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A história de quando o Fluminense trouxe Cruyff para o Brasil

Thales Machado

O craque holandês perambulou por aqui em 1976 para ver se curtia o país. Objetivo era facilitar vinda para o Flu

Anúncio no jornal incentivava público a experiência única: ver Cruyff no Maracanã.

É 1976 e todo aquele burburinho no setor de desembarque internacional no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, chama bastante atenção. Quatro limousines estão paradas o mais perto possível do portão, esperando oito ilustres convidados, apesar de só um mesmo ser renomado e famoso. Jornalistas olham impacientemente para a tela e se animam quando se dão conta que o voo da Air France, vindo de Barcelona, escala em Paris, pousou com quinze minutos de antecedência. “Ele vai para a sala VIP antes”, “ele vai dar entrevista só no hotel”, rolam soltos os boatos, escutados pelo número razoável de fãs que espera com bloco e caneta na mão para autógrafos. De terno, símbolo do Fluminense bordado, um diretor do clube avisa que o convidado já desembarcará, não foi para nenhuma sala especial porque não é autoridade e pede para que repórter e cinegrafista da Rede Globo tenham prioridade, afinal, junto com o clube e companhia aérea, são os patrocinadores da viagem. É de manhãzinha. As portas se abrem e ele está lá: Johan Cruyff visita o Brasil pela primeira vez. E admite: pode vir jogar por um time brasileiro.

Se até quem pouco conhecia Cruyff se impressiona agora, dada a notícia de sua morte, 40 anos depois de sua primeira viagem ao Brasil, com o tamanho da importância do holandês para o futebol mundial, pensar no craque visitando o Brasil em 1976 é ter a noção de que um astro estava entre nós. Tanto que valeu até capa de jornal. Cruyff em 1976, jogador do Barcelona, era o carrasco da Seleção Brasileira na última Copa, dois anos antes, quando marcou um gol na semifinal contra o time de Zagallo. Não só isso, mas foi a grande figura do Mundial, apesar de não levá-lo, e carimbou de vez seu nome como lenda do esporte, encerrando um ciclo de absoluto sucesso. De 1971 a 1974, Cruyff foi eleito três vezes o melhor da Europa. Quando perdeu, perdeu para Beckenbauer, e o sabemos que perder para Beckenbauer é honra para poucos, para gênios tipo o dito cujo.

Air France, Rede Globo e o Fluminense patrocinavam a viagem que trazia “o melhor jogador do mundo” para o Brasil por onze dias de férias, luxo e amistosos. Por Cr$ 600 mil (cruzeiros), o jogador do Barcelona faria dois amistosos por aqui, um em São Paulo, outro no Rio, jogando por um combinado estrangeiro contra um combinado de jogadores de times do cariocas e paulistas e aproveitaria para conhecer o país, tudo pago pelos organizadores. A companhia aérea francesa queria publicidade se associando a um dos nomes mais respeitados e elegantes do futebol. A emissora de TV queria poder fazer uma cobertura especial dos dias do craque por aqui, além de exclusividade na transmissão dos amistosos. O Fluminense queria algo mais ousado: ver Cruyff atuando ao lado de Rivellino com a camisa Tricolor no ano seguinte, na busca pelo tricampeonato Carioca.

Após a conquista do Bi do Carioca em 1976, Flu quer Cruyff para o Tri.

A ideia era simples: fazer com que Cruyff se divertisse à beça no Rio, que curtisse a cidade, os estádios, a praia, o clima. Custasse o que custasse. Deixaram ele trazer uma comitiva, os sogros e dois casais de amigos (“não temos nada a ver com futebol, viemos só porque queríamos conhecer o Rio” disseram, no desembarque), ficar no hotel mais chique, frequentar os melhores shows e restaurantes. Tudo para que o coração do holandês batesse mais para o sul na hora que seu contrato acabasse com o Barcelona, em abril do ano seguinte. E aí, plano pronto: de graça, o Fluminense teria o Johan Cruyff usando a camisa 14. Ao contrário do craque e da ideia, o articulador de tudo isso está vivo. Francisco Horta, presidente do Fluminense na época.

Jornal O Globo de 06/1975.

Tudo começou um ano antes, em 1975, e em Paris, quando o Fluminense foi jogar o torneio que levava o nome da cidade. Nas arquibancadas, Francisco Horta via Cruyff jogar ao vivo pela primeira vez. O jogador fora emprestado por dois jogos para o jovem clube do Paris Saint German, na época com só cinco anos de fundação. Encantado, pensou que se aquele “clubezinho de merda francês”, segundo o relato (ou a imaginação) de Nelson Rodrigues, podia, o Fluminense também poderia. E no dia seguinte saiu com um convite para que, no ano seguinte, Cruyff viesse ao Brasil jogar três jogos com a camisa do Fluminense. O holandês foi receptivo ao convite e as conversas começaram ali mesmo.

