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A Inglaterra é referência para o uso do VAR no Brasil?

Thiago Peruch, Yves Vieira

O VAR (sigla em inglês para Video Assistant Referee) está causando polêmicas no Brasil. Demora, falta de critérios e busca por mínimos pontos de contato são as críticas que mais aparecem quando se comenta sobre a tecnologia em programas esportivos, nas transmissões e com amigos no dia a dia.

Em compensação, a Inglaterra está se tornando, a cada dia que passa, uma referência para os outros árbitros de vídeo. O tempo para revisão e conferência é de 1 minuto e 2 segundos para anulação de gol, inferior à média de 1 minuto e 39 segundos do Brasil e ao recomendado pela FIFA, 75 segundos (1min15s).

A principal diferença entre o VAR brasileiro e o inglês é a orientação das Confederações passada para os árbitros de campo e de vídeo. Por exemplo, na Inglaterra, a revisão do lance de gol deve ser feita até o fim da comemoração do tento marcado. Aqui, o juiz pode demorar o quanto tempo for necessário para análise, como nos dois pênaltis do Bahia, no jogo contra o Palmeiras, pela 14ª rodada, em que as duas revisões demoraram cerca de 10 minutos no total.

A orientação da FA (The Football Association, entidade que controla o futebol inglês) é de paralisação mínima, ou seja, somente erros grotescos são levados em consideração. No clássico inglês, válido pela 9ª rodada da Premier League, entre Manchester United e Liverpool, o lance anterior ao gol dos Red Devils foi polêmico e poderia ter sido anulado caso ocorresse aqui no Brasil. Mas a arbitragem de vídeo analisou que não foi um erro claro, o qual seria necessário chamar Martin Atkinson, árbitro da partida, para a área de revisão.

O VAR não entendeu a entrada em Origi como falta. Foto: Reprodução/ESPN Brasil.

Entretanto, essa postura foi criticada pelo chefe da comissão de arbitragem CBF, o ex-árbitro Leonardo Gaciba. Para ele, “o meio termo [seria o ideal]. Um erro claro não é um erro grosseiro”. Gaciba entende que o Brasil está pouco rígido, enquanto os ingleses estão com pouca tolerância. As maiores críticas sobre a rigidez da Inglaterra são a respeito de ignorar faltas claras, sobre o propósito de “mínima interferência, máxima eficiência”.

Em relação ao tempo demorado, Gaciba faz uma analogia com o aprender a dirigir um carro, deixando a entender que os árbitros estão praticando a utilização da tecnologia. O que é outra diferença com a Inglaterra. Os árbitros ingleses, que foram profissionalizados, ou seja, o emprego deles é apitar jogos, passaram por treinamento que durou meia temporada. Desde janeiro, eles treinaram a utilização da ferramenta, enquanto os jogos da Premier League e das demais ligas britânicas ocorriam. No Brasil, os árbitros passaram por um treinamento em jogos não oficiais.

Na Inglaterra, as decisões do VAR são mostradas nos telões dos estádios, ao contrário do Brasil. A explicação da CBF é que nem todos os estádios tem telões que podem ser transmitidas das imagens em tempo real, o que, para a Confederação, não seria democrático. Todavia no país europeu, também não são todos que possuem telões, como Old Trafford. Nesse caso, a decisão é divulgada por meio do sistema de som do estádio.

No entanto, nem tudo são flores com o VAR inglês. Já há quem fale que os elogios destinados ao mesmo tenham sido exagerados, visto que existe a sensação de que muita coisa está passando, com a desculpa do dinamismo, rapidez e teoria da mínima interferência.

A atuação dos árbitros de vídeo no Brasil é muito questionada. Foto: Fernando Torres/CBF.

Para comentaristas da ESPN, “Inglaterra é, de longe, o país que está errando mais com essa tecnologia”. Não é para tanto. Todos os países e ligas devem melhorar o uso da ferramenta. Mas a certeza é que a polêmica na Inglaterra é muito menor àquelas que temos aqui no Brasil, onde em toda rodada, mais de uma polêmica se instaura nos noticiários esportivos e nas conversas com amigos.