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A globalização futebolística: a ida de jogadores brasileiros para o exterior

Gabriel Sulino Martins

Devemos olhar bem para a história, desde Didi, famoso jogador que atuou nas Copas do Mundo de 1958 e 1962, jogadores já iam para fora do país. Como no caso de Pelé que jogou a maior parte da carreira no Santos Futebol Clube, aceitou ao final de sua carreira jogar pelo Cosmos, com a finalidade de promover o futebol nos Estados Unidos. Diferentes dos jogadores atuais que muitos vão para o exterior muito cedo. Temos como exemplo não muito distante, o próprio Ronaldo Fenômeno, deixando o Brasil foi para a Holanda jogar no PSV Eindhoven. Dado este fato pela globalização do futebol. Levando um emblema de pessoalidade para a esfera pública e se diferenciando de jogadores europeus, pois, na Europa, os jogadores utilizam muito os sobrenomes, trazendo um clima de impessoalidade, diferentemente de jogadores brasileiros, que desde dos anos 50 utilizam apelidos ou o primeiro nome, como: Vavá, Pelé, Garrincha, Ronaldo, Ronaldinho, etc.

Os jogadores transmitem através deste fato, certa anarquia representa uma horizontalização das relações entre jogador e torcedor de cordialidade. Cria-se, assim, para Wisnik (2008, p. 368), “nosso modelo de herói familiarizado, adulto-infantil, figura pública e privada, que nos fazer escapar tanto do peso da impessoalidade excessiva dos protocolos”. Nossos heróis do futebol trazem uma relação de impessoalidade com a nação, com a atribuição de apelidos. Por exemplo, Ronaldo Fenômeno começou a carreira como Ronaldinho, mas, com a aparição de Ronaldinho Gaúcho, adotou o nome na camisa: Ronaldo. Ambos jogaram a maior parte de suas carreiras no continente europeu.

Roberto Firmino em ação pelo amistoso Áustria x Brasil, disputado em 10 de junho de 2018. Foto: Wikipedia.

Conhecidos como “a pátria de chuteiras”, o Brasil sempre teve jogadores com capacidade técnica e tática diferenciadas, como: Sócrates, Zico, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Romário, Bebeto, Pelé, Garrincha, etc. Mas com o tempo e a globalização do futebol, jogadores de grande potencial deixam o Brasil cada vez mais cedo. Recentemente, jovens promessas como Rodrygo, revelado pelo Santos Futebol Clube. Mas devemos fazer a seguinte pergunta: o que isso acarreta? Um dos fatores levantados é a falta de identidade com o torcedor brasileiro, com um clube brasileiro e consequentemente com o futebol praticado aqui. Muitos jovens atletas que saem muito cedo tendem a não serem conhecidos pelos torcedores brasileiros. Conhecemos o futebol de alguns apenas, aqueles que disputam competições europeias importantes como: UEFA Champions League, Europa League, Premier League (primeira divisão inglesa), Primeira Liga (primeira divisão portuguesa), Ligue 1 (primeira divisão francesa), Séria A (primeira divisão italiana), Bundesliga (primeira divisão alemã) e La Liga (primeira divisão espanhola). Com um atento, a maioria dos torcedores brasileiros acompanham apenas times de grandes expressão dentro desta competição, tais como: Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester United, Manchester City, Bayer de Munique, Borussia Dortmund, Inter de Milão, Juventus, Milan, Napoli, Roma, Benfica, Porto, Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid, Lyon, Paris Saint-Germain, etc.