De junho de 75, data do convite, até maio de 76, data do desembarque de Cruyff no Galeão, as negociações, o mandato de Horta e o Fluminense avançaram muito. O Tricolor Carioca foi campeão estadual, chegou nas semifinais do Brasileirão e fez a maior contratação de todos os tempos: Rivellino, ídolo do Corinthians era o comandante. E aí, Horta já não se dava por satisfeito com Cruyff jogando amistosos com a camisa do Flu. Queria o jogador sob contrato, e o fato de ele ficar livre no ano seguinte era deixa que precisava. Comprá-lo era impossível.

Cruyff na chegada a São Paulo — “O Globo” 2/6/76.

“Um investimento impossível por causa dos compromissos com o pagamento dos passes do Rivellino e do Paulo César (Caju). Por isso só agora comecei a pensar em trazê-lo de verdade. Sei que ele terá passe livre em abril de 77 e, se gostar do Rio, será muito mais fácil chegarmos a um acordo”, disse o presidente, na véspera da chegada do craque no Brasil.

E assim o plano mudou. Cruyff viria para dois jogos por uma seleção de estrangeiros. O Flu cuidaria da programação, que envolveria churrascarias, shows de samba, suíte presidencial de hotel em frente ao mar, passeio em Angra na casa de um dos banqueiros mais ricos da cidade, em voo com o jatinho do cirurgião plástico Ivo Pitangui. Nada poderia dar errado e toda a comitiva Cruyff precisava ser tratada com o máximo de mimos para facilitar a vinda do jogador do Barcelona. O relato da viagem, tão bem documentado nos jornais da época, poderiam dar uma noção do porquê de Cruyff nunca ter voltado.

Chegada de Cruyff rendeu capa do “O Globo” em 27/5/76.

Voltemos ao aeroporto. Cruyff desembarcou e simpático, atendeu fãs e repórteres, com aquela devida atenção especial à Globo. Confirmou o que na verdade já era a notícia que todos esperavam ver no dia seguinte: ele cogitava vir ao Brasil e, apesar de não falar, o destino seria o Fluminense. “Sou um profissional do futebol e é dele que eu vivo. Se receber uma proposta que compense minha saída da Europa, onde além de jogar tenho inúmeros negócios e acertos publicitários, não terei a menor dúvida em vir para o Brasil”, disse aos repórteres na chegada, já preestabelecendo que a quantia que pediria não seria baixa.

As quatro limousines alugadas pelo Flu para os quatro casais esperavam do lado de fora. Quando Cruyff terminou de atender fãs e imprensa, partiram e a Sra. Cruyff logo se impressionou com a feiura da cidade. Primeiro, espanto com a imensa e pobre Favela da Maré, na saída do Galeão. Depois, se incomodaram com o mau cheiro do Gasômetro, em São Cristóvão, desativado em 2006. “Se isto é o Rio quero voltar para Barcelona”, disse a esposa do craque, como relata detalhada reportagem do “Jornal do Brasil” que acompanhou, no carro, a ida do jogador até o hotel.

O casal Cruyff no carro. Jornal do Brasil 27/5/1976.

A impressão da senhora, não tão simpática quanto o marido, melhorou quando passaram por Copacabana, Ipanema e Leblon e gritinhos foram ouvidos junto com discretos selinhos no craque. Um casal feliz no paraíso tropical. Percebendo, e pensando em não passar em frente a Rocinha e desagradar mais uma vez as vistas da família holandesa, espertamente, o motorista decidiu mudar o caminho, indo pela Avenida Niemeyer e chegou até São Conrado pela orla, onde todos se hospedariam no Hotel Nacional, que ofereceu as diárias grátis para a vinda do melhor jogador do mundo. Suíte presidencial para o casal e todas com vista para o mar para os amigos. Não bastou. Reclamaram que os quartos tinham vista para andaimes de uma obra na vizinhança, que queriam banheiras e não chuveiros, e que o bairro de São Conrado não era o Rio que esperavam: tinham vindo para conhecer Copacabana. E assim, hora depois, partia a comitiva, abandonando o hotel desenhando por Oscar Niemeyer, para irem hospedar no Meridien, de frente para o mar certo desta vez, o de Copa, divisa com Leme.

Mal humorada a ponto de não conseguir disfarçar, a esposa de Cruyff se recusava a falar com a imprensa, dizendo ser apenas “a esposa”, não tendo nada a declarar. Vestindo um macacão muito justo, só teve tempo de fazer uma piada pedindo para ninguém compará-la a um frentista, o que ganhou o registro nos jornais, mostrando o status popstar da família por aqui.

Jornal do Brasil 28/5/1976.

