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A Homofobia veste verde?

Giovana Capucim e Silva

O primeiro texto que escrevi para a sessão “Arquibancada” do Ludopédio teve como tema os silêncios que cercam a homofobia no futebol. Nele falei, em particular, das polêmicas em torno da figura do jogador Richarlyson. Deixo de lado meu temor em ser repetitiva, pois é bem maior minha indignação com a nova polêmica envolvendo o jogador no início desse ano. Mais uma vez, aparece envolvido o nome da Sociedade Esportiva Palmeiras. O primeiro fato controverso envolvendo o atleta e a agremiação aconteceu em 2005, antes de o profissional ser contratado pelo São Paulo F. C. Na época Richarlyson chegou a fazer exames médicos no Palmeiras tendo tudo acertado com o clube, surpreendendo a todos seu acerto definitivo com o rival tricolor. Isso causou uma sensação de “traição” nos torcedores e na diretoria palmeirense. As animosidades de palestrinos com o jogador não pararam por aí. No entanto, as desavenças saíram do campo do profissionalismo e passaram ao desrespeito pessoal. Não vou retomar aqui toda a situação que em 2007 levou um dirigente palmeirense a afirmar que o jogador é homossexual havendo uma série de consequências até judiciais.

Richarlyson, quando era do São Paulo tenta roubar a bola de Wendel, do Palmeiras em jogo disputado em 2007. Foto: Photocamera.

Seguindo a tradição de confusão entre o atleta e o clube nos anos ímpares, ao final da temporada 2011 houve nova tentativa de contratação do jogador pelo Palmeiras. Dessa vez a responsável pelas animosidades foi a própria torcida que reagiu à notícia da possível vinda de Richarlyson para o clube levando a expressão “fora Richarlyson” à terceira posição entre os assuntos mais comentados no Brasil numa rede social. Caso fossem apenas questões identitárias ou de “amor à camisa” que impedissem a vinda do atleta para o Palestra Itália o tema desse texto não seria a homofobia. Nessa manifestação no mundo virtual não foi incomum encontrar postagens homofóbicas, tais quais “Trocar Pierre por Richarlyson NÃO é sacanagem, é VIADAGEM!”, ou “Palmeiras sai do armário e contrata Richarlyson.”. Entretanto, essas mensagens não circularam na imprensa esportiva, conforme veremos a seguir. Além disso, as manifestações homofóbicas da torcida palmeirense não pararam por aí.

A principal torcida organizada do Palmeiras, a Mancha Alviverde, promoveu antes do início da temporada 2012 uma manifestação protestando contra a lentidão da diretoria do clube na busca de reforços e nesta uma faixa chamou a atenção. Ela trazia os dizeres “a homofobia veste verde”. É bom esclarecer que a manifestação aconteceu na semana seguinte ao citado movimento na internet. Nenhum torcedor presente no local quis dar explicações à imprensa a respeito da faixa.

Torcida do Palmeiras mostra a sua camisa. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Como sabemos, a diretoria alviverde acabou desistindo da contratação do atleta, mas isso é irrelevante para esse texto. Novamente trago à baila meu texto anterior sobre os silêncios que cercam o tema da homofobia no futebol brasileiro. A atitude da organizada palestrina é de uma violência gravíssima e mais: ocorreu na primeira semana de janeiro quando as redes de mídia estão “caçando” notícias, já que os campeonatos nacionais (e internacionais) estão em férias. Nada disso foi suficiente para quebrar a barreira que impede a entrada dos debates sobre homofobia nos noticiários esportivos brasileiros.

