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A cena do boxe: a luta do século (parte IX)

José Paulo Florenzano

A cadeira de campeão mundial dos pesos pesados, após um longo período de vacância, iniciado em abril de 1967 quando Muhammad Ali teve o título da categoria cassado por razões extrapugilísticas, foi afinal ocupada em fevereiro de 1970 por Joe Frazier, ao derrotar Jimmy Ellis na luta realizada em Nova York.[1]

Décimo terceiro filho de um “pobre negro” da cidade de Beaufort, na Carolina do Sul, Joe Frazier cresceu na lida diária da “colheita de algodão”. Aos 17 anos de idade, cansado do ofício ancestral reservado aos descendentes de escravos e da falta de perspectiva profissional que ele acarretava, mudou-se com a cara e a coragem para o “gueto negro” da cidade da Filadélfia, no estado da Pensilvânia, incumbindo-se da função de açougueiro em um “matadouro”.[2] O futuro continuava mais do que nunca incerto, a existência permanecia precária, enfadonha e embrutecida. O único lenitivo para suportá-la estava na prática do boxe em uma academia da cidade. E foi aí que ele começou a vislumbrar a possibilidade de resolver os problemas materiais que o afligiam.

Joe Frazier desembarca no Aeroporto de Amsterdã, em 1971. Foto: Wikipedia.

Com efeito, a potência dos socos desferidos nos sacos de areia, durante as sessões de treinamento, e exibidos depois nas competições amadoras, não demoraram a despertar a atenção dos observadores mais atentos. Iniciava-se, assim, uma trajetória bafejada pela fortuna, pois, embora derrotado na disputa para representar os Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964, Joe Frazier obteve a vaga em substituição ao vencedor, Buster Mathis, contundido na véspera da competição. A chance não seria desperdiçada, ao contrário, na viagem de volta aos Estados Unidos ele trouxe na bagagem a medalha de ouro e por intermédio dela novas perspectivas para sua carreira. Convertido ao profissionalismo, Joe Frazier procurava vingar-se das agruras padecidas nos campos do Sul e nos guetos do Norte, habitando, doravante, em um “luxuoso bairro da Flórida”. Considerado um “fervoroso leitor da Bíblia”, o jovem boxeador se notabilizava, fora dos ringues, como guitarrista e cantor de um conjunto de rock apropriadamente denominado The Knockouts.[3] Todavia, um ano depois de se consagrar na condição de campeão mundial da categoria dos pesos pesados, ele tinha pela frente como desafiante, qual fênix renascida das cinzas, Muhammad Ali. Demonstrando com as palavras a mesma agilidade exibida com os punhos, o Atleta de Alá aproveitava o mote musical oferecido pelo rival para provocá-lo:

No ringue vou fazê-lo dançar ao som do meu rock de pugilista. Sou o campeão dos negros, o verdadeiro e o mais belo dos campeões.[4]

Ele estava de volta! Após um longo exílio de três anos e meio, determinado pela batalha judicial travada em torno da recusa em servir ao Exército, o boxeador proscrito regressava ao circuito profissional para acertar as contas com aqueles que lhe haviam despojado do cetro por motivos políticos, raciais e religiosos. Urgia recuperar o tempo perdido, reaver a forma o mais depressa possível. A luta que assinalava o retorno aos ringues foi marcada para 26 de outubro de 1970 contra o estadunidense Jarry Quarry.[5] Sentindo os efeitos do longo período de banimento, Muhammad Ali teve mais dificuldade do que o esperado pelos admiradores para superar o adversário, o qual lhe resistira até o décimo terceiro assalto. Transposto o primeiro obstáculo, seguir-se-ia, no princípio de dezembro, o encontro com o argentino Oscar Bonaventa, derrotado por nocaute técnico no decorrer de um combate não menos sofrido do que o anterior. De qualquer modo, a vitória lhe assegurava enfim o direito de desafiar o detentor do título mundial, ou, como ele o julgava, o usurpador do cinturão da categoria dos pesos pesados.

