120.2

A ginástica e a mulher moderna

Wagner Xavier de Camargo

Numa das andanças que fiz pelos sebos de livro da cidade de Campinas em busca de referências para minhas pesquisas, encontrei uma obra que me chamou atenção. Trata-se de “Ginástica para a mulher moderna”, de Nair G. Fischer. Sem ano de publicação, num português ainda antigo, o livro me despertou curiosidade pela organização interna, pelos desenhos muito bem definidos e pela linguagem bastante erudita. Resolvi colocá-lo no conjunto de outras obras que havia garimpado, pois talvez pudesse servir para alguma finalidade futura.

Capa do livro “Ginástica para a mulher moderna”, de Nair G. Fischer, sem data. Foto: Arquivo pessoal.

No entanto, qual não foi minha surpresa quando alguns meses depois iniciei sua leitura. A autora defende suas ideias num português corretíssimo, é extremamente versátil nas explanações (vai da defesa da necessidade da existência de uma Educação Física enquanto área de atuação a conhecimentos médicos e bioquímicos sobre a prática esportiva) e muito hábil na descrição dos exercícios ginásticos, propostos para a “mulher moderna”. Sua obra é um verdadeiro documento histórico, que registra interesses datados, provavelmente entre os anos 1930-1950, quando a nascente área da Educação Física se institucionalizava no país.

Obviamente que a ginástica da qual Fischer se encarrega no livro não é a mesma antiga modalidade, que chegou ao Brasil por influência europeia ainda no século XIX. A ginástica em desenvolvimento no século XIX na Europa enquadra-se numa pedagogia em voga de “educação do corpo”, que mais do que em outras épocas da história do Ocidente, redefinia e modelava gestos e movimentos. Esses, por sua vez, deviam ser internalizados em comportamentos e posições, o que conformava novos códigos de civilidade em pauta[1].

Essa ginástica chega ao Brasil via “movimentos ginásticos europeus” (particularmente, o alemão, o sueco e o francês), que, cada um a seu modo e em seu tempo, influenciam a prática esportiva da modalidade e, em realidade, dão origem a desdobramentos. Mais especificamente em meados da década de 1930, tanto surgia um novo modelo de espaço destinado às práticas da ginástica (os estúdios e mais tarde as academias), quanto a própria Educação Física vivia um momento decisivo de afirmação como área de conhecimento. Penso que o livro de Fischer traz resquícios deste momento histórico, quando tece sugestões para a então ginástica que se transformava e para a mulher daquele tempo.

Gravuras de exercício sugerido pela autora (p. 51). Foto: Arquivo pessoal.

Além disso, nas entrelinhas de muitas defesas argumentativas da autora encontramos um contexto político maior, que respondia a um cenário internacional em formação, marcado pela ascensão de ideologias políticas de direita (nazistas e fascistas), reativação do ideário eugenista de fins do século XIX (e seus debates espúrios sobre melhoramento da raça), além do pleno vigor das instituições militares (inclusive no Brasil). Para justificar a importância da Educação Física frente a isso tudo, dispara a autora:

Se todos os que possuíssem noções, mesmo rudimentares, de educação física, se propusessem a ensinar outros cinco, preferencialmente adolescentes, em breve seríamos uma raça mais eugênica, mais saudável – embora longe da perfeição, pois os dados coligidos pelo professor Ernani de Irajá, acusando o subdesenvolvimento de nossa gente, encontram base na subalimentação e na desvitaminização, mais do que na inércia” (p. 37, grifos meus).

Para Fischer o que está em jogo é uma educação física baseada na “ginástica” enquanto prática física como antídoto (e prevenção) contra doenças que possam afetar a “raça” brasileira. Afinal, segundo ela, “a falta de exercício prejudica a eugenia de um organismo inteiro” (p. 15). As mulheres devem praticar tal atividade para galgarem “maior elegância e graciosidade nos gestos” e não se tornarem “débeis”, “obesas” ou “raquíticas demais”.

