEste texto é uma republicação de artigo publicado no site Nexo Jornal.