A crônica especializada referia-se à disputa como a “luta do século”, a primeira na história da modalidade a colocar frente a frente dois pugilistas invictos.[6] De um lado, Joe Frazier, 27 anos, dono de um cartel de vinte e seis lutas, dentre as quais vinte e três obtidas por nocaute, dotado de uma “poderosa esquerda”, um lutador temido, sobretudo, pela “força de seu soco”. De outro lado, Muhammad Ali, 29 anos, com um retrospecto igualmente invejável de trinta e uma lutas, dentre as quais vinte e cinco vencidas por nocaute, definido como um “estilista” que se exibia no tablado sempre ereto, com passos de dança, evocando a figura de um “bailarino” que se notabilizava por sua “técnica e agilidade”.[7]

Cartaz d’A Luta do Século: Muhammad Ali x Joe Frazier. Nova York, 8 mar. 1971. Foto: Wikipedia.

A cobertura da “luta do século” empreendida pela imprensa brasileira contemplava apreciações antagônicas a respeito dos protagonistas, esforçando-se, no caso específico da Folha de S. Paulo, em adotar uma posição equidistante, neutra e imparcial em relação ao embate. Enquanto, em determinado momento, Muhammad Ali era retratado como legítimo representante tanto dos “negros que lutam por seus direitos” como dos “pacifistas que condenam a guerra do Vietnã”, Joe Frazier, consoante a crítica dos inimigos, era reduzido à condição de “apenas um negro que conhece o seu lugar”.[8] Todavia, no momento seguinte, os textos invertiam-lhes as posições e o Atleta de Alá se transfigurava no “mais agressivo dos cidadãos negros norte-americanos”, adepto, ademais, de um movimento sectário que pregava abertamente “o ódio ao branco”, ao passo que o Atleta de Cristo se desvelava agora um homem “religioso”, “leitor da Bíblia”, alguém “aparentemente satisfeito consigo mesmo e indiferente aos movimentos extremistas, moderados ou pacifistas dos outros negros norte-americanos”.[9]

As reportagens publicadas em um único órgão de imprensa percorriam, dessa maneira, a gama das apreciações existentes a respeito dos boxeadores, alternando os enfoques, reproduzindo os estigmas, exprimindo a multiplicidade de olhares reunidos, às vezes, de forma ambígua e contraditória dentro de um mesmo texto. Grosso modo, podemos sumariar da seguinte maneira os atributos citados pelo conjunto das matérias: Joe Frazier era dotado de força física, pertencia à Igreja Metodista, mantinha-se alheio à questão racial, encarnava o estereótipo do bom negro, representava a nação estadunidense e personificava a ideologia do Self Made Man. Em contrapartida, Muhammad Ali era dotado de técnica e agilidade, filiado à Nação do Islã, politicamente engajado no combate ao racismo, simbolizava a revolta do atleta negro, representava os afro-americanos e simbolizava o Islamic Way of Life.[10]

Estabelecido o palco da luta, definida a significação do evento, restava apenas distribuir os papéis encenados pelos dois pugilistas, encargo assumido de bom grado pelo próprio Muhammad Ali: “Eu represento as massas”, dizia em tom de desafio, e acrescentava à guisa de provocação que o adversário era “o campeão branco”.[11] A imprensa brasileira chamava atenção para o paradoxo do drama, pois, afinal de contas, ambos os atletas pertenciam ao segmento constituído pelos afrodescendentes, conforme recordava Joe Frazier: “Sou negro e minha pele é mais escura que a dele”.[12] O desafiante, no entanto, bipartia o campo do boxe em termos análogos à divisão da sociedade e situava o rival simbolicamente ao lado do grupo hegemônico, branco, anglo-saxônico e protestante, enquanto ele ocupava o lugar ao lado do grupo subalterno, africano e muçulmano. Tal polarização não permitia meio termo nas considerações dos analistas, exigia o alinhamento a favor ou contra o que cada contendor representava naquele contexto histórico.

Dos guetos nas cidades dos Estados Unidos, sintonizados nos aparelhos de televisão, aos acampamentos dos soldados na Indochina, reunidos em torno dos transistores, todos se preparavam para acompanhar o combate, incluindo as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, agraciadas com a transmissão ao vivo de uma luta de boxe que se transfigurara em um “acontecimento político”.[13] A Folha de S. Paulo, no dia da luta, exortava o leitor a “ligar o seu aparelho de televisão hoje a meia noite”, recomendação válida mesmo “para quem não gosta de boxe”.[14] Com base em uma noção pré-estabelecida, que lhe postulava uma essência apolítica, a reportagem salientava que a luta envolvia “sentimentos alheios ao esporte”, mas, eis o paradoxo, tais fatores tornavam-na a “maior do século”.[15] Às 21 horas e 30 minutos da segunda-feira, 8 de março de 1971, envolta pelo “vento glacial” que varria a noite de Nova York, vinte mil pessoas acorreram ao Madison Square Garden para acompanhar a luta mais aguardada da história do boxe, e a de maior renda da história do esporte, algo em torno de trinta milhões de dólares, dos quais dois milhões e meio para cada boxeador.[16] As casas de aposta indicavam na proporção de 6 para 5 Joe Frazier como favorito.