Com tudo certo no novo hotel, família e amigos saíram tranquilamente para pegar uma praia. Ao ver uma bola e um trave encravada na areia, Cruyff chutou para dentro, como instinto. Simples, de roupa de banho, no sol, pouco foi reconhecido pelos banhistas. Outros tempos de se ser popstar, a década de 1970. Nenhuma foto, nenhuma selfie, “uma praiana tranquila”, como dizem os cariocas. Voltou para o hotel e pela noite foi jantar com Francisco Horta no “Marios”, conhecida churrascaria da Zona Sul. Depois, ida até Ipanema para um show de samba, desses cheio de mulatas, gringos e paetês. A família se divertiu, contam.

No dia seguinte, mais praia, e ida à sede do Fluminense para um show de samba de Sargentelli, famoso empresário que preparou mais uma apresentação especial com tudo de peculiar e clichê que o Brasil tinha. Na programação oficial, Cruyff e sua comitiva iriam passar uns dias no Guarujá, mas não puderam, porque o hotel que iriam ficar estava lotado e ninguém havia feito as reservas com antecedência. Não teve jeitinho brasileiro e o jogador viajou sozinho para São Paulo onde, em entrevista coletiva, confirmou a ideia de vir jogar no Brasil e, apesar dos pesares da organização da excursão, disse ter gostado muito do Rio: “achei tudo muito bonito, as praias, as paisagens. E o brasileiro é um povo muito simpático mesmo”.

Piadinhas sobre a estadia de Cruyff no Brasil no “O Globo” de 1/6/76.

Nos jornais, a estadia de Cruyff seguia repercutindo: uma nota por dia nas colunas sociais sobre suas aventuras noturnas, seção de piadinhas toda dedicada à passagem do jogador pelo Rio e até comentários de Nelson Rodrigues, informando que o craque estava em choque com a beleza do Pão de Açúcar, e que tinha comentado que achava o futebol brasileiro lento. “Pois então que se conserve essa lentidão que nos deu três campeonatos do mundo”, criticou o sempre nacionalista Nelson, avesso a qualquer crítica estrangeira.

O primeiro dos dois amistosos entre “Brasileiros x Estrangeiros” que Cruyff jogou foi no dia 2 de junho, no Morumbi. Treinou um dia antes do Parque Antartica e marcou três gols no coletivo. No dia seguinte, 21h, com transmissão exclusiva da Rede Globo, Cruyff cogitou decepcionar o público paulista e não jogar por um motivo justo: sua mulher, aquela incomodada com a falta de total beleza do Rio ou com os quartos sem banheira, teve uma tremenda crise renal. Superada e apresentando melhoras horas antes da partida, Cruyff vestiu a camisa 14 do time dos estrangeiros e abriu o placar, aos 10 minutos do primeiro tempo. Toninho empatou o jogo para o combinado dos brasileiros, e o jogo terminou em 1 a 1 com ritmo bem amistoso. Valeu para o Morumbi ter a oportunidade única de ver o melhor jogador do mundo, algo que o Maracanã também teria dali a três dias, como dizia enorme anúncio da Rede Globo nos jornais.

Apesar do jogo histórico, ainda mais se visto 40 anos depois, com toda a importância histórica que sabemos sobre Cruyff, e que já sabíamos sobre o Maracanã, menos de 14 mil pagantes foram ao estádio ver um jogo chato e monótono. O combinado brasileiro venceu por 2 a 1, gols de Rodrigues Neto e Ziza, com o argentino Doval descontando para os estrangeiros. No intervalo, Cruyff e o uruguaio Pedro Rocha, os dois mais famosos do time gringo, foram substituídos, o que murchou a empolgação do público e do jogo.

Cruyff se foi ainda no dia do jogo, pela noite, e nunca mais voltou. Não, pelo menos, para ser jogador do Fluminense, ou para desfilar sua categoria pelo Maracanã, ou por qualquer palco por aqui. Não para destilar toda elegância revolucionária de seu futebol. O motivo de sua não volta não foi o quarto do hotel, o descontentamento da esposa, a visão da favela da Maré ou o cheio do gasômetro de São Cristóvão. Nada disso. Cruyff não voltou porque, ano depois, o Fluminense não tinha mais dinheiro. Nem fez proposta. Horta já estava em seu último ano de mandato, sabia que precisava deixar algum caixa para a próxima gestão, e a grandeza de Rivellino, já ídolo, fazia o ordenado do craque brasileiro impossibilitar a vinda do craque holandês, que acabou renovando com o Barça sem nem cogitar vestir a camisa de outro clube que também misturava o grená a outras cores.

E assim a história do Fluminense, do Barcelona, de Cruyff seguiu. E a única lembrança possível do holandês jogando com Rivellino num mesmo campo é de uma noite alemã em 1974, em lados opostos, em uma semifinal de Copa do Mundo. Brasileiro nenhum esquece. Holandês também não.


Publicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2016, que é uma revista digital de publicação de histórias de futebol.