Conhecemos a maioria dos jogadores que jogam nestes clubes do futebol europeu, mas quando se convoca um jogador de um time de menor expressão para a seleção brasileira, nos perguntamos: onde achou esse cara? Como nos casos de Roberto Firmino (atualmente atacante do Liverpool) e Fred (atualmente volante do Manchester United), que foram convocados pela primeira vez para a seleção em novembro de 2014, pelo técnico da seleção Dunga, que estava ocupando o cargo na época. A seleção brasileira enfrentou nos amistosos Turquia e Áustria. Venceu a Turquia por 4×0, com gols de Neymar, Willian e Semih Kaya (gol contra), com estreias de Fred e Firmino. E a Áustria por 2×1, com gols de David Luiz e Roberto Firmino. Houve criticas à convocação destes jogadores, com o discurso de que existem jogadores no Brasil que jogam melhor. Até o ano de 2018, o comentarista José Ferreira Neto (Craque Neto) fazia criticas em seu programa ao Roberto Firmino, por acreditar que era um jogador supervalorizado e que tinha jogadores melhores aqui no Brasil. O mesmo se fez nesta Copa América disputada no Brasil em relação ao David Neres, por acreditar que quem devia ocupar seu lugar era Dudu (atacante do Palmeiras).

Nesses discursos constatamos um distanciamento de torcedores brasileiros e comentaristas (em sua grande maioria) com os jogadores brasileiros que jogam em um futebol internacional. Pois, saem cedo do Brasil e não adquirem aquela identificação com o torcedor ou algum clube, nem com o futebol jogado aqui. Pois como saem muito novos há uma “europeirização” do futebol praticado por este tipo de jogador, mudando características próprias do futebol brasileiro, com a transgressão do drible em algumas circunstâncias do jogo (sendo de forma objetiva ou não), desequilibrando uma partida na maioria dos casos. Isso não acontece na maioria das vezes quando jogadores brasileiros jogam em times internacionais com tanta frequência. Hoje em dia, o futebol é altamente tático, com um enorme troca de passes e construções de jogadas, linhas compactadas. Isso dá pouco espaço para a execução de dribles, sendo que os jogadores que se destacam a Europa, como o próprio Roberto Firmino que não executa muitos dribles, mas se tornou fundamental para o Liverpool pela qualidade de armação de jogadas, passe e finalização. Resumidamente, um jogador moldado para o futebol europeu.

David Neres se prepara para dominar uma bola em Brasil x Bolívia, válido pela Copa América 2019. Foto: Pedro Martins/MoWA Press.

Uma das maiores criticas de comentaristas esportivos é que jogadores quando vão muito cedo para a Europa, não jogam um futebol legitimamente brasileiro, assimilando assim um estilo de futebol, seja italiano, inglês, holandês, alemão, espanhol, francês, entre outros. Assim com o estilo de jogo diferente, quando vão compor a seleção brasileira jogam igual jogam no clube – ou melhor ou pior – e a seleção se torna algo muito programático, se diferenciando de seleções como a de 1982, 1994, 2002, etc., nas quais tinham mais transgressões de dribles. Peguemos o Ronaldinho Gaúcho como exemplo. O Ronaldinho na seleção brasileira jogava brincando e driblando, fazendo jogadas fora do comum, sendo inclusive chamado de “bruxo”, por causa dessas jogadas fenomenais, além de ter sido escolhido por duas vezes o melhor do mundo.

Por fim, o futebol se tornou globalizado, tendo jogadores de vários nações atuando na Europa. Encontramos os melhores jogadores do mundo neste continente, porque a maioria dos clubes europeus tem condições financeiras, seja por causa da valorização da moeda, no caso o Euro, ou outros fatores. Com o sonho de ganhar um salário alto, jogar a competição mais valorizada no futebol mundial – Champions League – e ajudar sua família. Pode-se notar que nos últimos anos todos os times que ganharam a Liga dos Campeões tiveram brasileiros em seu elenco. Por exemplo, pegamos as últimas três edições da competição, jogadores brasileiros como: Fabinho (Liverpool), Alisson Becher (Liverpool), Roberto Firmino (Liverpool), Marcelo (Real Madrid) e Casemiro (Real Madrid). Portanto, são apresentados ao longo do texto alguns aspectos dessa globalização e como esse fenômeno afeta o futebol brasileiro.

Referência

WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Como citar

MARTINS, Gabriel Sulino. A globalização futebolística: a ida de jogadores brasileiros para o exterior. Ludopédio, São Paulo, v. 122, n. 30, 2019.