Joe Frazier foi capa da revista El Gráfico, um dia depois de manter seu cinturão ao vencer Muhammad Ali, em 9 de março de 1971. Foto: Wikipedia.

Com efeito, ao longo da luta prevaleceria o equilíbrio entre os dois contendores. Mas no décimo quinto e último assalto, em um instante de descuido, Joe Frazier acertaria o desafiante com um gancho de esquerda fulminante. “Pus nesse golpe”, explicava depois o vencedor, “tudo quanto me restava de força, vigor e convicção”.[17] A foto de Muhammad Ali estendido no tablado logo começaria a percorrer o mundo. Ela simbolizava não somente a primeira derrota em sua carreira profissional, como, sobretudo, parecia prenunciar o ocaso dela. O Estado de S. Paulo profetizava “o fim de uma era no boxe”.[18] Inúmeros órgãos de imprensa anunciavam-no com sofreguidão, ênfase e júbilo. Ao vivo, na Rede Globo, o narrador Geraldo José de Almeida não se continha ao final da luta e berrava ao derrotado: “Fala, agora, Clay! Fala agora, tagarela!”.[19] O despacho da UPI, por sua vez, assemelhava-se a um necrológio: “A legenda criada por Muhammad Ali resistiu muito antes de morrer”.[20] Conforme a matéria de capa do New York Times, Joe Frazier “quebrou as asas da borboleta e esmagou o ferrão da abelha”.[21]

Com efeito, ao longo da luta prevaleceria o equilíbrio entre os dois contendores. Mas no décimo quinto e último assalto, em um instante de descuido, Joe Frazier acertaria o desafiante com um gancho de esquerda fulminante. “Pus nesse golpe”, explicava depois o vencedor, “tudo quanto me restava de força, vigor e convicção”.[17] A foto de Muhammad Ali estendido no tablado logo começaria a percorrer o mundo. Ela simbolizava não somente a primeira derrota em sua carreira profissional, como, sobretudo, parecia prenunciar o ocaso dela. O Estado de S. Paulo profetizava “o fim de uma era no boxe”.[18] Inúmeros órgãos de imprensa anunciavam-no com sofreguidão, ênfase e júbilo. Ao vivo, na Rede Globo, o narrador Geraldo José de Almeida não se continha ao final da luta e berrava ao derrotado: “Fala, agora, Clay! Fala agora, tagarela!”.[19] O despacho da UPI, por sua vez, assemelhava-se a um necrológio: “A legenda criada por Muhammad Ali resistiu muito antes de morrer”.[20] Conforme a matéria de capa do New York Times, Joe Frazier “quebrou as asas da borboleta e esmagou o ferrão da abelha”.[21]

Em meio à desilusão geral dos adeptos e seguidores, Ali reunia forças para desmentir o veredicto dos jornalistas que se apressavam em sentenciar-lhe o fim: “Eu não vou ficar chorando”.[22] Mais uma vez, não havia alternativa senão colocar-se de pé, retomar a luta, a despeito do ceticismo que, doravante, atingia a empreitada. Fora do ringue, porém, ele colheria uma importante vitória alguns meses depois. Por oito votos a favor e uma abstenção, a Suprema Corte dos Estados Unidos deliberou pela anulação da sentença que o condenava a cinco anos de prisão por se recusar a servir ao Exército, com base no direito da “objeção de consciência”.[23]

Em setembro, livre do processo, mas sob o peso da derrota que o privara de retomar o cetro de campeão mundial, ele desembarcou no Brasil para realizar uma luta-exibição. A passagem de Muhammad Ali por São Paulo será o tema do próximo artigo.


Notas

[1] Cf. “Frazier gains undisputed heaveyweight title, stopping Ellis in 5th round”, by Dave Anderson, The New York Times, 17 fevereiro de 1970.   

[2] Cf. “O ´gordo Joe` morreu: salve o campeão”, Folha de S. Paulo, 8 de março de 1971.