O princípio que orienta sua “visão de mundo”, por assim dizer, é o de uma veiculação ideológica de exaltação à superioridade racial, baseada em dados de uma ciência moderna, que disponibilizava à educação física (via prática da ginástica) o melhor de seu conhecimento acumulado para o melhoramento da espécie. E, possivelmente, para ela, as mulheres seriam as responsáveis por isso – não nos esqueçamos que a naturalização da maternidade para o corpo da mulher a tornava responsável direta pelo futuro da nação.

Gravura de posição sugerida pela autora (p. 40). Foto: Arquivo pessoal.

Curiosamente, durante a leitura, me indagava quem seria essa “mulher moderna” de quem tratava Fischer? A resposta não só está nos desenhos ilustrativos de mulheres nas posições ou movimentos de ginástica, que até cabelo estilo Chanel tinham, como em afirmações do tipo: “a mulher moderna não pratica trabalhos caseiros” e seus “passeios são dados dentro de automóveis ultraconfortáveis” (p. 13). Ou ainda em trechos como: “a inércia de certas mulheres ricas, que têm empregadas até mesmo para penteá-las, é uma paralisação de energias inapropriadas, que poderiam levá-las, se utilizadas, ao aprimoramento estético do corpo” (p. 15).

Fica evidente, mesmo que não dito, que a autora escrevia para as novas mulheres que ascendiam socialmente nos então centros urbanos e industriais em formação. Mulheres (provavelmente brancas) que, com informação à disposição, poderiam encampar o ideal de modernidade defendido por Fischer. As mulheres para as quais estava defendendo a prática da ginástica deveriam ser diferentes daquelas que faziam o “golfe, tênis ou outro esporte da moda”, pois os executavam mais por pragmatismo social do que por espírito esportivo.

Os exercícios prescritos no livro pregam o trabalho corporal harmônico do corpo da mulher (inclusive quando ela defende incursões nas práticas de ioga), passando por exercícios de respiração e movimentos mais vigorosos ou de flexão, que devem se pautar pelos ideais de beleza e vitalidade. A calistenia é a base de quase todos eles. Lembremos que a calistenia foi um método que influenciou a ginástica nos locais de sua prática no Rio de Janeiro (e depois a todo o país), em grande parte do século passado.

Procurei informações sobressalentes sobre a autora, mas não as encontrei. Quem foi influenciado por esta leitura e qual impacto causou o livro no universo das “modernas mulheres”, talvez praticantes de ginástica? Dificilmente saberemos. É bem possível que Fischer tenha formação em medicina, ou, no mínimo, seja de uma família de médicos. Eles tiveram grande presença e influência no processo de institucionalização nacional da área de Educação Física e mantinham discursos sobre a prática esportiva para o melhoramento da saúde e higiene das pessoas. Tal discurso era orquestrado pela classe médica e disso decorre que a literatura disponível reconhece que a prática da ginástica tinha uma “matriz médica” subjacente à sua aplicação. Só não nas instituições escolares de fins do século XIX e início do XX, onde vigoravam práticas circenses, teatrais, e outras espetaculares. Mas essa é outra história, para ser trazida em outro momento[2].

Notas de Rodapé

[1] A obra de Carmen Lúcia Soares, Imagens da Educação no Corpo (2002) resgata esse interessante processo em detalhes (inclusive ilustrativos).

[2] Este é um achado do artigo de Victor Melo e Fábio Peres (2006), que vale ser lido.

 

Para conhecer mais desta história

COSTA, Marcelo G.; PERELLI, João M.; DOS SANTOS, Leonardo M. “História da Ginástica no Brasil: da concepção e influência militar aos nossos dias”. Navigator. Rio de Janeiro, v. 12, n. 23, 2016. p. 63-75.

FISCHER, Nair G. Ginástica para a Mulher Moderna. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s/d.

MELO, Victor; PERES, Fabio. “Relações entre ginástica e saúde no Rio de Janeiro do século XIX: reflexões a partir do caso do Colégio Abílio, 1872-1888”. História, Ciências e Saúde. Manguinhos/RJ. v. 23, n. 4, out./dez. 2016, p. 1133-1151.

SOARES, Carmen Lúcia. Imagens da Educação no Corpo. Campinas: Autores Associados, 2002.

______. Educação física: raízes europeias e Brasil. Campinas: Autores Associados, 1994.