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A hora de voltar

Cristiane Nestor de Almeida

Em tempos de pandemia, esse texto se propõe a analisar um outro tipo de retorno, o das atletas que se tornam mães. Para muitas delas é quase impossível vivenciar a rotina proporcionada pela profissão e a maternidade. O jornalista Breiller Pires pontuou que das 23 atletas da seleção brasileira apenas uma era mãe, Tamires. Já na seleção masculina apenas seis jogadores não eram pais, sendo que alguns deles tinham mais de um filho.

Tamires conseguiu superar as barreiras de ser uma atleta bem-sucedida em um país que predomina o apreço pelo futebol masculino. Para retornar aos gramados, após sua gestação, precisou de 4 anos para conseguir conciliar a rotina mãe/trabalho, contando com a presença de seu parceiro, que hoje cuida do filho. Mas histórias de sucesso, como a de Tamires, são raras, tanto que ela era a única atleta mãe no elenco de 2019.

A jogadora Tamires Cássia Dias Gomes. Foto: Wikipedia.

Soma- se à discrepância entre futebol feminino e masculino o fato de que a gestação afeta a vida da atleta antes, durante e depois à gestação. Ou seja, há adaptações nos treinos e nos jogos e, segundo a medicina, ainda que não haja impeditivos para o treino no período gestacional, eles precisam ser adaptados e as atividades de performance evitadas, questões que comprometem o rendimento das jogadoras. Logo, algumas atletas optam por serem mães apenas quando encerram a carreira, pois além dos fatores relacionados acima ainda existe o “prazo de validade” da carreira feminina, já que existem raríssimas exceções de atletas com mais de 40 anos, podendo ser citada a jogadora Formiga, veterana de 41 anos da seleção e que participou de sete edições da Copa do Mundo de Futebol Feminino. Após o parto, a licença maternidade dura de quatro a seis meses, porém o retorno das atletas aos gramados pode durar mais tempo que o mencionado acima, pois o bebê pode precisar mais da mãe, além da rotina de amamentação e saúde, fatores que nem sempre conseguem ser supridos com a presença masculina. Além do mais, as atletas enfrentam também a resistência dos clubes que desestimulam a gravidez, seja de modo velado ou explícito.

Esse é o caso relatado de atletas da Espanha, em que há no contrato o estímulo a não gravidez e que, na maioria das vezes, não há denúncia disso por receio de perder o vínculo com o clube, já que

“a Lei do Esporte consagra na Espanha que os homens, só por serem homens, gozam de alguns direitos não reconhecidos às mulheres. Por lei, as mulheres não podem ser atletas profissionais, pois só as ligas masculinas têm o status de profissionais.”  (Arribas, 2017).

O fator financeiro permite, geralmente ao atleta masculino, bancar toda a família, uma vez que os salários dos jogadores masculinos são maiores do que os femininos, mesmo se deslocando entre clubes e até países. As atletas mulheres muitas vezes não recebem salários, apenas ajuda de custo, e quando os recebem os valores são menores se comparados à liga masculina, que no Brasil se refere aos campeonatos regionais e brasileiro, a Copa do Brasil e aos torneios internacionais: Libertadores da América e Copa Sul-Americana.  Assim sendo, a maioria das atletas adia e, até mesmo, renuncia o sonho de ser mãe, pois muitos clubes não sofrem sanções ao não renovarem o contrato das atletas após a licença-maternidade.

Assim, a tríade “mãe, mulher e atleta” é considerada por muitas jogadoras um sonho quase impossível. A maioria delas trata a maternidade como um sonho que, no mínimo deve ser, senão anulado, adiado.

Em entrevista, Tamires defendeu que os clubes precisam se preparar e ter uma estrutura que permita a mulher atleta engravidar. As mesmas precisam ter respaldo: antes, durante e depois da gestação, para que um sonho não interrompa o outro.

“É um sentimento que não consigo descrever, hoje eu me sinto muito mais forte como mulher, profissional …No momento que descobri que eu estava grávida foi difícil, mas hoje eu diria é a coisa mais maravilhosa que aconteceu na minha vida. Eu chegar do treino ver ele abrindo a porta com sorriso e me dando abraço, não tem coisa mais gratificante. É um presente.” 

Logo, apesar de apenas uma atleta ser mãe entre as selecionadas da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019, é possível o sonho: mãe/ profissional. No futebol, como em outras profissões, é necessário assegurar à mulher o direito a esse sonho.

Referências

ARRIBAS, Carlos. Contratos com clubes impedem atletas espanholas de engravidarem. El País, 2017. Acesso em: 16 jun. 2020.

MENDONÇA, Renata. Tamires é a única mãe da seleção, parou de jogar 2 vezes e hoje vive auge. Dibradoras/UOL, 2019. Acesso em: 16 jun. 2020.

PIRES, Breiller. Ser mãe ou jogar futebol, o dilema das mulheres que vivem da bola. El País, 2019. Acesso em: 16 jun. 2020.

______. Um discreto fenômeno chamado Miraildes. El País, 2019. Acesso em: 21 jun. 2020.