[3] Cf.  “Frazier puts hook into ´Victory Party`”, by Dave Anderson, The New York Times, 5 de março de 1971. Cf. “O ´gordo Joe` morreu: salve o campeão”, Folha de S. Paulo, 8 de março de 1971.

[4] Cf. “O ´gordo Joe` morreu: salve o campeão”, Folha de S. Paulo, 8 de março de 1971.

[5] A última luta oficial de Muhammad Ali tinha sido em 22 de março de 1967, no Madison Square Garden, contra Zora Folley. Cf. “Clay dons gloves again tomorrow”, The New York Times, 1 de setembro de 1970.

[6] Cf. “Os dois gigantes, a luta do século”, Folha de S. Paulo, 8 de março de 1971.

[7] Cf. “Os dois gigantes, a luta do século”. Cf “30 milhões de dólares no embate de gigantes”, ambas as matérias publicadas na Folha de S. Paulo, 8 de março de 1971.

[8] Cf. “Clay vs. Frazier: coragem e dinheiro”, Folha de S. Paulo, 6 de março de 1971.

[9] Cf. “Os dois gigantes, a luta do século”, “Depois de Roma, o profissionalismo”, ambas as matérias publicadas na Folha de S. Paulo, 8 de março de 1971. A revista O Cruzeiro também definia Joe Frazier como um boxeador que “não faz[ia] política e prefer[ia] ficar fora do movimento empreendido pelos negros nos Estados Unidos”. Cf. “Clay x Frazier: a luta do século”, 17 de março de 1971.

[10] Cf. “`I don´t have to be what you want me to be`, says Muhammad Ali”, by Robert Lipyset, The New York Times, 7 de março de 1971. Como discutido por David K. Wiggins, Victory for Allah: Muhammad Ali, the Nation of Islam, and American society. In: Muhammad Ali: the People`s Champ. Edited by Elliot J. Gorn. Chicago: University of Illinois Press, 1997, p.95, Elijah Muhammad pretendia utilizar Muhammad Ali como “modelo de cidadão da Nação do Islã”, encarnação do “Islamic Way of Life em contraposição ao “American Way of Life.

[11] Cf. “Clay x Frazier: a luta do século”, O Cruzeiro, 17 de março de 1971.

[12] Cf. “O ´gordo Joe` morreu: salve o campeão”, Folha de S. Paulo, 8 de março de 1971.

[13] Cf. “Os dois gigantes, a luta do século”, Folha de S. Paulo, 8 de março de 1971.

[14] Cf. “Os dois gigantes, a luta do século”, Folha de S. Paulo, 8 de março de 1971.

[15] Cf. “Clay vs. Frazier: coragem e dinheiro”, 6 de março de 1971. Cf. “Os dois gigantes, a luta do século”, 8 de março de 1971, ambas as matérias publicadas na Folha de S. Paulo.

[16] Cf. “30 milhões de dólares no embate de gigantes”, Folha de S. Paulo, 8 de março de 1971. Segundo a reportagem, tratava-se do “mais rendoso espetáculo esportivo em apenas uma noite”.

[17] Cf. “Frazier eufórico: Ali tem muita resistência”, Folha de S. Paulo, 10 de março de 1971.

[18] Cf. “Acaba a era de Clay”, O Estado de S. Paulo, 9 de março de 1971.

[19] Cf. “Fala, tagarela”, revista Veja, nº 132, 17 de março de 1971.

[20] Cf. “Frazier bate Cassius Clay”, A Tribuna, 9 de março de 1971.

[21] Cf. “Champion floors his rival with left hook in the 15th”, by Dave Anderson, The New York Times, 9 de março de 1971. O lutador, como sabe, era conhecido por “flutuar como uma borboleta e picar como uma abelha”.

[22] Cf. “Frazier bate Cassius Clay”, A Tribuna, 9 de março de 1971.

[23] Cf. “Clay absolvido pelo Supremo”, O Estado de S. Paulo, 29 de junho de 1971. Com efeito, a disposição de sacrificar a carreira quando ela se achava no auge, sobrepondo, aos ganhos materiais, os princípios morais, granjearam-lhe solidariedade dos segmentos que discordavam do lutador em razão do envolvimento dele com a Nação do Islã. Cf. Wiggins, David K. op. cit., 1997.


Como citar

FLORENZANO, José Paulo. A cena do boxe: a luta do século (parte IX). Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 9, 2020.