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A justiça dos poetas

Lúcio Humberto Saretta

Na história do futebol, não são poucos os casos de times que, tendo penetrado nas profundezas do sonho coletivo, acabam por desperdiçar os louros de uma conquista iminente, causando grande decepção entre os seus aficionados.

Em 1950, por exemplo, a seleção brasileira foi personagem da maior tragédia esportiva de que se tem notícia entre nós. Aureolado como franco favorito graças às atuações estupendas na fase final da Copa do Mundo, o time de Barbosa, Bigode, Zizinho e Ademir acabou deixando escapar a vitória final dentro dos seus domínios.

Nos instantes finais do jogo contra o Uruguai, enquanto se debatia como um peixe fora d´água em busca de um gol salvador, o time brasileiro escrevia também os últimos versos de uma triste canção. Nas palavras do estudioso Franklin Morales,

“Fue algo así como el suicidio de un poeta, incapaz de enfrentar las durezas de la vida, en la que no todos los días eran fiesta como ellos creían mientras jugaban, danzaban, se divertían”.

Outra queda de proporções avassaladoras aconteceu na Copa da Espanha, em 1982. Na época, os ases canarinhos eram Falcão, Zico e Sócrates, artífices de uma engrenagem bem azeitada pelo técnico Telê Santana. Embevecido, o mundo assistiu às apresentações repletas de lirismo da nossa seleção, até a chocante derrota frente à “squadra azzurra”, no estádio Sarriá.

Dessa vez, no lugar de Obdulio e Ghiggia, os vultos que habitariam para sempre os nossos mais terríveis pesadelos foram Zoff, Tardelli e Rossi. Lágrimas rolaram em profusão pelas faces das atônitas crianças brasileiras, em uma tarde em que o pragmatismo venceu a beleza e a fantasia.

Contudo, as qualidades poéticas de um time não se medem necessariamente pela sua beleza. No campeonato brasileiro de 2020, uma misteriosa ilusão levou a torcida do Internacional a construir, de um modo irreversível e angustiante, os seus castelos de areia.  E aqui é preciso estar atento para um componente dramático: depois de ter sido o time mais vitorioso do país nos anos 1970, o “clube do povo” se perdeu em um labirinto sinistro, tendo vagado desde então sem encontrar a saída que o levasse a um novo título nacional.

É verdade que o tão ansiado galardão quase veio em mais de uma oportunidade. Algumas delas foram especialmente traumáticas, como a final de 1988, contra o Bahia, e, mais recentemente, em 2005, quando onze partidas foram remarcadas em razão de uma máfia do apito, alterações que acabariam por tirar o título do colorado. Em 1987, 2006 e 2009 o Inter também vislumbrou a glória. Entretanto, como se fosse um Sísifo dos gramados, o time gaúcho não consegue alcançar o topo da montanha, apesar de todo o esforço desprendido.

No espelho entre time e torcida, com todas as nuances de amor e ódio que repousam em seu cristal, as dores do poeta são um fardo que acaba recaindo sobre a última. Embora seja o conjunto de atletas o responsável por fazer nascer a quimera, através das suas tramas e gols, ela viceja e habita sobretudo no coração de cada fã.

Nesse sentido, o torcedor acaba perdendo a sua condição de normalidade, adernando, de um modo inconsciente, para um mundo paralelo de devaneio, paciência e aflição. Resignado com os sistemáticos fracassos do seu time, ele veste a capa negra do poeta, para quem o tempo tem um valor relativo, diferente daquele percebido pelo cidadão comum.

E assim voltamos a 2020, quando o Inter renasceu das cinzas outra vez. Custodiando a meta colorada, Marcelo Lomba fazia defesas importantes, auxiliado pela dupla de zaga Cuesta e Moledo; nas laterais, Rodinei e Moisés, sempre diligentes, tinham o fôlego para destruir e atacar quando necessário; Edenilson e Patrick eram presenças vitais no meio de campo, enquanto que, no ataque, Tiago Galhardo e o jovem Yuri Alberto foram os vultos de maior proeminência.

Internacional

Foto: Ricardo Duarte/Internacional/Fotos Públicas

Longe de ser espetacular, o time colorado acabou primando pela regularidade. Atuando nas sombras dos poderosos clubes do centro do país, o Inter permaneceu nas primeiras posições da tabela por praticamente todo o campeonato. A epopeia do onze escarlate foi percorrida com a fleuma de um bardo brigador e rebelde, à moda de um Byron ou Maiakovski, e a sua voz dissonante abalou as estruturas do “status quo” do futebol brasileiro.

Veio a última rodada, e a tensão atingiu limites estratosféricos nos lares colorados. A partida contra o Corinthians teve momentos de luz e sombra por parte do time de Abel Braga. De qualquer maneira, em determinado momento resultados paralelos faziam com que o Inter necessitasse de apenas um gol para ficar com o caneco.

Os ponteiros do relógio avançavam implacáveis, até que, em um frenético estertor das suas ações, o time avançou novamente pelo lado esquerdo de ataque. Cuesta cruzou e Edenilson, surgindo como um raio entre a zaga mosqueteira, apenas empurrou o couro para o fundo das redes.

Seria a glória tão sonhada e temida surgindo no instante derradeiro? Embriagados em sua própria brutalidade e emoção, muitos acreditaram. Mas o jogador estava impedido, e, ato contínuo, o juiz encerrou a partida, destruindo definitivamente as pretensões da torcida colorada. Nas arquibancadas vazias do Beira-Rio não foi possível ouvir o choro miúdo e o arrastar dos pés da multidão, como aconteceu no Maracanã, em 1950.

Face a face com a solidão e o abraço tenaz dos seus piores presságios, o torcedor desliga a televisão. Foguetes espocam aqui e ali, e um grito de alegria é ouvido em algum lugar do prédio. Mas rapidamente as manifestações daqueles que vibram com o novo e tremendo baque do rival cessam por completo. Em meio ao breu e o frescor da madrugada, só o que se ouve é o cricrilar de um grilo, e o motor manso do carro que passa na rua.

A justiça dos poetas havia sido feita outra vez.

Como citar

SARETTA, Lúcio Humberto. A justiça dos poetas. Ludopédio, São Paulo, v. 142, n. 9, 2021.