Para comprovar o que afirmo, fiz um exercício simples: coloquei “Richarlyson no Palmeiras” no site de buscas mais usado. Abri somente as notícias que estavam nos domínios dos 15 mais acessados no país . Fui somente até o fim da página dois das buscas por opção metodológica. O resultado foram três reportagens do domínio “UOL” (incluindo uma da Folha que é parceira do grupo) e duas do domínio Terra. Das cinco, apenas uma trazia menção à faixa da homofobia. Observando a data das notícias vê-se que as outras quatro saíram antes do manifesto homofóbico da torcida, mas depois do movimento da internet. Sobre ele, apenas duas reportagens o mencionaram. Uma citou apenas “tuitadas” que não faziam menção à orientação sexual do jogador. A outra tentou atenuar a violência das mensagens afirmando que “parte das mensagens continha um viés homofóbico.” .

Isso revela aquilo que venho tentando demonstrar: apesar da violência da atitude desse grupo de palmeirenses não houve grande repercussão na imprensa esportiva, sequer na digital que é tida como espaço para notícias “menores”, uma vez que não possui tempo ou espaço limitado como os meios audiovisuais e impressos.

Conforme crescia minha indignação diante de tal resultado fiz novo teste: utilizando os mesmos procedimentos da pesquisa anterior coloquei “homofobia veste verde” no buscador. Dessa vez inverteu-se a proporção: um texto do domínio Terra e quatro do UOL. Entretanto, apenas a reportagem do primeiro estava na seção de esportes, já as demais estavam em blogs ou sites que tratam sobre comportamento, política e específicos sobre notícias LGBTT. Nesses casos há, sim, a intenção de denúncia e um tom de indignação do jornalista a respeito das proposições. Há, inclusive, uma notícia que afirma que a torcida organizada pode ser condenada a pagar uma multa em razão da faixa . Não encontrei qualquer notícia que aponte uma resolução para o caso.

Participantes do 6º Seminário Nacional LGBT sobre os direitos dos homossexuais, realizado na Câmara, fazem manifestação na rampa do Congresso em Brasília. Foto: Antonio Cruz – ABr.

Como se pode observar não se pode, e nem é minha intenção, afirmar que não há debate sobre homofobia na sociedade, mas, sim, alertar para a força que blinda a entrada desses debates na imprensa esportiva, particularmente, no que diz respeito ao futebol. Parece-me que há um esforço para demonstrar que a homofobia não faz parte do universo do futebol, como se fosse algo que existisse, mas somente em outros espaços. Como se o futebol não estivesse inserido em nossa sociedade heteronormativa.

Mais uma vez me vem à mente uma fala a respeito de Richarlyson quando o atleta processou um dirigente palmeirense por afirmar que ele era homossexual. O processo foi arquivado e na sentença havia asserções preconceituosas como “futebol é jogo viril, varonil, não homossexual” ou “[um fã de futebol] jamais conceberia um ídolo seu homossexual” . Tudo isso reforça a existência em nossa sociedade do julgamento do homossexual como um ser humano “menor”, “doente” e incapaz de realizar coisas extraordinárias. Faço questão de finalizar esse texto com uma frase do ator estadunidense Johnny Galecky ao se explicar sobre o porquê de não se defender dos rumores sobre sua possível homossexualidade: “Por que se defender de algo que não é ofensivo?” . O seu silêncio, evidentemente, é de uma natureza muito diversa do que o mantido pela imprensa esportiva.

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[1] Ver https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/os-ecos-do-silencio-a-homofobia-no-futebol/ onde trabalho a situação com mais detalhes.

[2] De acordo com http://www.ginfotec.com/2011/12/01/top-50-sites-mais-acessados-brasil-segundo-alexa/ são, portanto: UOL, Terra e Globo.

[3] http://www1.folha.uol.com.br/esporte/1027474-noticia-sobre-richarlyson-no-palmeiras-causa-revolta.shtml

[4] http://acapa.virgula.uol.com.br/politica/torcida-do-palmeiras-pode-pagar-multa-de-r$-55-mil-por-faixa-a-homofobia-veste-verde/2/14/15649

[5] http://acertodecontas.blog.br/sala-de-justica/juiz-nega-ao-de-jogador-e-diz-que-futebol-para-macho/

[6] Tradução livre de http://www.towleroad.com/2010/05/galecki.html